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Cinematográficas

Você vai sair do cinema outra pessoa


Cinco indicações ao Oscar. Três Globos de Ouro, incluindo melhor trilha.Você vai sair do cinema outra pessoa, dizia o cartaz. Fui ver. O filme era banal, aquela velha história envolvendo piadas, explosões e uma ou duas doenças crônicas. No entanto, logo percebi que eu deveria ter confiado nos dizeres do cartaz. Ao sair do cinema Leblon, me olhei no espelho e vi um sujeito gordo e barbado, que usava um paletó xadrez. Eu tinha perdido uns cinco centímetros, ganhado uns vinte quilos, uma espessa barba ruiva e um leve ar de louco. Senti um volume no bolso da calça e tirei de lá um maço de cigarros, um bipe (um bipe!) e uma carteira. Abri a carteira em busca de algo que me identificasse e achei um passaporte húngaro. Zenaj Tórzkovy. Este parecia ser o meu nome. Não achei nem bom nem ruim. Só lamentei não ter saído alguns centímetros mais alto.

Werner

Quando Werner nasceu, no mesmo quarto acontecia um parto espetacular. Era o primeiro parto de sétuplos do mundo e a mãe dos bebês havia convidado todas as emissoras do país a televisionar o recorde. No mesmo momento em que todas as câmeras focalizavam a grávida recordista, nascia, ao fundo do quarto, um bebê chamado Werner, o primeiro bebê-figurante da história.

Depois, quando pequeno, na escola, Werner estava sempre no meio da massa de alunos, sem jamais se fazer notar. Quando tentava dizer algo, todos o reprimiam e o mandavam para o fundo da sala. Aliás, uma coisa que Werner logo descobriu é que ele estava sempre no fundo. Quando, por acaso, se sentava na primeira fila, era no fundo que as coisas aconteciam, fazendo com que ele se sentisse no fundo em relação àqueles que lá estavam. Por mais que tentasse, Werner nunca era o centro das atenções. Se ele por acaso resolvesse fazer uma loucura, como vestir um maiô e dançar cancan, quando ele olhava à sua volta todos estavam fazendo o mesmo havia muito tempo e ele estava apenas imitando a multidão dançante.

Quanto à sua aparência, não se pode dizer que ele era bonito. No entanto, nada nele desagradava ao olhar. Possuía os olhos no lugar, um nariz perfeitamente normal e o corte do seu cabelo era como qualquer outro. Se até hoje não se falou muito em Werner, é só porque ninguém se lembrava dele, embora ele tenha participado da vida de muita gente, sempre passando ao fundo e dando um colorido especial à cena. Era um homem perfeito para se ter na vizinhança.

Ao contrário do que poderia se pensar, sua vida não era um marasmo. Muito pelo contrário. Ao seu lado sempre aconteciam as coisas mais fantásticas. Bastava ele andar na rua para que prédios pegassem fogo, super-heróis aparecessem e pessoas fossem abduzidas. No entanto tais coisas nunca aconteciam com ele, mas com as pessoas à sua volta. Ele apenas observava perplexo e conversava com as pessoas ao seu lado (sem jamais emitir som, é claro).

Aos 63 anos, Werner morreu. Ou melhor, foi demitido: olhou para a câmera.

 

 

 

 

 

 

Esse texto foi publicado no plástico bolha nº12: download PDF

 

 






 

 


 

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