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por Marília Rothier
Professora de Literatura Brasileira


Instigante — este é o adjetivo que me vem, imediatamente, à cabeça, quando penso na convivência com os estudantes de Letras da PUC. Para ficar, como propõe o poeta, no "reino das palavras", começo afirmando que tédio e monotonia são termos que desapareceram do meu vocabulário, nesses dez anos de trânsito constante e animado entre aulas, cumprimentos de corredor, seminários, um café no balcão, uma conversa mais tranqüila para orientação de trabalho. Tudo parece rápido e passageiro, as tarefas se acumulam, as turmas se sucedem a cada semestre, quase que se pode ver os jovens amadurecendo; mas ficam lembranças muito fortes, experiências decisivas de aprendizagem. No fim de cada curso ou período de orientação, quando dou um balanço nas horas de trabalho, encontro, invariavelmente, um saldo positivo a meu favor. Aprendo muito com esses meninos e meninas, que me cercam; percebo pontos de vista alternativos, deixo-me fascinar por autores que jamais haviam-me atraído, descubro caminhos incríveis de raciocínio, sem contar a variedade de estilos de discurso de que, mesmo inconscientemente, vou-me apropriando. Só espero que, daqui a algum tempo, quando também contabilizarem os ganhos e despesas (intelectuais e afetivos) dos anos de estudo de Letras, os alunos de hoje encontrem haveres produtivos.

É mais que um privilégio, nessa altura de minha vida, poder envolver-me com um trabalho, que me põe ativa e alerta, pois, embora contratada como professora, a prática me convoca, de fato, é para aprender. Vou sendo surpreendida por uma variedade de novos conhecimentos, que me alcançam, nas tarefas formais e na informalidade das trocas com amigos, professores e alunos, indistintamente, mas com a distinção de ser acolhida num grupo, onde a curiosidade é permanente e todos se dispõem a falar do que acabaram de descobrir. E como é que se exercita a nova aprendizagem? Escrevendo, ou melhor, entrando na ciranda, sem começo nem fim, de escrita e leitura, de comentário dos discursos ouvidos ou lidos, que se escrevem para ser, por sua vez, divulgados e comentados. A ciranda não pára, mas tem momentos de lentidão e momentos vibrantes — estes são os da troca imediata, no diálogo e na interlocução (mais livre e também mais exigente) que se faz mediada pela internet ou pelos periódicos impressos. O jornal é, com certeza, um espaço cobiçado, pois a palavra dita no calor da hora ganha destaque sobre a permanente. Nessa parte, em especial, alegre da ciranda, onde fui recebida e vou-me deixando levar, circula, com a potência, que lhe imprime a inventividade de seu redator e colaboradores, um veículo, aparentemente insólito, mas de solidez confiável pela competência, demonstrada no cumprimento de suas propostas — o Plástico Bolha. Nenhuma responsabilidade é maior do que ocupar uma coluna, quando convidado, neste jornal. De minha parte, fiquei feliz com a honra do convite, mas venho adiando o privilégio, que não deixa de ser uma tarefa exigente. Leio os números anteriores e reflito: estarei pronta?

De imediato, preparar-se para escrever no Plástico Bolha soa como um contra-senso: o que o jornal propõe é uma brincadeira atraente, uma desculpa cômoda para a leitura quase compulsiva de puro prazer. E quem disse que o jogo sedutor é fácil? Quem se ilude com a suposta gratuidade do humor? Estudantes que imaginam e conseguem manter, pelos doze meses do ano, quatro páginas de graça inteligente são nada menos que gênios obstinados. Conseguem, no dia a dia da escola, a proeza de divertir-se — e divertir um número imponderável de leitores — com o mais rigoroso dos trabalhos! Plástico Bolha, visto por esse ângulo, é uma metáfora perfeita para o conceito de "literatura" — uma articulação inesperada de signos comuns, cotidianos, sem compromisso com referências legitimadas como verdadeiras e, por isso mesmo, produtores de um saber atraente, cujo sabor — marcado pelo toque ácido da crueldade crítica — é difícil recusar. De minha parte, reconheço a impossibilidade de inventar um texto com as vantagens do útil e do fútil. Pois o texto, oferecido como plástico bolha, é o que encadeia as palavras de modo a protegê-las dos choques da incompreensão e, ao mesmo tempo, revela o gosto disfarçado dessas palavras, obrigando seu receptor a agarrá-las num ímpeto, com todo o gosto e nenhuma cerimônia.

(Encantada com o convite e a oportunidade de também soprar algumas frases compondo minha pequena bolha, nesse conjunto plástico que explode a qualquer toque – mesmo apressado e leve —, quero entrar no ritmo dos ruídos alegres, mostrando, no final das contas, que aprendi a lição dos meus alunos).

 

 

 

 

 

Esse texto foi publicado no plástico bolha nº11: download PDF

 

 






 

 


 

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