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Por Paulo H. Britto,
Professor de formação do escritor e tradução

 

Há muitos anos, quando digo às pessoas que sou professor de tradução, quase sempre a reação é de espanto: mas isso se ensina na faculdade? De uns anos para cá, quando respondo que trabalho também no curso de formação de escritor, o espanto é maior ainda. Estudar letras para ser escritor? Como alguém pode aprender a ser escritor?

 

Por muito tempo, julguei que a perplexidade provocada pela informação de que eu ensinava tradução se devia apenas ao fato de que, para o senso comum, traduzir é uma atividade fácil demais para se ensinar na faculdade. Mas a reação semelhante despertada pelo curso de formação de escritor me obrigou a procurar uma explicação alternativa, já que ninguém imagina ser fácil escrever ficção, poesia, peças de teatro ou roteiros cinematográficos.

 

O que parece estar em jogo aqui é uma concepção de naturalidade associada à linguagem. Traduzir e escrever são atividades lingüísticas; ora, linguagem é algo que se adquire naturalmente. Assim, para quem jamais traduziu ou escreveu a sério, essas atividades, por pertencerem à esfera da linguagem, são naturais, no sentido em que respirar, comer e caminhar são naturais. Para traduzir, bastaria conhecer o idioma de origem e o de destino; o processo de tradução em si, por ser lingüístico, seria natural. E, para escrever, a única coisa necessária seria a "inspiração" — um dom inato, inefável, que levaria "naturalmente" à produção de obras de arte literárias, bastando para tal que o escritor exprimisse seus sentimentos. Também aqui não haveria nada que se pudesse aprender ou ensinar.

 

Nós, profissionais de letras, somos obrigados a viver explicando às pessoas que escrever, como traduzir, é, antes de mais nada, uma técnica que é necessário aprender, como qualquer outra; que é só com base nessa técnica que é possível se tornar artista. Vocês que estão adquirindo uma formação na área de letras certamente já terão tido oportunidade de travar contato com essa visão ingênua do ofício de escritor, causando espanto ao revelar que estão cursando letras para aprender a escrever ou traduzir. Preparem-se para ter boas respostas a dar a esse tipo de pergunta, porque vão ter de respondê-la muitas e muitas vezes. Dois séculos de romantismo deixaram no senso comum uma marca profunda demais para ser desfeita da noite para o dia.

 

 

 


Esse texto foi publicado no plástico bolha nº 1 : download PDF


 

 






 

 


 

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