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Um olhar estrangeiro

 

 

Um dinamarquês bem carioca dá aulas de literatura na PUC-Rio, e todos querem ser seus alunos. Karl Erik Schollhammer nos conta um pouco da sua história no Brasil, de como Borges despertou seu interesse pela América Latina e o que ele recomenda como literatura e produções teóricas contemporâneas.

 

Considerando que sua formação acadêmica foi toda na Dinamarca, o que despertou seu interesse pela América Latina e pelo Brasil?


Passei um bom tempo em países de língua espanhola, antes de começar meus cursos. Morei dois anos na Espanha, morei no México, na Argentina e viajei seis meses pela América Latina. Mesmo que toda a minha formação e meu mestrado tenham sido sobre literatura nórdica, o meu doutorado foi voltado para a literatura latino-americana. Aí, tive a oportunidade de vir como professor de intercâmbio, para a UnB, em um convênio entre o Itamaraty e a Universidade da Dinamarca. Dava aulas de dinamarquês e literatura nórdica. Depois de um ano e meio em Brasília, decidi terminar meu doutorado no Brasil. Então, vim para o Rio e comecei a escrever. Eu tinha contatos com várias universidades, através do Affonso Romano de Sant’Anna, que ainda estava trabalhando na PUC e na UFRJ, pois o tinha conhecido na Dinamarca. Quando foi afastado para assumir a presidência da Biblioteca Nacional, ele me convidou para dar um curso sobre pós-modernismo. Foi muito bom, porque era uma turma de discípulos dele, alunos de pósgraduação, parte dos quais são professores agora, como Ana Cristina Chiara, Victor Hugo, Vera Queiroz e Ricardo Oiticica. Depois me sugeriram pedir uma bolsa para recém-doutor e ficar aqui como bolsista durante três anos; e eu fiquei.

 

Do que você mais gosta e do que menos gosta no Brasil?


Não sei, muitas coisas. Gosto do Rio, dos brasileiros. Gosto da vida aqui. O que menos gosto é da desorganização, da falta de coerência política. Bom, não gosto da eterna repetição do mesmo governo.

 

Qual é o lugar da América Latina e do Brasil nos estudos contemporâneos de literatura?


Não há dúvidas de que os estudos de literatura latino-americana têm um papel institucional muito mais forte do que os da literatura e da cultura brasileira. A partir da interação dos departamentos de Espanhol, com o papel que o espanhol já tinha quando surgiu um interesse pelos estudos latino-americanos, abriram-se caminhos na Europa e nos Estados Unidos. Hoje, nos Estados Unidos, os programas de espanhol, por força da literatura latino-americana, são os que mais crescem. Há obviamente um reflexo da presença da cultura hispano-americana nos EUA, da migração, da importância que essa cultura tem dentro da cultura norte-americana. O Brasil tem sido arrastado um pouco por essa mesma lógica, mas sem conseguir institucionalmente a mesma força. Ou seja, os estudos da literatura brasileira, da cultura brasileira, nos EUA pelo menos, ainda são parte dos estudos da América Latina. Poucos programas têm autonomia, como programas de português e de estudos brasileiros e africanos, mas isso começa a mudar, pois começam a surgir alguns programas de Estudos Brasileiros independentes dos Estudos Latino-Americanos. Outra observação importante é que o Congresso da Latin American Studies Association (LASA), de 2009, vai acontecer pela primeira vez no Brasil, na PUC, coordenado pela professora Rosa Marina Brito e por mim. Esperamos sete mil participantes no evento, o que reflete a importância crescente dos brasilianistas nos Estudos Latino-Americanos.

 

Como você vê a inserção do Brasil no mundo ocidental em relação à cultura e não apenas à literatura?


Acho que o Brasil foi descoberto relativamente tarde na cultura contemporânea. Mas vejo muito interesse na Europa e nos EUA. Sempre houve interesse pela música brasileira, mas agora há um interesse grande também por cinema, dança, design, moda. Há uma visualidade, uma questão de estética brasileira que começa a ficar muito visível. No ano passado, quando fui à Dinamarca em férias, achei engraçado ver um festival brasileiro em um supermercado, que consistia basicamente da oferta de produtos como sandálias havaianas, roupas com a bandeira do Brasil, uma palmeirinha, cachaça, limão (porque limão brasileiro não tem lá), pequenas coisas com alguma referência ao Brasil. Isso é gozado. Você percebe o interesse pelos produtos do Brasil que começam a ser comercializados. A distância não é mais tão grande, há mais intercâmbio, muito mais diálogo que antigamente.

 

Qual a sua relação com o escritor argentino Jorge Luis Borges?


