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Amor de armário

Que frio estava fazendo! E aquelas portas de madeira prensada não ajudavam a manter o clima dentro do armário mais aconchegante. Ainda mais por se tratar de um armário de cozinha, onde tudo é azulejado e frio. E, cá pra nós, aquelas dobradiças já deveriam ter sido trocadas havia um bom tempo, a porta mal fechava. E isso só agravava em muito o frio que os produtos guardados no armário sentiam naquelas longas noites de outono – que estavam mais para noites de inverno.

Tudo começou após uma ida ao supermercado. Compras do mês. Ele sabia muito bem como era aquilo. De repente, a prateleira que estava quase vazia, privativa para aqueles produtos que não foram consumidos, se enchia de novidades. E ele sempre sobrava. Para falar a verdade, ele não sabia nem por que havia sido comprado. Ninguém naquela casa gostava de cereal de aveia, e isso era certeza.

Biscoitos diversos, fermento em pó, alguns produtos de compota, torradas, adoçante líquido, palitos; Nescau era na prateleira de baixo... Em meio àquele redemoinho de novos colegas, algo em especial havia lhe chamado a atenção: aquela pequenina caixinha vermelha de uvas passas. Como era graciosa aquela rapariga da embalagem! Cabelos morenos longos, pele alva, bem vestida. Muito nova para ele, pensou, e provavelmente deveria ser de consumo rápido. Se ficassem uma semana juntos naquela prateleira seria muito.

Em poucos minutos, todos os produtos foram guardados em seus devidos lugares para serem esquecidos ali até a hora que alguém sentisse fome ou a empregada resolvesse fazer um bolo.

Naquela mesma noite, algo inusitado, ou nem tanto, sucedeu. Uma barata das grandes entrou junto com o frio pela porta mal fechada. A rapariga, como toda rapariga, se assustou. Ao perceber o nervosismo da donzela, ele, velho de armário, se pôs a acalmá-la:

— Acalme-se. Isso acontece de vez em quando. Não tem com o que se preocupar. Você está bem fechada?

— Estou... Quer dizer, acho que estou — respondeu aflita.

— Estou certo de que deve estar. Produtos recém-chegados raramente vêm abertos — disse, tentando abrandar o nervosismo da moça.

— Mas... Mas... Ela está em cima de mim...

— Isso é porque você provavelmente deve ser docinha. Deve ter ficado junto de alguma amiga aberta no supermercado e pegou o cheiro. Acontece. Não há com o que se preocupar; logo, logo ela vai embora.

Eles ficaram juntos durante toda a noite. Uma hora a barata se foi, mas eles continuaram um com o outro até adormecerem.

No dia seguinte, acordaram bem cedo, devido à claridade que entrava pela abertura da porta.

— É claro aqui — disse a moça com voz de quem acaba de acordar.

— Claro pela manhã e frio à noite! Esta porta já devia ter sido trocada há muito tempo, mas aqui eles não dão muita atenção a esses detalhes.

Depois de algum tempo, ela continuou:

— Obrigada por ontem à noite. Você foi... muito gentil.

— Que isso! Não fiz mais do que a minha obrigação. Eu sei como são essas coisas. Já estive numa prateleira de supermercado uma vez, mas isso faz muito tempo. Sei como é difícil esse período de adaptação. Estamos acostumados a vida inteira a ver e interagir com produtos que são milimetricamente idênticos a nós. Mas aí, de repente, alguém nos tira de nossa prateleira, nos joga num carrinho. Daí pra frente é esteira, leitura ótica no nosso código de barra (constrangedor!), saco plástico, mala do carro sacudindo e, sem mais nem menos, caímos aqui, nesta prateleira fria, repleta de produtos que nunca imaginamos existir...

— Repleta de baratas também!

— Elas não costumam vir muito aqui — disse, sorrindo — mas, de qualquer forma, uma hora nos acostumamos com elas.

— Tudo é tão traumático. Se não fosse você ontem à noite, eu não sei como teria agüentado. E eu não sei nem o seu nome.

— Pode me chamar de Quaker. E você? Como se chama?

