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Bruno Tolentino

 

No dia 27 de junho passado, o Brasil perdeu um dos seus maiores poetas e eu perdi um grande amigo. Conheci o poeta Bruno Tolentino em 1994, na noite em que lançou As Horas de Katharina, pela Companhia das Letras, no Museu da República lotado, no Rio de Janeiro. Não pude ir ao lançamento, mas amigos comuns me levaram ao restaurante Gambino, no Largo do Machado, para conhecê-lo. Havia uma mesa comprida e um homem fascinante, elétrico e vivo falava cinco línguas ao mesmo tempo para um grupo de amigos de diversas procedências, que foram comemorar com ele. Uma verdadeira pirotecnia. Já no final da noite começamos a conversar e, não sei como, me vi contando ao poeta, profundamente atento, uma experiência de Deus muito particular acontecida na infância, em que nem eu mesma costumava pensar mais. Nascia ali uma grande amizade.

Dias antes, eu havia acompanhado pelos jornais a ampla repercussão em torno do lançamento e da volta de Tolentino ao Brasil em 1993, após trinta anos de ausência, aclamado por críticos e intelectuais. Arnaldo Jabor era um dos que comemoravam o retorno do poeta “para publicar obra de rara importância e encerrar uma noite que durava trinta anos”. Mas a lua-de-mel seria curta. Polêmico, crítico e sem disposição para cortejar quem quer que fosse, falava o que pensava e desagradou a muitos – sobretudo com a cortante crítica que fazia ao concretismo.

Em 1964, com o regime militar, o poeta refugiara-se na Europa. Já tinha publicado, em 1963, Anulação e Outros Reparos, seu primeiro livro – reeditado pela Topbooks em 1998 – que havia lhe rendido o prêmio Revelação de Autor em 1960, com apenas vinte anos. Roma foi seu primeiro destino, onde se encontrou com o amigo Giuzeppe Ungaretti, poeta italiano, de quem foi hóspede. No longo período de exílio, paralelamente à sua produção poética, trabalhou como tradutor e intérprete da Comunidade Econômica Européia, além de atuar como professor nas universidades de Bristol, Essex e Oxford, onde em 1973 sucedeu o poeta W. H. Auden, de quem era amigo, na direção da Oxford Poetry Now, a revista de poesia daquela Universidade.
(Há quem duvide do fato – Bruno tinha a divertida mania de ficcionalizar sua vida e vai dar um trabalhão para quem se atrever a escrever sua biografia – mas existem vários números da revista de poesia da Oxford sob sua direção circulando pelas mãos dos mais aficionados pela sua obra para comprovar.)

Em 1987, Bruno Tolentino viveu uma situação-limite, que inspirou o livro A Balada do Cárcere: foi preso por tráfico de drogas em Dartmoor, conhecida na Inglaterra como a “Ilha do Diabo”, de onde foi libertado 22 meses depois, quando o governo inglês reconheceu que ele havia sido injustamente acusado. Bruno Lúcio de Carvalho Tolentino Sobrinho, que nasceu em 12 de novembro de 1940, era de uma tradicional família do Rio de Janeiro, parente de Lúcia Miguel Pereira, biógrafa de Machado de Assis, Antonio Candido e Bárbara Heliodora. Conviveu com Cecília Meirelles – a quem se referia como “tia Cecília” – e Manuel Bandeira, seus primeiros mestres, e também com os principais nomes da intelectualidade brasileira dos anos 1940 e 1950.

No exterior, Bruno publicou Le Vrai Le Vain (Paris, 1971) e Au Colloque des Monstres (Paris, 1973), em francês, e About the Hunt (Oxford, 1978), na língua inglesa. Chamou a atenção da crítica internacional e de grandes poetas europeus. Jean Starobinki escreveu (Nouvelle Revue Française/1979), que o brasileiro era “um poeta de raro talento” e “uma das mentes mais equipadas para abordar o problema da poesia em nosso tempo”, enquanto Yves Bonnefoy afirmava que ele era “sem dúvida um ‘daqueles poucos’ que fazem a cultura de uma época” (Ephémére no.5). Saint-John Perse acrescentou que seus poemas “exalam uma dor tão justa que só sua perfeição formal a torna suportável”.

De volta ao Brasil, além de As Horas de Katharina, premiado com o Jabuti em 1995, publicou Os Deuses de Hoje (Record/1995), Os Sapos de Ontem (Diadorim/1995), A Balada do Cárcere (Topbooks/1996) – vencedor do prêmio Cruz e Souza, em 1996, e Abgar Renault, em 1997 –, o já mencionado O Mundo como Idéia (Globo Editora/2002), que rendeu ao autor outro Jabuti, e seu último livro a Imitação do Amanhecer (Globo Editora /2006), indicado também para o Jabuti deste ano. Em 2003, foi eleito intelectual do ano pela Academia Brasileira de Letras (Prêmio José Ermírio de Moraes).

Sobre sua poesia, Ferreira Gullar observou que “dois dos melhores poetas do Brasil, João Cabral de Melo Neto e Bruno Tolentino, usam formas rimadas e metrificação que nada têm de arcaizantes”. Isto porque Tolentino era brilhante em terza rima**, forma poética herdada de Dante, que a criou inspirado na Santíssima Trindade.

A obra de Bruno Tolentino é “uma meditação sobre como o ser humano tende a abolir a realidade criando um sistema de conceitos através do qual pretende resolver o drama da existência”, como agudamente apontaram Martim Vasques da Cunha e Guilherme Malzoni Rabello, gestores de sua obra.

Falei com Bruno por telefone na noite do domingo de Páscoa, e a esperança na ressurreição não me deixa crer que tenha sido a última vez.

 


**terza rima: a linha central de cada terceto rima com as duas linhas marginais do terceto seguinte (aba, bcb, cdc,etc).


Stella Caymmi
Jornalista, biógrafa e doutoranda em literatura brasileira pela PUC-Rio



O Duo Doloroso

Bruno Tolentino

 

                              V
Difícil o vazio. Mais difícil
entre as quatro paredes do intelecto.
Ali, entre os sentidos, sob o teto
e o solo onde começa o precipício,


o vôo, impertinente, tinha início
a todo instante e nunca era direto,
era oblíquo: ora o gozo era suplício,
ora o suplício mesmo era dileto...


O abismo era metódico, seu método
audaz, mas um se foi e outro esvaiu-se
como mais um suspiro sem remédio.


Já o vazio, o mais límpido exercício,
era um puro palácio aritmético...
Mas e a vida? Ah, a vida era esse vício!

 


Bruno Tolentino (1940-2007).
Do livro As Horas de Katharina (Rio de Janeiro: Cia. das Letras,1994. p. 154)

 

 

 

Esse texto foi publicado no plástico bolha nº15: download PDF

 

 






 

 


 

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