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Traduzindo para a televisão

SABRINA MARTINEZ é sócia-fundadora da Gemini Vídeo, empresa responsável pela tradução de grande parte das séries e programas a que assistimos na tv a cabo. Professora de Tradução para Legendagem na PUC-Rio, achou um tempo no atarefado período que antecede a defesa de sua dissertação de mestrado para conversar com o plástico bolha

Qual a sua formação? Você faz outro tipo de tradução, além da legendagem para televisão? Qual?


Eu me formei em Comunicação Social (Jornalismo) pela PUC em 1992. Depois, fiz o curso de Formação de Tradutores pela CCE (2 anos). Em 2002, fiz a Especialização em Tradução na PUC e agora estou finalizando o Mestrado em Tradução, também na PUC. Eu me apaixonei pela tradução ainda na faculdade de Jornalismo, depois de cursar o quinto período na Universidade de Missouri através de um intercâmbio promovido pela PUC. No sétimo período, quando eu era estagiária do Jornal da PUC, fui cobrir uma palestra com a Monika Pecegueiro do Amaral. Ela falava sobre a tradução para legendas com tanto entusiasmo que me contagiou. Naquele momento eu percebi que também queria trabalhar com legendas e, assim que me formei, me inscrevi no curso de Formação de Tradutores. Meu primeiro emprego em tradução já foi com legendagem. Assim que terminei a formação, passei no teste da Globosat. Portanto, sempre trabalhei com legendagem para a TV.

Quais as principais diferenças entre a tradução de cinema e a de televisão?


As principais diferenças são técnicas. Por exemplo, enquanto na tradução para a televisão a unidade de referência básica é o segundo, no cinema, a unidade básica é o pé de película. Um segundo de um programa de TV gravado no formato NTSC possui cerca de 30 frames (ou quadros), enquanto um pé de película contém 16 quadros. Os legendadores precisam saber essas coisas para fazer o cálculo de caracteres por segundo (ou pés de película), o que tanto no cinema quanto na TV fica por volta de 15 caracteres por segundo. Essa é a velocidade média na qual uma pessoa adulta consegue ler uma legenda. Há algumas outras diferenças técnicas e de padrões em função das dimensões das telas, mas, no geral, o trabalho é o mesmo.
Há um fator complicador na tradução para cinema. Muitas vezes, o tradutor recebe apenas o script original para traduzir. Ele não tem o auxílio das imagens para a tradução, o que dificulta imensamente o seu trabalho. Ou seja, enquanto o original nesse caso é o script impresso, no caso da legendagem para TV, o original é sempre o arquivo de imagens.

Quais as principais qualidades do bom tradutor de legendas? Que formação precisa ter, além de conhecer os programas de computação utilizados? Um bom tradutor de textos pode ser, automaticamente, um bom tradutor de legendas?


Vou começar pela última pergunta. Não. Um bom tradutor de textos não necessariamente se adapta automaticamente à legendagem. Isso acontece principalmente por causa do nível extremo de resumo exigido pela tradução para legendas. Enquanto que na tradução de textos pode-se recorrer a notas do tradutor e a traduções explicativas, na legendagem as coerções espaço-temporais impedem isso, o que faz com que muitos tradutores de textos não se acostumem à tradução para legendas. Quanto às qualidades de um bom legendador, é importante que ele tenha formação em Letras ou áreas afins e que conheça intimamente o português e seus diferentes registros, assim como, é claro, a língua da qual traduzirá. É vital que ele tenha um ótimo ouvido, poder de síntese e que seja ágil, pois os prazos do mercado de tradução para TV são em geral muito curtos.

O profissional tem de ser eclético e aceitar trabalhos sobre assuntos diversos?


Se ele for, melhor para ele. Nos últimos anos, a TV por assinatura foi inundada de programas sobre culinária, por exemplo. Na minha empresa, temos muita dificuldade de encontrar tradutores versados em culinária que aceitem traduzir uma série dessas. O mercado precisa de tradutores de culinária! E também de tradutores com familiaridade com games, por exemplo. Esse é outro assunto do qual todo tradutor foge. Hoje em dia, um legendador que entenda de games e de cozinha é disputadíssimo pelo mercado.

