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O mistério da felicidade

Guilherme Amado


Leonora chegou-se para mim, a carinha mais limpa deste mundo:

- Engoli uma tampa de coca-cola.

Levantei as mãos para o céu: mais esta, agora! Era uma festa de aniversário, o aniversário dela própria, que completava seis anos. Convoquei imediatamente a família.

- Disse que engoliu uma tampa de coca-cola.

- Tá. Você já mandou buscar o bolo para cantarmos o Parabéns?

Pedro, meu marido, pai da engolidora de tampinhas, tinha o poder de me irritar com seu jeito desatento.

- Pedro, acorda ! A Vânia tá dizendo que a Leonora ENGOLIU uma tampa de coca-cola.

Minha cunhada, Sílvia, não tinha mais paciência com o irmão e gritava para ver se surtia efeito.

- Engoliu? Mas como? Pela boca? – perguntava Pedro, passando dos limites. Pelo visto, nosso divórcio seria inevitável.

- Pedro, você é meu irmão, mas é um idiota. Se ela en-go-liu, é claro que foi pela boca, né ? – Sílvia estava nervosa.

- Ggggente, nnnnão sssseria bom nnnós irmos pro hospppital ?

Meu cunhado, Gaspar, irmão mais novo do meu marido, era gago. Isso. Você leu certo. Minha amadíssima sogra nunca soube fazer filhos. Um era lerdo (o meu marido), a outra, destemperada, e o terceiro era gago.

- E vamos parar a festa da menina ? Coitadinha. Falta cantar o Parabéns – Pedro ainda não tinha entendido a gravidade da situação.

- Será que nenhum dos pais dessa criançada é médico ? – eu, a única voz lúcida naquele verdadeiro zoológico, tive que me pronunciar.

- Vou pegar o microfone e perguntar.

Silvia foi para perto do aparelho de som e parou a música. Todas as crianças, pais, professores, garçons e palhaços da festa olharam para ela.

- Atenção, todos! Minha sobrinha, a aniversariante, corre risco de vida. Vocês, crianças, podem não ter mais a doce Leonora como coleguinha. Repito: Leonora não está bem. Agora, gostaria que vocês mantivessem a calma. Existe algum médico entre nós? Repito...

Ela não conseguiu repetir. O caos já estava instalado. As crianças, sem exceção, começaram a chorar. Algumas até gritavam e corriam para o colo de seus pais. Um senhor levantou a mão:

- Sou médico. Onde está a menina ?

- Ali, perto daquela senhora de vermelho.

A senhora de vermelho era eu. A menina que corria risco de vida era minha filha. E a louca que tinha estragado a festa era a minha cunhada.

- O que houve com a menina ?

- Engggoliu uma tampppa de cccoca-cola – Gaspar demorava quase duas horas para falar cinco palavras.

- De plástico ou de aço? – a praticidade dos médicos me irritava.

- Minha filhotinha, foi de plástico ou de metal a tampinhazinha que você engoliu ? – Pedro sempre falou com Leonora como se ela fosse uma idiota. Na verdade, o idiota era ele.

Leonora olhou para cima, olhou para baixo e, finalmente, olhou para trás e soltou uma risada para um dos palhaços da festa contratado para animar as crianças. Ele, então, correu para perto de Leonora gritando:

- Já ganhou, já ganhou, já ganhou!

- Ganhou o quê, seu imbecil ? – perguntou Sílvia, minha cunhada, já perdendo a compostura.

- Calma, Sílvia, deixa o moço falar. – eu ponderava.

- Eu dei uma missão para as crianças! Hahaha! Quem contasse a melhor mentira para os pais ganharia três pontos na nossa gincana.

Hahaha!

Nem preciso dizer que o palhaço com sua imensa criatividade para elaborar brincadeiras altamente pedagógicas quase foi linchado pelos pais, que, irados, se despediam.

Naquela noite, parei para analisar minha vida. Era casada com um idiota, que tinha uma irmã louca e outro gago; minha filha era uma menina de seis anos fria, manipuladora e mentirosa; e eu acreditava que era feliz. Como podia ser feliz naquele pardieiro?

Decifrei o mistério da felicidade quando, duas semanas depois, fugi com aquele que me ensinou a não levar a vida tão a sério: Teobaldo, o palhaço.

 

 

Esse texto foi publicado no plástico bolha nº17: download PDF

 

 






 

 


 

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