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por Alexandre Montaury
Professor de Literatura Portuguesa

 

Aceitei imediatamente o convite para escrever aos alunos de Letras porque a possibilidade de estender o nosso convívio acadêmico para o âmbito do texto me pareceu muito agradável. Além dos devidos agradecimentos, recebam as felicitações pelo Plástico Bolha.

Começarei por me identificar: não faz muitos anos que dou aulas de Literatura Portuguesa na PUC-Rio, mas já há algum tempo trabalho nesse campo de estudos.

Inúmeras circunstâncias de vida foram convergindo para um interesse crescente pelos estudos portugueses, o que culminou com a minha integração às atividades acadêmicas e de pesquisa da Cátedra Padre António Vieira, o que muito me orgulha. Deixarei de lado, porém, pormenores autobiográficos para arriscar algumas propostas gerais que, na minha opinião, podem ser úteis no cotidiano universitário.

Há uma imagem que muitas vezes nos ronda ou, melhor dizendo, geralmente nos é atribuída: a do “típico” estudante ou pesquisador de Letras que se entrega às delícias da ficção e das narrativas como o Alonso Quijano, sem se interessar muito pelo que está para-além disso. Esse recorrente clichê limita-se a definir os leitores como pouco habituados às providências práticas da vida. Faríamos parte de uma espécie de hedonistas insaciáveis, saboreando continuamente as artes da escrita e da leitura, em pleno isolamento.

Em primeiro lugar, a formação do clichê não parece grave. O que, entretanto, se torna fundamental é afirmar a escrita e a leitura como valores que pertencem ao mundo dos homens, ultrapassando assim a produção restrita aos espaços interiores. Não estudamos para erguer “museus egoístas” nem para produzir informações que não possam ser compartilhadas. Ao contrário, devemos partilhar nossos pontos de vista e opiniões, trocar idéias e esgrimir generosamente.

Para nós, pesquisadores ou alunos de Letras, a escolha de um objeto de estudo e a consolidação de um cotidiano de pesquisa são movimentos que, pouco a pouco, vão dando forma à nossa vida e passam a existir concretamente, adquirem materialidade. No curso do tempo, processamos bibliografias, acumulamos textos e arquivos ligados por interesses que terminam sendo, muitas vezes, nossos identificadores pessoais. Neste momento, quando um objeto de estudo parece nos pertencer, é que também se torna necessária a recuperação do movimento contrário: o de desprivatizar, retransmitir, pôr em circulação o que foi armazenado na trajetória de estudo. Nesse sentido, o esforço a ser feito é o de dar vida exterior à leitura, oferecer visibilidade, para produzir a luminosidade de um encontro, de uma aula, de uma palestra e assim retirá-la do âmbito interior.

No que concerne especialmente à Literatura Portuguesa, podemos dizer que se hoje ela é uma literatura muito menos estrangeira no Brasil, isto se deve a algumas gerações de professores que souberam trabalhar para produzir conhecimento e, sobretudo, para criar um campo de reflexão multicultural que hoje compreende diferentes literaturas produzidas em língua portuguesa.

Abrem-se vastos espaços de pesquisa e de estudo nesse específico universo cultural. Há ainda muito por aprender sobre zonas de partilha e de isolamento neste emaranhado cultural que envolve tantos países. Estabelecer um diálogo vivo e eficaz implicará a reafirmação de uma das principais responsabilidades de alunos e de professores: a de organizar, construir e repassar arquivos constituídos, multiplicando as possibilidades de trânsito e circulação de pesquisas. Alunos e professores tornam-se cúmplices nesse exercício de exteriorização com que o estudante dará forma ao seu pensamento, polindo o corpo de idéias com que irá construir a sua trajetória de investigação.

Retomando a imagem-clichê a que recorri, concluirei afirmando que um dos maiores prazeres da profissão que escolhi é trabalhar com textos literários, buscando ampliar sua legibilidade e estabelecer pontos de contato com textos de outras naturezas. Mas esses diálogos se tornam ainda mais positivos quando compartilhados com alunos interessados em criar os seus próprios espaços de leitura.

 

 

 

 

 

 

Esse texto foi publicado no plástico bolha nº12: download PDF

 

 






 

 


 

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