Sendo o Brasil um grande consumidor de programas estrangeiros, que requerem legenda, o mercado só tende a crescer? Quais os principais softwares utilizados?


Sim, a tendência do mercado é crescer, principalmente com a popularização do DVD, que comporta versões legendadas em até 32 línguas de um mesmo filme. Ou seja, até 32 tradutores podem participar da legendagem de um mesmo filme! No Brasil, os softwares mais usados hoje são o Horse e o Subtitle Workshop, que pode ser baixado gratuitamente pela internet.

A quem o profissional recorre se tem de legendar um filme sobre um grupo específico, com um dialeto próprio? Ele deve formar glossários? Quais as melhores fontes?


Os glossários sempre auxiliam o tradutor, assim como os consultores para assuntos específicos. Mas a internet é sem dúvida a melhor fonte de pesquisa e auxílio ao tradutor. Sabendo como e onde pesquisar, encontra-se praticamente de tudo na internet, inclusive dicionários de gírias e dialetos muito bons.

Há legendas feitas em português no exterior para consumo no Brasil. São sempre ruins, feitas por amadores?


Alguns canais de TV por assinatura legendam seus programas no exterior, sim, mas recentemente, devido principalmente às reclamações constantes na imprensa, temos notado um esforço por parte desses canais de concentrar a legendagem de seus programas para consumo no Brasil aqui mesmo. Essa é uma providência recente. Vamos ver se vai dar resultado.

O tradutor tem de ser humilde e não meter a colher no original? Como ele faz no caso de canções e poesias?


Esse é um assunto polêmico e que depende muito do tipo de tradução, do público-alvo e das exigências do cliente. Generalizações são sempre perigosas. No caso da legendagem, é praticamente impossível não meter a colher, devido ao nível de resumo exigido nesse tipo de tradução. Para canções e poesias, por exemplo, a maioria dos clientes pede que o tradutor priorize o conteúdo, e não a forma. Ou seja, o importante não é quebrar a cabeça buscando uma rima ou tentando manter a métrica do original, mas tentar passar o conteúdo da mensagem presente no original. Se essa mesma pergunta fosse dirigida a um tradutor para dublagem, a resposta seria completamente diferente.

Quais as principais dificuldades do profissional de legendagem no Brasil?


Não existem cursos de formação de legendadores, o que, a meu ver, é um problema. O mercado ainda é bastante amador. Existem cursos e oficinas de treinamento, mas eles costumam ser rápidos, de poucas horas de duração, e a legendagem é um tipo de tradução tão peculiar, tão específico e que exige o desenvolvimento de tantas habilidades, que, na minha opinião, apenas um curso extenso de formação seria capaz de realmente suprir o mercado de profissionais bem-preparados. No Brasil, uma das poucas universidades que oferecem uma disciplina de Tradução para Legendagem na graduação é a PUC. Acho que é assim que a formação do legendador deve começar, na universidade.

Qual o seu conselho para quem está interessado em traduzir legendas?


Observar as legendas da TV e do cinema, tendo sempre em mente que as coerções de espaço e tempo exigem que o legendador sintetize em pelo menos 30% o original. Sabendo isso, fica mais fácil entender por que muitas vezes os tradutores usam o recurso da paráfrase ou deixam tantas informações de fora das legendas. Quem tem interesse em traduzir para legendas deve procurar desenvolver as habilidades que já mencionei, como agilidade com o computador, poder de síntese, redação, ouvido, etc., além das competências exigidas de todo tradutor, é claro.

Fundada em 2000, a Gemini Vídeo oferece curso de treinamento de 40h para novos profissionais, através de seu centro de formação em legendagem. Os interessados podem fazer contato pelo e-mail gemini@geminivideo.com.br

 

Esse texto foi publicado no plástico bolha nº11: download PDF

 

 

 

 






 

 


 

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