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Room with a view

A senhora tem a minha atenção, agora se cale. Mais aprazível ainda seria se esses seus pêlos brancos e nasais se quedassem imóveis. E esses fiapos de cabelos que escapam do chapéu e que o vento leva. Atravancam. Se é por isso, que se mate, mumifique-se, mas não tire esses seus olhos de cima de mim. Não, você se engana, não tenho a menor intenção de ser afável; os óculos escuros, a barba e as rugas eu conservo comigo durante todo o processo, não tiro por toda a simpatia do mundo. De resto, não lhe devo satisfações e afirmo, por nós dois, não haver titubeios quanto à constatação de a senhora ser perfeitamente ridícula (aos sessenta e tantos anos, isso deve lhe ocorrer pelo menos três vezes ao dia, quando se pilha de soslaio — o espelho atrás servindo de filmadora — a pegar uma bolsa, na ponta dos pés, no topo da estante). É ridícula até mesmo do outro lado da calçada, entre palhaços de rua e cachorrinhos de madame, até mesmo da forma que a senhora está: um mal-ajambrado triunvirato de pernas, barrigas e carapinha num banco da Praça Nossa Senhora da Paz.

Mas aprecio justamente a comprovação imediata de que você é algo muito próximo da argamassa do lugar-comum. Gosto de saber que posso atravessá-la, incólume, com os olhares mais canhestros, mais fora-de-mão. No afã juvenil da minha idade, me bato constantemente com meus companheiros, uns tipos meio gordos e sebosos, que sonham diariamente com imensos projetos sociais e infalivelmente acordam molhados no dia seguinte. Praguejam a favor da mudança do mundo com um descaramento depravado. Pois bem, minha senhora, em toda essa lama na qual sempre chafurdo minha atenção, sua existência é o único seguro maternal de que tudo permanecerá exatamente como está. Os arautos, transatlânticos dos reveses, a percorrem como se você fosse besta água lacustre. Não sabe o quanto isso me vai bem. Aliás, delicia-me tanto a idéia que agora até descumpro minha promessa e desando a esboçar um sorriso, a mente ansiando para que sua pele se desgaste no ar, bem devagar.

Seria de suma pertinência se nesse instante você se mexesse e fizesse uma panorâmica de si mesma, esquadrinhando a vida, paixão e morte de todas as traças que tiveram sua vez nesse seu vestidinho azul. E, allegro, ma non troppo, um ricto fechado — sei que não tem mais dentes, não cometo abusos — casando com esses olhos de papel reciclado, ficaria agradecido, talvez extasiado.

Não, você não faz idéia do que esse seu corpo realmente seja. Um olhar de si mesma, montado no vigésimo andar de um edifício comercial, nunca lhe passou pela cabeça. Na sua contumácia imbecil de viver debaixo de uma lente de aumento, você nunca atinou para seu potencial geográfico. Estudo-o há cinco minutos, pela primeira vez, e já posso lhe advertir que há grandes desperdícios. Muitas contrações e expansões despropositadas. Mesmo assim, não a troco por toda essa Ipanema. Daqui do alto, senhora, você ainda é o ponto mais elegante da cidade.

 

 

 

Esse texto foi publicado no plástico bolha nº16: download PDF

 

 






 

 


 

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