— Bem, quando fui retirada de minha prateleira, falaram “Há quanto tempo não via essas passas!”. Acho que meu nome é Passas.

— Não, “passas” é o que você é. Do mesmo jeito que eu sou um cereal de aveia. O que tem escrito na sua embalagem? – A forma como Quaker falava era culta e explicativa, como se fosse portador de grandes conhecimentos. E como isso encantava a insegura rapariga.

— Deixe-me ver... Sunrise Raisains Secs, não sei se é assim que se pronuncia.

— Um nome em francês! Encantador!

Quaker e Sunrise continuaram conversando por muito tempo. Falavam sobre tudo: experiências pessoais, memórias do supermercado, a vida naquela prateleira. Quaker contava para ela os hábitos da família e juntos ficavam imaginando o que haveria nas outras prateleiras.

Uma hora, já de noitinha, o já esperado aconteceu. Eles estavam juntos, da mesma forma como tinham sido guardados. Pela porta mal fechada, avistavam a janela da cozinha e, através dela, um magnífico céu estrelado. O frio também contribuía para uma atmosfera bem romântica.

— Posso te perguntar uma coisa? — titubeou Sunrise com sua voz graciosa.

— Claro.

— Você acredita em reciclagem?

— Não sei. Não costumo pensar muito nessas coisas.

— Me acha boba? — perguntou, insegura.

— De modo algum. Acho que o bobo devo ser eu, por ser tão objetivo e divagar pouco sobre a vida. Você acredita?

— Acredito, sim. Eu acho que não pode tudo acabar assim, simplesmente indo pro lixo. Imagino que deve ter algo mais, algo além de tudo isso que conhecemos.

— É capaz. Não costumo pensar muito sobre isso...

— Do mesmo jeito que ela se encantava com toda a sabedoria de Quaker, ele era fisgado pelo ar misterioso que ela exalava em suas palavras.

— Sabe, ontem à noite você me chamou de docinha... — disse em tom apaixonado.

— Chamei? Desculpe a indeli...

— Não precisa se desculpar. (pequena pausa) — Eu gostei.

E, daí em diante, eles se amaram como um casal em lua-de-mel. Ficaram se amando, olhando para as estrelas e, enquanto todos os produtos daquele armário sentiam um frio danado, eles reclamavam do calor. Ela pouco se importava com a idade avançada dele, até gostava de seus cabelos brancos. E ele nunca havia imaginado que conseguiria moça tão bela em toda a sua vida.

O tempo foi passando e os dois consolidavam a relação. Mesmo aparentemente não tendo nada em comum, descobriram juntos que ambos eram ricos em fibras. Mas não era só isso que os unia. Os gostos musicais e artísticos também. Apesar de que o sonho da vida de Sunrise era se tornar uma latinha de sopa Campbell de Andy Warhol. Já Quaker não apreciava muito o artista, achava que ele os expunha demais e, assim, deturpava a condição de produto, inerente a todos eles. Mas não era Warhol o maior motivador das brigas do casal:

— Você acha que eu não percebo como você olha pra Gina dos palitos??? — revelou um dia, em tom irritado.

— Como? Ah, pelo amor de Deus! Deixe de ser ciumenta dessa maneira! Você enxerga situações que não existem!

— Não existem?!? Quaker, eu te conheço. É só passar uma loirinha que você se assanha todo.

— E você? Já reparou como aqueles “monges” do chocolate em pó te comem com os olhos? De monges não têm é nada. São uns safados, isso sim!

— Ei, fale baixo. Não queremos criar um clima ruim na prateleira.

Mas essas discussões eram passageiras e, na verdade, só adicionavam aquele ciúme normal, que apimenta e estimula os relacionamentos. E por falar em apimentado...

— E aí, garotão? Não tem caloria pra noite toda não? — disse com um sorrisinho na boca.

— Vou te mostrar quantas gramas têm aqui nessa embalagem!

— Levadinho!

A idade avançada de Quaker não atrapalhava em nada a vida sexual do casal. Ele era uma máquina e ela, insaciável.

