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por Violeta Quental
Professora de Lingüística

 

Escrever um texto técnico-científico não me provoca emoções. Sai quase pronto, desde que saiba o que dizer. Vou escrevendo e reelaborando o que achava que sabia. Escrever a vocês, alunos, a convite – que muito me honrou – é outra coisa. Difícil. E por quê?

Primeiro, porque o gênero "carta", sugerido pelo título da coluna, encaminha para a esfera do relacionamento pessoal, ainda mais carregado pelo "com carinho". Não que o carinho não exista, mas expô-lo em público, sem o "olho no olho", me intimida.

Difícil também porque meu papel aqui está definido como o de professora: "aos alunos" circunscreve minha relação com vocês à relação possível professor/aluno. E aí tenho de ter uma lição a passar adiante, e, nesse caso, uma lição de vida. O que vale a pena passar adiante? As experiências são sempre tão importantes para nós e tão mesmices para os outros! Difícil. Prá caramba! Mas vamos lá.

Minha experiência de aluna de Letras: 1968, Faculdade de Letras, UFRJ, Avenida Chile. Um galpão velho abrigou a Faculdade de Letras, desmembrada da Filosofia e afins, que antes coabitavam no prédio ao lado da Maison de France e davam muito trabalho à repressão. Cada macaco no seu prédio; a nós, de Letras, esse galpão. As aulas aconteciam no mesmo ambiente, um grande subsolo, em que os professores ocupavam com suas turmas cada um o seu canto. Então a gente tinha aula de francês e o grupo de carteiras mais próximo de latim, o da esquerda discutia Kristeva, e assim por diante. Era ótimo, podia-se assistir a várias aulas diferentes simultaneamente. E ainda participar de todas as brigas e fofocas e controlar a vida de todo mundo. E as assembléias políticas, as passeatas, as correrias quando a polícia invadia o prédio... Superaventuras, um inimigo definido e uma enorme e santa inconsequência. O lado horrendo da coisa: a desconfiança, o medo.

A primeira lição é o lugar-comum sobre os anos de chumbo: democracia e liberdade de expressão são preciosos. A outra é um pouco mais sutil: a indigência espacial da Faculdade revelava as convergências e divergências teóricas e propiciava concretamente a descompartimentalização entre disciplinas. Isso a gente busca até hoje mostrar que é possível e me parece uma boa meta para vocês.

Segunda trama: eu adorava ler e estudar Literatura. Ainda adoro. Mas, lá pelo final do curso, comecei a estudar fonologia, morfologia (estruturalista) e os exemplos do Popoluca da Serra, do Kamayurá, me fascinaram. Sempre adorei puzzles, e daí parti para a Lingüística. E lá vai a terceira lição: curiosidade e maravilhamento, nada melhor! E mais, entre a Literatura e a Lingüística, fique com os dois, de preferência acrescentando outros ingredientes.
Resumindo a ópera, fui ser professora, de ensino médio, escola pública e particular, fiz Mestrado, Doutorado, fiquei na Universidade. No meio do Doutorado veio a iluminação. O mundo de incertezas da linguagem manipulado para sistemas computacionais! Recortar o mundo e lidar com apenas um problema que pode ser transformado em estados finitos e regido por regras, nada melhor para manter a lucidez. (Depois me dei conta de que os puzzles têm aqueles vários tons de azul de céu e de mar.) Então é isso: virei lingüista computacional. Nada mais curioso – no bom sentido, é claro:)

Para não perder a pose e o foco, busquei nessa narrativa o coloquialismo típico do gênero carta pessoal, pelo que peço mil desculpas, já que estamos em ambiente institucional. (E, se ninguém percebeu, tentei criar uma meta-carta.)
Abraços carinhosos

 

 

 

 

 

Esse texto foi publicado no plástico bolha nº10: download PDF

 

 






 

 


 

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