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AS POTÊNCIAS DA FICÇÃO II

 

 

Cuidado! Você está lendo um texto roubado que trata de um assunto, no mínimo, duvidoso. Se for capaz de equilibrar a curiosidade e a desconfiança, prossiga. Não se trata de versão banalizada de um conto de Borges; embora pouco verossímil, esta trama envolve especialistas, doutores e integrantes do sistema editorial. Parte da história diz respeito a um livro que circula por vias consideradas plenamente legítimas, desde 1908, e vem sendo objeto dos mais prestigiosos comentários e traduções. A outra parte, publicada como continuação do mesmo livro, surge com as evidências claras da fraude. No entanto, não foi tirada do mercado, tampouco sua gênese recebeu explicação satisfatória. O primeiro volume, sobre cuja autenticidade não pairam dúvidas, revela-se tão sedutor quanto desconcertante, pois confronta a filosofia com as questões que sua tradição sempre evitou enfrentar. Já o segundo, com inequívoco apelo detetivesco e sensacionalista, jamais se tornou um best seller. O número de seus prováveis leitores não ultrapassa o círculo de seus críticos, todos inseridos na vida acadêmica.

Diante do exposto, o leitor certamente estará pensando que me apropriei do estranho tema nos acasos da internet. Engano. Encantei-me com a intriga rocambolesca durante uma defesa de tese de doutorado. Como? A bibliografia erudita também tem seus momentos de suspense. A tal assinatura problemática não pertence a ninguém menos que Friedrich Nietzsche e os livros em debate apresentam-se como sua autobiografia. O primeiro é o Ecce homo, o segundo circula com o título de Minha irmã e eu. Caso se compare a respeitável fortuna crítica da autobiografia, dada por legítima, com a polêmica – ora ingênua, ora obviamente interessada – que o outro texto levantou, não se terá dúvida em rejeitá-lo como desdobramento apócrifo, composto grosseiramente. Mas... o título, Ecce homo, tomado de empréstimo à identificação bíblica do próprio Cristo, o Salvador, bem como o subtítulo capcioso – como tornar-se o que se é (fragmento de um verso de Píndaro) – podem indicar tanto um empreendimento audaz de revisão cultural, quanto um delírio de automitificação. Além do mais, sabe-se que todas as biografias de Nietzsche afirmam que Ecce homo foi escrito às vésperas do surto, diagnosticado como loucura, que manteve o autor internado ou sob a guarda da família pelo resto da vida.

O delírio assusta tanto quanto atrai, porque acaba por nos liberar das regras rígidas com que a sociedade controla a emissão pública das falas e a circulação dos textos. A verdade de hoje pode ser a mentira de amanhã. Bastante liberal com as formas da sandice e da burla, o espaço literário insiste em roubar ao terreno da filosofia toda uma classe de escritos ambíguos, de caráter aforístico, alegórico ou confessional. Não lhes exige coerência, nem prova de autenticidade. Ao contrário, as dubiedades e os equívocos, os jogos de simulacro e os plágios escancarados é que dão sabor à arte da ficção. A força instigadora do nome de Nietzsche ultrapassa os acasos e interesses editoriais que ora forjam uma confissão picante – tradução de original supostamente desaparecido – ora incorporam à autobiografia canonizada trechos antes censurados dos manuscritos.

Respire fundo. Relaxe. Experimente ler alguns fragmentos do Ecce homo e, se encontrar numa livraria, um exemplar de Minha irmã e eu, não se acanhe, condescenda com sua curiosidade e compre-o. Enfrente a aventura da(s) autobiografia(s) de Nietzsche. É tão eletrizante quanto a que é oferecida pelo delírio do nosso conhecido Brás Cubas. Instrui e diverte na mesma medida que o sistema de pensamento de Quincas Borba – nome que não se sabe bem se pertence ao filósofo ou ao seu cão.


 

Como no texto da coluna de maio, continuei inspirando-me nos escritos de Eneida Souza e guiando-me pelos preciosos comentários críticos, observações e notas de Devires autobiográficos, tese de Elizabeth Muylaert Duque Estrada. Usei também, à minha moda, informações prestadas em prefácio pelo tradutor de Nietzsche, Paulo César Souza, além, evidentemente, de roubar alguma graça da verve cruel de Machado de Assis.

 

 

Esse texto foi publicado no plástico bolha nº17: download PDF

 

 






 

 


 

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