Borges foi quem me trouxe para a literatura latino-americana. Eu gostava muito dessa literatura; estudava espanhol na época, fiz uma segunda graduação em espanhol e tive um professor que me apresentou Borges. Fiquei muito impactado. Participei de uma primeira tradução de alguns contos de Borges, foi uma das primeiras edições de Borges em dinamarquês. Depois, resolvi escrever minha tese sobre Borges e a Literatura Fantástica, trabalhando com Borges, Cortázar e Bioy Casares, e passei um tempo em Buenos Aires. Era 1986, e tive a oportunidade de conhecê-lo, no seu último ano de vida. Simplesmente fui para o lançamento do último livro de poesia que ele publicou em vida (Los Conjurados) e me apresentei. Ele me convidou a procurá- lo, e falei que queria fazer uma entrevista. Conversamos algumas vezes e fiz a entrevista. Pouco tempo depois Borges faleceu. Mas tive o privilégio de conhecê-lo pessoalmente.

 

Em um trabalho recente, você apresentou os “novos realismos” como uma tendência da literatura e das artes contemporâneas. Você poderia falar um pouco mais sobre isso?


Este é um projeto sobre a literatura brasileira contemporânea, uma literatura urbana, voltada para as questões sociopolíticas atuais, muitas vezes para as questões de crime e violência da época pós-ditadura. Trabalhando com isso durante alguns anos, observei uma volta a um certo realismo, que se afastava do realismo histórico, com seus fundamentos de objetividade, representação e verossimilhança. Essa é uma tendência literária que, ao mesmo tempo que quer se voltar para realidade, precisa se afastar de modos tradicionais de representação, para não ser incorporada aos mecanismos representativos dos grandes meios de expressão e grandes veículos de comunicação. É um novo realismo, no sentido em que procura não representar a realidade, mas recriar certas experiências da realidade esteticamente. Isso é algo com que tenho trabalhado, tenho praticamente um livro pronto a respeito, para publicar este ano. Posteriormente, foi o que me levou a um trabalho de comparação entre literatura e imagem, coisa que eu registrei como uma forma de escrita que tentava se apropriar de caminhos nas artes plásticas, no cinema, nas artes performáticas, para a renovação da própria escrita.

 

Considerando as inúmeras teorias de literatura. Qual seria, hoje, o papel do professor de literatura?


O papel do professor de literatura é... ler literatura. (risos) É mostrar como se pode ler literatura; portanto, é mostrar por que ele gosta de ler literatura. Não existe uma pedagogia da literatura; existe o diálogo sobre a leitura que o professor pode iniciar, sobre o que lhe dá prazer. Ele pode expor o seu próprio caminho. O que me dá prazer em ensinar sobre literatura é isso.

 

Já que estamos falando do mercado de arte, queremos saber se você tem alguma verve artística: você pinta, escreve?


Não. Na realidade, acho que a minha relação com as artes é de apreciação, de interação. Gosto praticamente de tudo: música, artes plásticas — que para mim são muito importantes — cinema, de literatura. Mas nunca tive — e nunca tive problema em não ter — essa relação com a produção. Sou um consumidor muito feliz do talento dos outros. Como sou cético em relação ao talento, tenho certeza de que as artes não carecem da minha participação. (risos)

 

O que você recomenda hoje em termos de literatura e de produções teóricas?


Minha grande descoberta recentemente foi Sebald, foi como uma epifania. Senti que ali havia uma coisa que realmente eu não esperava, que procurava há muito tempo e que estava acontecendo de maneira muito singular diante das outras tendências contemporâneas. Obviamente não é o único, tenho lido também alguns escritores do passado, como Robert Walser, e escritores novos, como Murakami, Vila-Matas e Bernardo Carvalho, cujo último romance, O sol se põe em São Paulo, considero o melhor lançamento do ano no Brasil. Tenho redescoberto Coetzee, que li há uns quinze anos, e que agora comecei a ler sistematicamente, e estou gostando muito. Dos latino-americanos, estou orientando uma tese sobre o Roberto Bolaño, que também me surpreendeu muito. Há muitos escritores novos, muito interessantes, é difícil escolher. Já sobre os trabalhos teóricos, acho que é um pouco diferente. Estamos num momento de uma certa incerteza teórica. Claro que há bons teóricos produzindo agora, o Agamben e o Ranciere, por exemplo. Mas, neste momento, não percebo uma nova teoria, uma nova abordagem à relação entre teoria e obra literária, entre teoria e arte. As pessoas estão testando, cada um montando sua própria perspectiva, mas não vejo uma escola tomando conta. Você precisa voltar para certas abordagens históricas, abordagens materialistas, estruturalistas, culturalistas, mas sempre com o reconhecimento de que nenhuma delas oferece um caminho único. Estamos numa situação em que o seu objeto de pesquisa determina os caminhos teóricos que você escolhe. Este é o ponto mais positivo neste momento.

 

Alguma mensagem final para os alunos?


Que estudem, né! (risos)

 

Esse texto foi publicado no plástico bolha nº15: download PDF

 

 

 






 

 


 

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