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Neguinho

Marcelo dos Santos

 

Turquoise boy I must confess to you...
“Turquoise boy”- Sonic Youth

 

Neguinho, devo dizer que eu também amo alguém que me abandonou, eu também. Também espero na calçada um rosto conhecido ou um rosto que me estenda o olhar e me dê algo que eu não sei o que é. Algo que é parecido com saciar a fome, mas não é fome o que eu tenho. Quando te vejo, sei que em nada podemos nos ajudar, porque eu sou tão da rua quanto você. Se eu te der pão, dinheiro, cigarro, neguinho, pouco fiz porque há pouco a fazer por nós além da espera. Eu sei que o chão da rua me chama tão alto que eu por pouco não decido ficar, ainda não, digo pra mim mesma, mas só tenho a certeza de sentir um dia a pedra dura sob as minhas costas aumentar. Neguinho, você me viu no dia em que ninguém veio falar comigo? No dia em que eu implorei como você faz por um trocado? Você viu? Eu fico tão só que nem a tempestade me comove mais. Me ensina a ser maltrapilha? A cheirar cola pra não precisar de nada? A roubar? A matar também? Me ensina a não querer mais ninguém, só o dia sem nada dentro? Neguinho, vou te contar que a morte me visitou. Foi numa tarde. Eu havia comido pipoca na rua, havia te visto mendigando por aí e depois voltei pra casa. Ela queria me fazer sua primeira visita, dizer que sempre estaria esperando, foi sem loucura e muito claro. Estou te dizendo: vamos morrer, neguinho, eu e você e quem não nos ama mais. Mas nós somos seus próximos, pois já esperamos, só esperamos. Ah, neguinho, quanto que eu quis te trazer pra casa, vestir você e te dar muita comida boa, mas aí eu também fui ficando mais igual a você. Eu compreendi que o nosso tesouro é essa solidão, que teima em roer agora o que está por fora, posto que acabou com o que havia por dentro. Vai se curar o que não tem remédio? Nós já ultrapassamos alguma fronteira que nos deixou crus e estrangeiros no mundo. Cadê nossa família, nossos amores? Todos não saíram com boas desculpas, graças a Deus? Neguinho, como a nossa carne é dura, como nossa alma é casta! Ah, que milagre nefasto e glorioso! Alguma bala já te atingiu? Já? Você morreu? Quantas vezes? Está vendo, não tenho razão? Como é que se mata quem já foi morto, me diz? Que engraçado! Não tenha medo, neguinho, basta se fingir de vivo às vezes e aí quem sabe você tem sua casa, sua comida, sua cama, quem sabe? Mas sempre forte, neguinho, sempre forte porque ninguém vai estar do seu lado, você e eu não temos lado, só o de fora. Vamos, neguinho, sempre esperar o que não vem, comer o que não basta. Neguinho, estou ficando muda, você quer ver? Me encontre amanhã. Estou completamente muda e sem idioma. A gente vai se falar em língua estropiada, não repare se eu nem conseguir. Posso te deixar sozinho? Posso não te ouvir mais? Não te ver mais? Tenho um plano: eu te abandono pra ver como é que é, depois fico te observando de longe, quando você puder faça o mesmo, assim tudo vai estar certo. Você vai ver que somos filhos de uma mesma maldição: a maldição do tempo que passa, maldição de quem deseja. Neguinho, a gente está se arrastando, você agüenta? Quer bater numa porta qualquer e tentar? Quer pedir, pelo amor de Deus, que nos acolham? Eu vou com você, vamos agora? Alguém que pode dar, quer nos dar? Só um pouco, nós dividimos. Nada restará. Somos ávidos filhos de Deus.

 

 

Esse texto foi publicado no plástico bolha nº17: download PDF

 

 






 

 


 

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