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Fred Coelho e Mauro Gaspar




FOTOGRAMA IV: UMA INVASÃO E UMA BATIDA DEPOIS

 

O sampling não trabalha com princípios morais, isto é, a escrita sampler, seja ela biográfica, memorialística ou, pura e simplesmente ficcional, não tem pudor de mexer, manobrar, manipular, inventar a história do outro, o outro, inventar a si mesma.

Não é plágio. O plágio reproduz o mesmo sem invenção. A escrita sampler inventa o mesmo em novo contexto. Não é citação. A citação hierarquiza conhecimentos e cria uma relação de referencialidade. A escrita sampler não hierarquiza, pois não cita, mas sim incorpora, reinventa.

O procedimento sampler é fundado na forma de arte mais ancestral: a reutilização, o reaproveitamento, a releitura. O plágio é a forma mais pobre de admiração. Pierre Menard é a alegoria perfeita da esterilidade da cópia. O pastiche como caminho possível para novas releituras, fora do tom parodístico, fora da mera influência, longe da reprodução. Se o leitor é autor também, a re-escritura que faz um autor da obra de outro se dá no cruzamento entre leitura e re-invenção e parte do entendimento de que a literatura é um laboratório do possível — como criação e re-criação (e recreação também). A base para uma teoria possível do procedimento sampler na literatura invoca Hermes, o mito trans, o exu-radar que capta as transmissões e as interferências na encruzilhada dos mundos.

Atravessando a bricolagem: o bricoleur trabalha com materiais fragmentados. O engenheiro trabalha a partir de matéria-prima. O bricoleur se arranja com os meios-limites que têm. O engenheiro se subordina ao material de origem. Para o bricoleur trabalhamos na ótica do “isso sempre pode servir”. Ele tem que refazer seu inventário pessoal e entabular um diálogo com ele mesmo. Vive voltado para uma coleção de resíduos. A escrita sampler pega o bricoleur pela mão e o apresenta ao engenheiro. Nascem projetos fragmentados, matérias-primas sem origem definida, inventários inventivos, coleções de novidades. A escrita sampler é uma bricolagem engenhosa. Aglutinação pela dispersão.

A citação é um elemento privilegiado de acomodação. Por isso, o sampler não é citação. Samplear é “movimentar” o leitor-ouvinte, assumir o combate criativo e paralisante da escrita contra a tradição. A tradição não se acomoda na escrita sampler, pois a tradição é a memória do escritor, fluxo contínuo em movimento contínuo, mutante.

A escrita sampler não é cópia. A cópia não reflete; a influência pura e simples só é dialógica na medida em que “responde” a um texto anterior; contudo, se essa resposta é automática, reflexo, impulso, repetição, não há diálogo porque os canais de comunicação estão fechados — o emissor é, na verdade, o texto anterior, o novo só o transmite mais uma vez, não há “ruído”, não há interação cambiante, é uma comunicação de estátuas, textos estáticos. Não há interferência! Não há invasão!

A poesia da escrita sampler advém sobretudo do fato de que não se limita a cumprir ou executar. Ela não fala apenas com as coisas e das coisas, mas também através das coisas.

A idéia conceitual da escrita sampler é abrir um sulco na escrita. O texto não é um condomínio gradeado — o sulco se abre e propõe novos fluxos textuais, musicais, visuais.

Atravessando a menipéia: a palavra não teme ser difamada. Ela se emancipa de valores pressupostos; sem distinguir vício de virtude, e sem se distinguir deles, considera-os como domínio próprio, como uma de suas criações. Afastam-se os problemas acadêmicos para se discutirem os problemas últimos da existência. É simultaneamente cômica e trágica, E sobretudo séria no sentido em que o é o carnaval e, pelo estatuto de suas palavras, é política e socialmente desorganizante. Liberta a palavra dos embaraços históricos, o que acarreta uma audácia absoluta da invenção filosófica e da imaginação.

A escrita sampler é escritura-leitura. Todo escritor é leitor. O ato da escrita não se descola do ato de ler, nunca.

Leio e liberto. Deixo de ser eu e navego na dispersão. Leio como quem abdica. Leio como quem passa. Aglutinação pela dispersão.

A escrita sampler não é uma imitação. O que se imita é desde sempre uma cópia. Os imitadores imitam-se entre si, de onde sua força de propagação, e a impressão de que fazem melhor que o modelo, pois conhecem a maneira e a solução. Os sampleadores não imitam, subvertem, trabalham e transformam.

Da verticalidade à horizontalidade. Do inter ao trans. Estar em trânsito e ser uma instância de trânsito. Trans significa atravessar e ser atravessado, o exu que transita na encruzilhada das almas (e corpos) do texto, de tudo o que estiver pulsando, fluindo, vivo para o sampler. A escrita sampler como escrita tradutória das tradições: o sujeito se projeta no ato da escrita, tornando o gesto criativo variação de uma autobiografia, ao mesmo tempo em que desaloja o seu eu e abre mão do direito de propriedade.

O exercício da memória alheia, ao ser incorporado à experiência literária, desloca e condensa lugares antes reservados ao autor, à medida que se dilui a concepção de texto original e de autenticidade criativa. A escrita se constrói pelos entrecruzamentos de discursos de diferentes naturezas, é o resultado das projeções subjetivas ou de experiências motivadas pela memória do outro – o “efeito” de memória falsa que a literatura causa. Constatando, na escrita sampler e em sua relação com a tradição da literatura, o transporte de citações da palavra do outro para a construção de discursos, as palavras roubadas e distorcidas desmistificam o texto original e se impõem na sua condição de moeda falsa.

É preciso arrancar de si a sua própria ultrapassagem. Ao invés da metáfora do caçador na selva ou da tauromaquia, o atravessador de informação, uma antena da palavra clandestina, nunca uma antena da raça, escritor quebra-lei perdido no coração da grande babilônia, contrabandista de palavras sem papel.

Uma fábula sampler não tem moral remix: Para os babilônios bab-il significava ‘a Porta de Deus’. Para os hebreus a mesma palavra queria dizer ‘confusão’, talvez ‘confusão cacofônica’. Os zigurates da Mesopotâmia eram ‘Portas de Deus’, pintadas com as sete cores do arco-íris e dedicadas a Anu e Enlil, divindades que representam a Ordem e a Coerção. Foi sem dúvida uma intuição assombrosa por parte dos antigos judeus — esmagados entre impérios ameaçadores — ter concebido o Estado como Beemonte ou Leviatã, como um monstro que ameaçava a vida humana. Foi, talvez, o primeiro povo a compreender que a Torre era o caos, que a ordem era o caos, e que a linguagem — o presente das línguas que Iahweh soprou na boca de Adão — tinha uma vitalidade rebelde e desobediente para a qual as fundações da torre eram como pó.

Escrever acreditando na força do passado como referência para as transformações do presente, pelo rastreio não da idéia de origem, mas das cicatrizes deixadas pelo passado no presente. O que a rigor se busca é a preservação e o amadurecimento da experiência.

O complemento nos dá a impressão de ter em mãos alguma coisa incompleta que estaríamos completando. O suplemento não, o suplemento é algo que se acrescenta a alguma coisa que já é um todo. O pastiche aceita o passado como tal. A obra de arte nada mais é do que suplemento. É preciso gerar formas de transgressão que não sejam as canônicas. Ser um através, escrever como um através, de si e do outro — de todos os outros, que somos nós também.

Em literatura, os roubos, assim como as recordações, nunca são inocentes.

A verdadeira história da literatura é uma história de ladrões.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Esse texto foi publicado no plástico bolha nº14: download PDF

 

 






 

 


 

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