De vez em quando, alguém abria o armário e pegava um biscoito ou o adoçante. E foi numa dessas vezes que passou pela primeira vez na cabeça de Quaker o que ele sempre soube: aquele amor, a vida a dois, não iria durar para sempre. Ele sempre soube, desde a primeira vez que viu Sunrise, que uma hora ela seria consumida e ele ficaria ali, esquecido no armário, como sempre. Isso já havia ocorrido diversas vezes. Nenhum produto das compras dele ainda estava ali. Foram todos embora aos pouquinhos, ou comidos no almoço, ou num lanchinho rápido. E ele ali, resignado a permanecer esquecido na prateleira. Por vezes, pensava que tinha sido comprado por engano e que iria passar da validade ali, sem que ninguém o notasse.

Como seria difícil suportar a solidão no armário sem ela! E depois que ela se fosse, também iriam todos os que conviveram com eles naquele armário. Chegariam novos produtos, que não fariam a menor idéia de quem era Sunrise e do que o amor deles tinha representado. Chegaria o dia em que só ele saberia que esse amor tinha existido, e — quem sabe — ele não tivesse existido só na sua cabeça, já que ninguém mais partilharia com ele essas memórias. Ficaria velho e perturbado.

Chegará o dia — porque um dia todos os dias chegarão, até este — em que consertarão a dobradiça da porta. Ou — quem sabe — comprarão armários novos? E ele se lembrará dela, do frio que sentiam, das estrelas que viam através da janela. E sentirá um aperto forte no fundo do peito, uma vontade apenas de poder contar pra ela essa novidade. Chorará por horas, dias sem fim. Chegará até mesmo — veja só que besteira — a desejar nunca tê-la conhecido, para não ficar condenado a uma vida posterior de saudades e sofrimento. Mas, no fundo, sabia que só conhecera o que é a vida naquele dia de compras, quando avistou pela primeira vez aquela menina ainda sem nome. Aquela menina apavorada com a barata em cima dela.

Só de imaginar isso tudo, Quaker emudecia.

— O que houve, amor? Por que você está com essa cara?

— Nada não, querida. Pensando. Será mesmo que existe aquela história de reciclagem? Será que no passado a gente não pode ter sido um produto só?

— Às vezes, eu penso nisso. Quem sabe, no futuro, nós não nos tornaremos os dois uma só embalagem, guardando o mesmo produto?

Pensar no futuro era fatal para Quaker. Todos os fantasmas da separação voltavam à sua cabeça e, ao seu rosto, voltava aquela expressão que tanto incomodava Sunrise.

Quando ela ia perguntar novamente sobre o que ele estava pensando dentro daquele chapéu, foi interrompida. A porta se abriu e a empregada enfiou o rosto na frente da prateleira. A primeira a ir embora foi Sunrise, quando ainda estava pensando no que afligia o companheiro. Depois, foi a vez do pote de açúcar — mas este sabia que iria retornar. E, por fim, nosso querido Quaker, que também faria parte da receita!

É, por essa ele não esperava. Nunca imaginou que chegaria o dia em que seria consumido. E ainda mais: não foi preciso se separar de Sunrise. Seriam consumidos juntos, tendo seu amor eternizado.

 

Ingredientes:

200g de flocos de aveia

200ml de água

Uma casca de laranja ou de limão

Duas maçãs descascadas e picadas

Uma colher de chá de açúcar

Uma colher de chá de erva-doce

50g de passas de uvas

 

Modo de preparo:

1. Cozinhe os flocos de aveia em água fervendo com uma casca de limão.

2. Junte as maçãs picadas, as passas de uva e a erva-doce.

3. Misture, adicione açúcar e introduza numa forma untada.

4. Asse em forno moderado durante 20 minutos.

 

Esta é a história do amor entre Quaker e Sunrise, que tiveram o seu conteúdo unido numa deliciosa receita de bolo de aveia com passas. Suas embalagens foram jogadas juntas na lata de lixo. Se foram reciclados ou não, ninguém sabe. E, mesmo se alguém soubesse, não viria ao caso estragar os mistérios da vida.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Esse texto foi publicado no plástico bolha nº16: download PDF

 

 






 

 


 

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