Cadastre-se para receber atualizações do plástico bolha via e-mail:

 




Memória de Infância

Patricia Correia de Araújo


Casa vazia, sala ampla e muito, muito alta.

Ele sentado na cadeira de balanço vestido de avô, era meu, meu avô que pela primeira vez conhecera.

Num balanço permanente, mastigava um sei lá o quê e me observava brincando solitariamente naquela imensa e de poucos móveis sala.

Tentava ser neta.

Nova experiência. Queria me aproximar, mas me causava estranheza conhecer um "sujeito" que se apresentara como avô paterno tanto tempo depois. Aos sete anos, não sabia o que era ter avô, não sabia como me comportar e a timidez contribuía para tal bloqueio.
Ele cantava uma música estranha, em meio aos balanços e as mastigadas, mas eu só pude compreendê-la alguns anos mais tarde. Era "Asa Branca", música da terra, da seca, de fé, sua realidade nordestina.

Levantou-se e caminhou em minha direção. Olhou-me de cima para baixo, mostrou-me um sorriso vazio e convidou-me, em poucas palavras, para conhecer o principal ingrediente da pamonha. Conhecer o milharal não me parecia nem um pouco divertido, interessante, pois não comia pamonhas e ele, como bom observador, já tinha percebido (em meio à disputa dos primos pela última iguaria nordestina, me fazia indiferente).

Falava comigo em "língua estranha", mas conseguia compreendê-lo, hoje sei que é dialeto, aprendi na escola.

Mãos calejadas do "roçado" arrancavam de uma em uma as espigas... usando somente as suas mãos de avô. Mastigava...boca murcha, engraçado, eu, criança, com mais dentes que ele.

O que me pareceu um convite pouco interessante, tornou-se um contato mágico e chegamos ao ápice de nossa intimidade. Agarrei suas bochechas enrugadas e magras e disse-lhe que era muito magrinho, magrinho e que seria necessário um caminhão de pamonhas para ficar "fortinho". Com um sorriso, tipo canto de boca, disse-me: - Não como pamonhas! Riu e tossiu ao mesmo tempo. Não sei se o comentário foi para me agradar, mas já tínhamos algo em comum. Rimos muito. Quando o riso passou completou: - Quando você retornar à casa do vovô estarei assim (inchou as bochechas) e caímos na gargalhada.

De mãos dadas levamos o milho para o preparo da iguaria nativa.

Nunca mais voltei ao sítio, mas vi meu avô por meio de um costume nordestino. Seu defunto parco, sereno, como quem dorme eternizado numa fotografia.

 

 


Esse texto foi publicado no plástico bolha nº 1 : download PDF

 

 

 






 

 


 

Copyright - Jornal Plástico Bolha - 2008 - E-mail: redacao@jornalplasticobolha.com.br