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por Santuza Cambraia Naves
Departamento de Sociologia e Política da PUC-Rio.





O que poderia dizer de novo para vocês, queridos alunos de Letras que freqüentam os meus cursos de antropologia? Já exploramos algumas convergências entre os recursos etnográficos e os instrumentos de análise legados pela teoria da literatura. Procuramos também desconstruir as classificações que separam de maneira rígida o mundo da literatura de outras práticas culturais, como se a arte de escrever existisse à parte da cultura e – pior ainda – como se a realidade se adequasse às repartições departamentais. E vimos que, pelo contrário, o que se percebe como “realidade” ordenada não passa de um caos, e que na medida em que nomeamos os fragmentos desse caos conferimos sentido às coisas e à vida.

Sei também, por experiência própria (pelos menos a partir de três cursos em que trabalhei com Julio Diniz), que os professores do Departamento de Letras da PUC costumam dialogar com os antropólogos e têm familiaridade com as discussões levantadas principalmente por uma certa tradição da teoria antropológica contemporânea, como a representada pela concepção de cultura de James Clifford, que a vê como uma escrita. Assim, para não ficar repetitiva, optei por pensar livremente e equiparar a cultura a uma colcha de retalhos. Vocês poderiam objetar que a metáfora da colcha de retalhos não seria muito diferente das imagens da colagem ou da bricolagem criadas por Claude Lévi-Strauss em O pensamento selvagem. E eu argumentaria que o meu propósito, além de mais modesto, advém de uma experiência diferente. Mas para explicar isso tenho que contar uma história.

Tudo começou há alguns anos quando, numa viagem a Minas, encomendei a uma pessoa muito simples uma colcha de retalhos. Achava que era o complemento que faltava para o quarto de hóspedes da minha casa, tendo em vista o estilo rústico de todo o ambiente (se é que o modesto ambiente do meu quarto de hóspede tem estilo). Qual não foi a minha surpresa quando, meses depois, a colcha foi entregue! Vi, desde o primeiro momento, que ela não correspondia ao que eu desejava. Primeiro porque logo percebi que os retalhos não combinavam uns com os outros. Ao contrário do que imaginava – retalhos de algodão ou algo semelhante, todos eles de cores fortes e sem estampas, como via desde menina nas fazendas mineiras —, os padrões destoavam entre si. Pedaços de fazendas de algodão emendavam-se com recortes de tecidos sintéticos ou com estampas pretensamente “modernas”, simulando motivos indianos ou de um lugar exótico qualquer.

A experiência foi decepcionante, sem dúvida, mas ela me propiciou, por outro lado, uma espécie de insight. Comecei a pensar que a colcha de retalhos correspondia à condição da sua criadora: uma mulher submetida, ao longo da sua história de vida, tanto à tradição quanto à novidade. Bem, poderíamos todos argumentar que esta é exatamente a proposta cultural de Oswald de Andrade, que inspirou movimentos estéticos bastante interessantes. Só que, neste caso, a receita oswaldiana não levou a nenhuma solução cultural magnífica, como a bossa nova, por exemplo, que críticos como Augusto de Campos e José Miguel Wisnik viram como o resultado surpreendente da mistura do “fino” com o “grosso”. Na verdade, eu só via o “grosso” ou, para ser mais explícita, um monstrengo na melhor acepção da palavra. Raciocinei então que a costureira, na condição de uma pessoa muito pobre, só teve acesso ao lixo da cultura industrial, não conseguindo, como outros artesãos, ou bricoleurs — como é o caso de Sabato Rodia, que construiu as Watts Towers de Los Angeles — ser criativa com os detritos.

Outro problema: a colcha ficou curta, não dando conta de todo o comprimento da cama, o que me levou, apesar de rejeitá-la, a tentar completá-la anos depois. Pedi então a uma pessoa conhecida que a levasse à sua costureira do Morro dos Prazeres, em Santa Teresa. O resultado foi ainda mais impactante que o primeiro, quando percebi que a colcha foi completada com retalhos de estampas de oncinhas. Pensei: “Eis aí um autêntico Frankenstein”.

Resumo da ópera: sem coragem de expor a colcha de retalhos, guardo-a numa espécie de Limbo caseiro, bem em cima de um armário. Mas devo confessar que me apeguei a ela. De vez em quando eu a tiro do armário, a aliso e fico a contemplá-la. E nada me tira da cabeça a idéia de que ela representa como nenhum outro objeto a imagem apropriada para se pensar a idéia contemporânea de cultura, pois, tal como a colcha citada, a cultura é vista hoje em dia como algo continuamente inventado e reinventado no plano individual. E o resultado da invenção provoca respostas diferenciadas em termos de apreciação estética. Para alguns, é ótimo; para outros, é péssimo. Evidentemente, há um certo número de repertórios legados tanto pelo passado quanto pela “tradição da novidade”, mas o artesão da colcha (ou da cultura), à maneira do bricoleur, para o bem ou para o mal, faz as suas escolhas.

 

 

 

 

 

 

Esse texto foi publicado no plástico bolha nº13: download PDF

 

 






 

 


 

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