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Lucas Viriato e Pedro Neves



Recém-eleita para mais um mandato à frente do departamento de Letras, a diretora fala de livros, família, carreira e do atribulado cotidiano


 

Muito prazer, Lúcia Pacheco

 

"Você é um caso de dupla personalidade", ouviu Lúcia Pacheco de Lílian Mary, sua professora de Prática de Ensino, que não entendia como aquela aluna calada podia exibir tanta desenvoltura à frente da turma, quando estava dando aula. "Sempre fui muito tímida, às vezes queria ser invisível. Exercendo a profissão, a gente se transforma. Você está fazendo o que gosta, se descobre", explica a atual diretora do Departamento de Letras, reeleita para mais um mandato de dois anos.

 

Em 1969 Lúcia entrava na PUC como aluna de graduação, sem saber ainda que a sua vida, a partir de então, estaria fortemente ligada à instituição. Após percorrer um longo caminho, quase sempre vinculada à área de Cultura Americana, disciplina que ministrou durante vários anos, finalmente aceitou os primeiros cargos administrativos no departamento. Desde 2004, ela se divide entre as salas de aula e o gabinete no terceiro andar do Padre Leonel Franca, onde – entre uma reunião e outra – ainda arranja tempo para os seus orientandos e consegue tocar uma variada gama de projetos. Entre as realizações da última gestão, estão a Especialização em Literatura Brasileira, a implementação do novo currículo e a realização de uma série de eventos oferecidos aos alunos como atividade complementar. Mas não faltam itens em sua lista de "coisas a fazer":

 

"Quando assumi a direção do curso, tinha três objetivos: dar maior visibilidade, garantir a viabilidade financeira do departamento e integrar as pessoas do departamento, inclusive os alunos de graduação com os da pós-graduação, o que acabou ficando para a segunda etapa. Mas existem coisas pequenas também, como mexer com o visual do curso: as placas e as portas estão muito feias", analisa, com a fala pausada, que se mantém suave e calma durante toda a entrevista.

 

Ainda que tenha nascido em uma família de engenheiros, Lúcia sempre foi cercada pelos livros, desde pequena. "Mas meu pai era um engenheiro diferente, que lia Shakespeare, gostava de ler", frisa. Apesar disso, ela aponta como exemplos da carreira que viria a seguir a mãe e a avó, professoras primárias. Sempre tímida, se encantou por Dickens e leu muito Jorge Amado, ainda jovem. A paixão por literatura americana e inglesa surgiu logo depois e acabou se tornando sua principal área de estudos. Hoje, nos raros momentos em que não está lendo nada "técnico", se delicia com clássicos do teatro inglês e com as crônicas de Martha Medeiros, na Revista O Globo.

 

Com quase quarenta anos de PUC, ela diz precisar de um refúgio, onde não tenha que se preocupar com nada relativo ao trabalho. "Se fico no Rio, acabo fazendo as mesmas coisas. Fico tentada a sentar no computador, ler um trabalho", diz Lúcia, que, sempre que pode, passa os fins de semana em uma pequena propriedade em Araras, onde gosta de colher o almoço em uma horta, ao lado do marido, o engenheiro Ronaldo Pinto de Oliveira, também ex-aluno da PUC, com quem teve dois filhos.

 

Além de viajar e cuidar das verduras da horta, Lúcia revela gostar muito de decoração, mas não tem tempo para este hobby. Quando assumiu a direção do departamento, imprimiu um pouco de seu estilo no gabinete, mudando alguns objetos e mexendo na decoração do lugar. Afinal, é lá que ela passa muitas horas todos os dias. "Sempre de porta aberta. Estão sempre entrando, falando, pedindo algo. A parte acadêmica eu acabo fazendo no meu tempo extra, ou seja, em casa, à noite. Ou então, eu não chego tão cedo. Se não chego aqui cedo, não é que não esteja trabalhando, estou trabalhando em casa. Porque se eu vier para corrigir texto de aluno, ler tese e dissertação aqui, ficaria difícil", afirma, sem tom de queixa.

 

E, depois de chegar do trabalho, ler toda a sorte de textos, verificar e-mail, cuidar das obrigações de casa, ela garante que ainda sobra tempo para organizar o casamento do filho, ir às audições de canto lírico da filha, e ainda para momentos de puro ócio e reflexão. Ao falar desses momentos, ela lembra Pascal, um de seus pensadores preferidos. "Ele dizia que a felicidade está em se poder conseguir ficar sozinho no seu quarto. Ele quer dizer que você precisa saber conviver consigo mesmo, sempre. Se você está bem consigo, está tudo bem", filosofa.

 

 


Esse texto foi publicado no plástico bolha nº 1 : download PDF

 

 

 






 

 


 

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