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A Pessoa
Ana Carolina Cabral

 

É você a quem eu mais odiaria, se isso fosse possível. Odiaria com toda a minha capacidade e com todo o meu empenho. Descarregaria em cima de você a pureza que o ódio, assim como o amor, tem quando não tem culpa. Não me deixaria distrair pelos seus talentos, como você deveria ter se deixado. Se eu pudesse odiar você, meu ódio seria aquele mesmo que aperta lágrimas do coração. Que queima o peito e o infla com a razão de todos os injustiçados. E depois, odiaria friamente, calculadamente. Se fosse possível odiar você, trancar-me-ia em meu quarto sozinha. Faria listas, protótipos de um manual, sobre cada coisinha que odiaria em você, se isso fosse possível.

Mas, a sete palmos de mim, você se esconde. A sete palmos, você foge e me cala. Por causa de soberanos sete palmos, não me é possível odiar você. Mas, na minha inocência de criança malcriada, carrego a pá comigo. Com a esperança inabalada de heroína de um conto de fadas, eu me iludo com a decisão de odiar você, sim. Mesmo que seja impossível. Mesmo que não sejam sete palmos de terra, mesmo que sejam sete palmos de cimento. Mesmo que seja assim, não lhe oferecerei meu amor que nem é amor, é mais uma admiração misturada com medo de ser parecida contigo. Para você, só tenho meu ódio impossível. Para você, só tenho isso. Você, que adiou a vida. Você, que deixou de procurar e de esperar. Você, que recusou a vida que lhe impuseram, mas que desistiu da vida de seus sonhos. Você, que descobriu quem realmente era, que reconheceu seu próprio valor (e gostou dele). Você, que descobriu e deu todos os passos, mas se esqueceu (ou não teve coragem?) de dar o último. Você, que se deixou esmagar pela desesperança, sua e dos outros (e minha também). Você, que poderia ter sido, e não foi. Você, a quem eu odiaria se fosse possível odiar você sem odiar a mim mesma.

E na impossibilidade do mundo no qual seu passado se encontrou com o seu presente, vou odiar você. Acabo, com a força do meu ódio e o desespero da minha inquietação, com os palmos que nos separam. Faço isso porque é preciso que você viva. Porque é preciso que você ressuscite. Para que eu me salve, é preciso que eu não veja o meu corpo no lugar onde o seu reside.

 

 

 

 

 

 

 

 

Esse texto foi publicado no plástico bolha nº13: download PDF

 

 






 

 


 

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