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Muito além do sítio do Pica-pau Amarelo

por Glaucia Soares Bastos


 

Em 18 de abril comemoraram-se os 125 anos de nascimento de Monteiro Lobato, autor conhecido por sua vasta produção para crianças e pela criação de personagens como Narizinho, Pedrinho, Dona Benta e Emília, a boneca que fala. Todavia sua atuação no campo literário foi muito ampla e variada, embora atualmente menos lembrada.

Desde bem jovem, Lobato publicou artigos em periódicos de pequena circulação, e sempre com pseudônimos. Ainda estudante, editava um jornal do colégio que lia em voz alta durante o recreio. Na faculdade de Direito fez amizade com rapazes igualmente amantes dos livros e com pendores literários, grupo que colaborava com um jornal de Pindamonhangaba, ao qual deram o mesmo nome da república de estudantes em que viviam: O Minarete. Quando Lobato for já um autor reconhecido, publicará um livro intitulado Literatura do Minarete, reunindo textos dessa época.

Deste grupo de amigos destaca-se Godofredo Rangel, um mineiro que retorna a Minas Gerais depois de formado, com quem Lobato manterá por toda a vida uma correspondência que se atém sobretudo às leituras e à atividade literária de ambos e à atividade editorial de Lobato. As cartas de Lobato, zelosamente guardadas por Rangel, foram publicadas nos anos 1940 sob o título A barca de Gleyre. Quando se tornar editor, Lobato publicará livros dos amigos do grupo: Ipês, de Ricardo Gonçalves; O professor Jeremias, de Leo Vaz; Vida ociosa, de Godofredo Rangel.

Mas o nome Monteiro Lobato só aparecerá impresso em letra de forma quando ele já tiver mais de trinta anos, em 1914, no artigo “Velha praga”, publicado no jornal O Estado de São Paulo, o mais importante da capital. Nessa época, Lobato está vivendo na fazenda que herdou com a morte do avô, e o texto em questão é produto de sua experiência como fazendeiro, e de sua observação da vida dos caipiras. Um mês depois, será publicado um segundo artigo sobre o mesmo tema, “Urupês”, e com esses dois textos Lobato marca sua entrada definitiva no cenário das letras. A partir de então, se tornará colaborador regular da Revista do Brasil, publicação de caráter nacionalista, editada pelo grupo d’O Estado, até tornar-se dono e editor da mesma, em 1916.

Além da revista, a editora sob o comando de Lobato começa, em 1917, a publicar livros, o primeiro dos quais é O saci-pererê: resultado de um inquérito, curioso volume por ele organizado, reunindo respostas de leitores a um questionário sobre o saci, publicado por Lobato no Estadinho, versão vespertina de O Estado de São Paulo. O livro tem um caráter de pesquisa etnológica e se articula perfeitamente com o esforço de valorização da cultura nacional. A dedicatória, o prefácio e a apresentação escritos por Lobato são bastante esclarecedores do espírito presente nesta obra em particular e na intelectualidade da época em geral.

O livro que Lobato vai publicar em seguida, ainda a título de experiência no ramo das edições, será uma reunião de contos de sua própria autoria, já publicados separadamente n’O Estado ou na Revista do Brasil, e que ele batiza, a princípio, de Dez mortes trágicas, que sairá, enfim, como Urupês. O livro terá grande sucesso e muitas tiragens, e provocará um intenso debate, não mais restrito a São Paulo, sobre a figura do caboclo personificada no Jeca Tatu.

Lobato vai investir seriamente na distribuição do livro, que será um dos pontos fortes de sua editora, garantindo, assim, maior circulação e menores preços, popularizando o acesso ao livro.
Urupês é saudado como uma obra inovadora, principalmente pelo uso da língua no seu registro coloquial, principalmente na fala dos personagens, o que se coaduna com o desejo de Lobato de abrasileiramento da língua portuguesa. Se depois será tratado de conservador e até reacionário, não é esta a primeira impressão que causa seu livro.

Na esteira do sucesso de Urupês, sairá no ano seguinte outra coletânea de contos, Cidades mortas, e, em 1920, a terceira, Negrinha, onde se encontra o conto de mesmo nome, considerado seu conto mais lido até os nossos dias (e “O jardineiro Timóteo”, o meu preferido).
Paralelamente à atividade editorial, Lobato continua publicando contos, crônicas e ensaios em periódicos, aí incluídas as crônicas de divulgação da campanha de saneamento empreendida pelos médicos Artur Neiva e Belisário Pena, reunidas no volume Problema vital, publicado também em 1920; e as críticas sobre artes plásticas, que serão publicadas em 1924, no livro Idéias de Jeca Tatu.

É justamente no livro Idéias de Jeca Tatu que encontramos o texto de Lobato usado posteriormente para difundir a idéia de que ele era ultrapassado e antimoderno. Trata-se de uma crítica à exposição de Anita Malfatti, que, quando foi publicada originalmente n’O Estado, em 1917, foi contestada exclusivamente por Oswald de Andrade, mas que, quando incluída no livro, já depois da Semana de Arte Moderna de 22, passou a ser apontada pelos modernistas como a causa do afastamento de Anita Malfatti da estética expressionista, versão que ficou consagrada depois de muito repetida. Tadeu Chiarelli acredita que este procedimento foi estratégico para a construção de uma “história ideal do modernismo”.

A Editora da Revista do Brasil dará lugar à Editora Monteiro Lobato & Cia., que abrirá falência em 1924 e renascerá como Companhia Editora Nacional, cuja filial no Rio de Janeiro ficará a cargo de Lobato, que passa no mesmo ano a residir com a família nessa cidade.

Em 1927, estando o paulista Washington Luís na Presidência da República, Lobato é designado Adido Comercial do Brasil nos Estados Unidos da América e embarca para Nova York, decidido a lutar pela criação da siderurgia nacional. Trabalha incansavelmente, estabelece um estreito vínculo com Henry Ford, visita suas indústrias e laboratórios e escreve um livro sobre ele. E é em Nova York que ele e Anísio Teixeira, então em viagem de estudos, tornam-se amigos em longas conversas depois dos almoços de domingo. Algumas experiências desse período estão registradas no livro América.

De retorno ao Brasil em 1931, já sob o governo de Getúlio Vargas, Lobato volta a ser empresário, envolvendo-se primeiro com a siderurgia e em seguida com a prospecção de petróleo – o que na época era considerado uma empreitada inútil e fadada ao fracasso. Mais uma vez fará de seus textos a artilharia para seu combate, que podemos acompanhar nas obras O ferro, O petróleo e Ainda o petróleo. E, tendo tido oportunidade de aprimorar seus conhecimentos de inglês, começa uma intensa atividade de tradutor, dando ao público leitor brasileiro acesso a importantes obras da literatura inglesa e da norte-americana, para adultos e para jovens.

Nos anos 1940, será convidado pela Editora Brasiliense a organizar e publicar suas Obras completas, tarefa a que se dedica durante meses a fio, reagrupando e revisando textos e corrigindo provas tipográficas; publicará também as cartas guardadas por Godofredo Rangel ao longo dos 40 anos da correspondência entre eles, com o título A barca de Gleyre.

Lobato morre em 1948, aos 64 anos, deixando de herança aos leitores, tanto jovens como adultos, numerosos livros e idéias que continuam circulando no cenário intelectual brasileiro.

 

 

 

 

 

 

Esse texto foi publicado no plástico bolha nº12: download PDF

 

 






 

 


 

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