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Contos de Mary Blaigdfield – A mulher que não queria falar sobre o Kentucky

 

Leões! Ela jamais gostou de leões. Eles não fazem nada! As leoas sim, essas trabalham, caçam, cuidam da prole. As leoas são as verdadeiras rainhas da floresta. É como num tabuleiro de xadrez: a rainha se matando na horizontal, na diagonal, para ganhar o jogo, e o rei não passa de um grande peão com honrarias. Ah, e sem falar que volta e meia fica em xeque, chamando a esposa para salvá-lo. Lamentável.

Não, certamente a jaula dos leões não era a que mais a interessava. E havia tantas coisas interessantes para serem vistas ali. “Onde será o setor dos répteis?”, pensou olhando para uma placa. Ficou examinando.

“Você está aqui.”

“Não, quem está aí é essa bola amarela. Eu estou aqui, em frente à placa!”

Não eram somente os leões que a incomodavam, o didatismo das placas de informações também.

Uma coisa era fato: estava por demais estressada. E quando ela ficava estressada, tudo passava a ser um problema. “Tire alguns dias para você mesma” – disse Larie. “Não pode fazer mal a ninguém descansar um pouco”. Ela não entendia para quê! Para que perder tempo descansando, se ela estava ótima? As pessoas vêem problemas onde não existem.

- Pipoca! Pipoca! Pipoca! – gritava um vendedor, passando com seu carrinho próximo à placa onde ela estava parada. Os gritos eram acompanhados de uma incessante música infantil, repleta de tons agudos. Irritante.

“Será que quero pipoca?” – pensou. É, o programa não estaria completo sem pipocas.

- Quanto é a pipoca?

- Dois e cinqüenta a pequena, e quatro a grande.

- Uma pequena, por favor.

- Qual sabor?

- Como? Sabor? – perguntou distraída.

- É sabor! Natural, queijo, bacon, chocolate ou Mendolatium?

Mendolatium! Por mais que já devesse ter se acostumado com aquilo, ainda parecia estranho. Se ao menos as pessoas soubessem de toda a verdade! Todo esse Mendolatium sendo consumido ao redor do planeta! Uma hora, as conseqüências irão vir à tona, mas aí, provavelmente já será tarde demais - pensava em questão de segundos.

- Natural, por favor.

Comprou um saquinho e foi-se em direção aos répteis.
“Proibido alimentar os animais” estava escrito no saco, acompanhado de um desenho (riscado) de um homem dando pipoca aos macacos. Aquilo a irritou também.

Era verdade. Ultimamente ela não andava nada bem. Também pudera, com as coisas caminhando daquela maneira. O tempo era cada vez mais escasso, e o seu segredo estava se espalhando. Não era à toa que estava estressada. Daí o motivo desse passeio dominical: pura e simplesmente relaxar.

Mas a notícia estava se espalhando. Ela podia sentir. E o fato de ela não poder fazer nada, de ser obrigada a relaxar no meio disso tudo, a deixava ainda mais angustiada.

Cruzou com uma família feliz. Ah... famílias felizes, elas existem! Isso a fazia lembrar a sua família, lembrar o passado. Lembrar o...

- Mamãe, mamãe! Onde é que tá a girafa, mamãe?

- Estamos indo para lá, filho! Você vai terminar sua pipoca ou posso jogar fora?

Ela inevitavelmente prestou atenção e virou-se. Mirou aquele saco de pipoca. Pipocas roxas: Mendolatium! Como aquilo a torturava por dentro. Ver aquela criança inocente, metida no meio de tudo.

“Todos são instrumentos! Todos!” Ela podia se lembrar exatamente de quando ouviu isso pela primeira vez, havia dez anos. Ela nunca tinha concordado com aquilo. Nunca foi a favor de envolver inocentes, que nada tinham a ver com o projeto.

Ver aquela criança correndo ali na sua frente, cruzando o seu caminho, sabendo que havia ingerido Mendolatium a estava matando. A música cheia de agudos continuava entrando em seu ouvido e abalando a essência de seu ser – o pipoqueiro ainda estava por perto, certamente.

Aquela situação estava cada vez mais insuportável! Ela atirou o saco de pipocas no chão e correu. Correu entre os visitantes, quase derrubando uns e outros. Algumas pessoas se assustaram e começaram a correr também. Com o clima tenso que havia se instalado depois da revelação das últimas notícias pelos jornais, era comum tal atitude. Em poucos minutos, uma situação de pânico generalizado tomou conta do local. Filhos se perdendo dos pais, animais gritando, pessoas correndo para todos os lados. Um ou outro segurança tentava acalmar as pessoas, mas era em vão. Latas de lixo eram derrubadas e os seus conteúdos esparramados pelo chão contribuíam com a atmosfera caótica. Vidros quebrados, gritos, choros de crianças.

No meio daquela situação, ela era a única que sabia por que estava correndo, e sabia também que de nada adiantaria correr. Não havia para onde ir. Era necessário, antes de tudo, manter a calma. Manter a calma!

Ela parou de correr. A respiração estava ofegante, o coração batia mais do que o peito podia agüentar. Ela se apoiou na barra da grade de uma jaula. Ficou ali parada, exausta. Eram tantos pensamentos vindo à sua cabeça!

“Gruuuuuuuuuuu! Crupac! Crupac!”

Um grito estridente soou para ela como uma lança no peito de um guerreiro já convalescido. Papagaios! Ela não precisava de mais isso: papagaios estridentes gritando no seu ouvido.

Foi naquele momento que o inusitado aconteceu. Um grande absurdo do destino ou apenas parte de uma síncope nervosa? Ninguém sabe, mas foi quando o papagaio virou-se para Mary Blaigdfield e disse:

- Eu sei! Crupac! Eu sei o que você fez no Kentucky! Crupac! Crupac!

E o resto todos podem imaginar como foi. Naquela manhã de domingo Mary foi a cereja no grande bolo de caos que o Jardim Zoológico se transformou. Em meio à bagunça generalizada, poucos prestaram atenção em suas convulsões epiléticas-diarréicas. A não ser os papagaios, que embalaram o show agonizante de Mary com um emaranhado de gritos agudos, fazendo a carrocinha de pipocas parecer silenciosa.

 

Ela é Mary Blaigdfield, e ela não quer falar sobre o Kentucky.

 

 

 

 

 

 

Esse texto foi publicado no plástico bolha nº12: download PDF

 

 






 

 


 

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