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AS POTÊNCIAS DA FICÇÃO


Escritor anticonvencional, pensador polêmico, Nietzsche (1844-1900) teve sua produção filosófica canonizada através de avaliações das mais discrepantes: ao silêncio da crítica quando do lançamento de seus livros contrapôs-se a ruidosa apropriação de alguns conceitos como o de “super-homem” pelo nazismo (possivelmente com o apoio de sua irmã); ao entusiasmo dos dândis e literatos da virada do século seguiu-se o novo resgate daquele pensamento “a golpes de martelo” para armar os participantes das revoltas universitárias de 1968. Se a fortuna crítica de Nietzsche apresenta esse itinerário surpreendente, as referências biográficas não são menos chocantes; incluem posturas contraditórias em relação à instituição acadêmica, estreita cumplicidade e ruptura violenta com artistas conhecidos como Wagner, freqüentes distúrbios de saúde, hábitos peculiares que levam a uma vida nômade e a (ainda mal explicada) crise de loucura, de 1889, responsável pelo internamento e tutela pela mãe e irmã, nos últimos dez anos de sua vida. Não admira, portanto, que aquele que se serviu de Zaratustra ao expor suas idéias mais ousadas tenha-se transformado numa personagem do imaginário contemporâneo, à maneira das ficções de Jorge Luís Borges.

Justamente o autor argentino Ricardo Piglia, herdeiro inconteste de Borges, vem incorporando Nietzsche e sua estranha família às explorações crítico-ficcionais que produz. Quando concedeu um depoimento à revista Angelus Novus em 1990 (publicado com o título de “A citação privada” em O laboratório do escritor), destacou como “uma das cenas mais famosas da história da filosofia”, que marcaria de certo modo o próprio limite da Razão ocidental, a situação – apontada pelos biógrafos – em que Nietzsche teria manifestado sua loucura, abraçando-se em prantos ao pescoço de um cavalo para evitar que o cocheiro continuasse a espancá-lo. “O notável”, observa Piglia, “é que a cena é uma repetição literal de uma situação de Crime e castigo de Dostoiévski”, onde Raskolnikov abraça e beija o pescoço de um cavalo morto a pancadas. Essa amostra curiosa e desconcertante da noção de “eterno retorno” foi precedida, nas especulações do ficcionista sobre o estatuto da arte, da construção da personagem Lucía Nietzsche, neta de Elizabeth, a irmã (perigosa) do filósofo, que viveria na América do Sul, nos meados do século XX, em conseqüência da aventura de seu avô, Bernhard Förster, anti-semita, que se instalou no Paraguai, no final dos oitocentos, para “fundar um falanstério da nobreza alemã”. Lucía Nietzsche entra na novela de Piglia como a amada inesquecível de Pássaro Artigas, o narrador experiente que, em conversas de bar, encarrega-se de iniciar o futuro escritor na arte da ficção. A sobrinha-neta de Nietzsche surge no espaço latino-americano munida de uma carta do filósofo, que dá conta de sua perturbação diante das conseqüências catastróficas que antevia no projeto de Förster. Tal surgimento explica-se, provavelmente, como a contrapartida da ficção periférica ao perigo que temos corrido, deste lado do Atlântico, ao aceitar certos produtos da Razão ocidental exportados da Europa.

Se, trazendo a marca de uma trajetória com os lances inacreditáveis que se registraram acima, a assinatura de Friedrich Nietzsche vem emperrando o sistema de classificação de sua obra na estante da filosofia, parece útil prestar atenção à proposta do contemporâneo Ricardo Piglia de deslocá-la para a Biblioteca de Babel. Aí, ela encontraria espaço adequado nos diferentes inventários simultâneos e, além de incorporar a tal carta referida no catálogo da literatura latino-americana, restabeleceria o convívio esclarecedor com outros cânones de assinaturas também resistentes à lógica hermenêutica, como os atribuídos ao próprio Borges, a Dostoievski e a Flaubert, aquele que se identificava como Madame Bovary.

 

Neste trecho servi-me, livremente, de referências e sugestões encontradas em Crítica cult e O século de Borges de Eneida Maria de Souza, bem como do capítulo “Quem, Nietzsche? Qual?” da tese de doutorado, Devires autobiográficos, de Elizabeth Muylaert Duque Estrada.

 

 

 

 

 

 

Esse texto foi publicado no plástico bolha nº12: download PDF

 

 






 

 


 

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