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Augusto, não Augusto

Marcelo Tapajós


Puta que o pariu! E me disseram que estudante é quem estuda. Sabe quem me disse? A merda da palavra. Quê? Puta que o pariu! A própria palavra: estudante. Sim. Porque vocês tão engolindo qualquer coisa que um professor fala pra vocês. Até o que eu falo vocês engolem! Olha só a cara do Bernardo. Questione, Bernardo! Não me olhe com essa cara de quem tá pensando em fazer uma bandeira com o meu rosto. Seu Madruga, Che Guevara. Porra nenhuma! Bernardo desfila sua visão política com a camisa do seu professor de português, Augusto. É um puto! Não. Não você, Bernardo. O Augusto. Sim, meu nome é Augusto. Não, não é coincidência, Bernardo. Eu tou me xingando. Por quê? Isso, Bernardo, questione! Maravilha! Da próxima vez questione sobre algo mais profundo que Augusto, ok? Bárbara, eu não tou me referindo ao complexo sentido de ser um Augusto de forma coletiva. Estou ainda tou me referindo a mim. Isso, Bárbara, eu falo de mim. Terceira pessoa, Bárbara. Não existe quarta. Sim, eu tenho certeza. Ok, Bárbara, você devia escrever poesia. Não, eu não estou brincando. O que, Júlia? Terceira pessoa. É como o Slot, dos Gunnies falava. Um exemplo? Esse é bom, ó: “Slot quer chocolate”. Ah! Entendeu, entendeu? Ele mesmo disse isso, lembra? Mas vocês fugiram do ponto. Quem se lembra do meu argumento? Sim, André, era algo sobre engolir professores. Não, Clara, não estávamos falando sobre Augusto de Campos. Sim. Certo. Isso, teve uma hora em que eu falei sobre um Augusto. Mas era sobre mim. Eu sou Augusto. Não, Clara, meu nome é Augusto. Sim, eu tenho certeza, Clara. Rogério é o professor de História. É, você tá certa, Clara, ando muito egocêntrico. Não devia falar tanto de mim nas aulas. Não, eu não disse isso. Alguém mais me ouviu dizer que escrevo melhor que Augusto de Campos? Fala mais alto, Pedrão. Depende. Valendo bater abaixo da cintura? Eu. Ahan. Porque o outro Augusto é fraco e cabeçudo. Ei, eu não sou gordo. Voltando, voltando. O André tinha lembrado que era algo sobre engolir professores. Alguém mais? Não, Bernardo. Deixa os outros tentarem. Porque os outros não têm sonhos eróticos comigo. Não, eu não disse que você tem. Você interpreta como quiser. Mas que tem, tem. Não, eu não disse nada, tava falando sozinho. O que eu quis dizer com “engolir professores”? Fernanda. Exatamente, Fernanda. Era uma metáfora. Não. Porra, Fernanda, porque não. Sim, você acertou minha pergunta, mas eu não vou te dar um ponto na média. Porque você não merece. Porque não. É, Fernanda, é isso mesmo, eu assumo. É porque você é gorda. Isso. Gorda e preta. Preta? Não, eu disse negra. Fernanda, você pegou sol, Fernanda. Você não é preta. Você leu isso? Tá na Constituição essa porra? Ok, então a partir de hoje eu sou rubro-violáceo. Rubro-violáceo. É que nem roxo, só que mais chique. Porque eu me sinto assim, ué. Você não disse que é assim que funciona, Fernanda? Então pronto. E ai de quem falar mal de mim a partir de agora. Será preconceito contra toda a raça rubro-violácea. E não nego minhas origens. Não, o professor Augusto de História não falou do povo rubro-violáceo porque vocês não entenderiam a complexidade de nossa excelência. Sim. Talvez daqui a uns anos. Quê? Cada um de uma vez, porra. Ah, puta que o pariu. Que se foda também. Quer saber? Esqueçam o que eu falei sobre questionar. Engulam o que nós, professores, dissermos a partir de agora, ok? Porque a gente é mais inteligente que vocês. O que não é difícil. Vocês são burros. Todos. Sim, Bernardo, até você. E a sua mãe, aquela vadia. Não, Bernardo, eu não disse nada. Isso, eu falo sozinho, Bernardo, bem lembrado. Puta que o pariu, Ana. Por que você ta anotando isso tudo? Não, Ana, não cai na prova. É Ana, dei muita matéria nova hoje. Falei sobre metáforas, tempos verbais, Augusto de Campos e Gunnies. É Ana, muita coisa. Ana. Ana, eu juro, não cai na prova. Pára de escrever Ana. Puta que o pariu, Ana. Ana. Ana! Ana, me dá essa can...

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Esse texto foi publicado no plástico bolha nº14: download PDF

 

 






 

 


 

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