Cadastre-se para receber atualizações do plástico bolha via e-mail:

 

 


 

O screen shot do Google Maps acima mostra um trecho do Leme entre a ave­nida Atlântica, a avenida Princesa Isabel e a rua Antônio Vieira, incluindo parte da rua Gustavo Sampaio. Se as nossas autoridades municipais tivessem pelo Rio de Janeiro o zelo que têm as prefeituras européias por suas cidades, haveria nesses quarteirões da Zona Sul carioca ao menos três placas comemorativas em prédios, e quem sabe um marco de pedra fincado num determinado ponto da areia da praia do Leme. Pois nesse pedaço do Rio, entre os anos 50 e os 70, foram concebidas e escritas algumas obras importantes das literaturas brasileira e norte-americana do século passado.

Em 1955, um jovem chamado Carlos Sussekind, que morava com a família na rua Gustavo Sampaio, surtou em plena praia do Leme e foi internado numa clínica psiquiátrica em Botafogo. Seu pai, um juiz também chamado Carlos Sussekind, já estava havia algum tempo preocupado com o comportamento cada vez mais estranho do rapaz, e havia registrado suas preocupações no imenso diário ao qual dedicava boa parte das horas de seu dia. Passou a visitar regularmente o filho hospitalizado; no diário, não apenas anotou o que transcorreu nessas visitas como também transcreveu os poemas do jovem, encontrados em seu quarto depois da internação, e chegou ao requinte de colar numa das páginas, com fita adesiva, uma plantinha que o rapaz deu à mãe quando ela foi vê-lo na clínica. Vinte anos depois, o pai já morto, Carlos Sussekind utilizou as anotações do diário referentes ao ano de 1955 para escrever um dos grandes romances brasileiros das últimas décadas do século passado: Armadilha para Lamartine, assinado por “Carlos & Carlos Sussekind”.

Da janela da “varandola” do apartamento dos Sussekind, onde o pai costumava escrever, vêem-se os fundos de um prédio com entrada à rua Antônio Vieira e frente para a Atlântica. Era na cobertura desse edifício (que aparece bem no centro da foto) que a poeta norte-americana Elizabeth Bishop e sua companheira, Lota de Macedo Soares, se instalavam quando desciam de Petrópolis, onde passavam a maior parte do tempo. Não sabemos se Bishop estava no Rio no dia em que o surto do jovem Carlos provocou alvoroço na praia do Leme. Mas quando um amigo de Lota, Carlos Lacerda, foi eleito governador e convidou-a para criar um parque no recém-criado aterro do Flamengo, o casal passou a morar no Leme e a usar a casa na serra apenas nos fins de semana — para a grande contrariedade de Bishop, que amava a casa de Petrópolis e detestava o Rio. Por outro lado, se não estivesse morando no prédio da Antônio Vieira, talvez Elizabeth não tivesse assistido de binóculo, em abril de 1963, à perseguição e morte do marginal Micuçu, no morro da Babilônia. Sob o forte impacto da leitura de Morte e vida severina de João Cabral, Bishop escreveu então “The burglar of Babylon”, hoje considerada uma das mais perfeitas baladas da moderna literatura de língua inglesa.

Alguns meses antes, em outubro de 1962, Bishop comentara, numa carta a um casal de amigos nos Estados Unidos: “Encontrei uma escritora contemporânea de quem realmente gosto — mora na mesma rua que nós, no Rio [...] não apenas gosto muito dos contos dela como também gosto dela pessoalmente. Ela tem um nome maravilhoso — Clarice Lispector (é russo).” Na verdade, Clarice morava na Gustavo Sampaio, a rua de Carlos Sussekind; na mesma época em que Bishop elaborava sua balada, certamente ela estava escrevendo alguns dos contos magistrais que seriam publicados em 1964 na coletânea A legião estrangeira.

Clarice morreu em 1977; Elizabeth, já de volta a Boston, veio a morrer dois anos depois. Apenas Carlos permanece no mesmo apartamento do Leme em que vive desde menino, imerso na leitura e releitura das 30.000 páginas do diário de seu pai.

 

 

 

 

 

 

 

 

Esse texto foi publicado no plástico bolha nº13: download PDF

 

 






 

 


 

Copyright - Jornal Plástico Bolha - 2008 - E-mail: redacao@jornalplasticobolha.com.br