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Que importa um nome?

Tatiana Salem Levy

 

Para o Fred

mudou de cara e cabelos mudou de olhos e
riso mudou de casa
e de tempo: mas está comigo está
perdido comigo
teu nome
em alguma gaveta


Ferreira Gullar, Poema Sujo

 

Fazia tempo não nevava em Paris. Lá fora, a cidade está branca, branca. Nem me aventuro a sair. Há pessoas que sonham em ver neve – jogar bola de neve, fazer boneco de neve, amassar a neve, pisar na neve. Eu não. Detesto neve. Detesto frio. Detesto casaco, luva, ceroula, gorro, fumaça saindo da boca. Quando cheguei aqui, o frescor da juventude me ajudava a suportar o inverno. Hoje, a velhice toma conta do meu corpo: no rosto pelancudo, nas mãos trêmulas, no sono leve (insônia, melhor dizendo, pois quase não durmo, passo a noite a revirar pensamentos). E quando vejo a neve lá fora me recobro da certeza de que tenho muito mais a fazer aqui, nestes vinte e seis metros quadrados onde durmo, como, leio e, vez ou outra, assisto ao noticiário, do que lá fora. Principalmente quando a cidade está branca como hoje.

Uma única vez por semana – às vezes nem isso – vou ao mercado aqui perto e abasteço a geladeira. De resto, só saio de casa para comprar pão e jornal. E quando volto, invariavelmente, sinto que o quarto está ficando impregnado de um cheiro cada vez mais forte. Suponho que o meu mesmo, que só sinto nesse momento, ao voltar com o pão e o jornal embaixo do braço. A cada dia repete-se essa sensação estranha, como se um pouco de mim (que não reconheço) fosse se desgarrando do meu corpo e ocupando o quarto. Mas hoje, ao contrário do habitual, será difícil sentir o cheiro, porque nem mesmo a fome ou a vontade de conhecer os últimos acontecimentos mundiais me animam a encarar os flocos de neve se transformando em água no meu mantô. Nada me fará pôr os pés na rua. No entanto, sei que ele está aqui e provavelmente ainda mais forte, já que a minha presença não tem dado a mais ínfima trégua. Sei que ele está aqui e quero senti-lo. Preciso senti-lo: questão de sobrevivência.

Cruzo o quarto, vou ao banheiro e em seguida à cozinha, para ver se descubro o cheiro perdido em algum canto qualquer. Nada. Volto ao quarto. Nada. Saio do apartamento e fico prostrado no corredor enquanto os minutos passam. Um vizinho sai com uma pasta debaixo do braço, deve estar indo ao trabalho. Bonjour, ele diz, sem mostrar qualquer espanto ao me ver do lado de fora vestido com trajes de dormir, como se tivesse sido expulso da minha própria casa. Ele me diz bom-dia como quem não diz coisa alguma. Bonjour, repito, e espero ele descer o primeiro lance de escada para voltar ao apartamento. Nada. Não sinto cheiro algum. Parece que só funciona quando chego com o pão e o jornal.

Mas ainda assim insisto. Sei que ele está aqui, como todos os dias. Sinto um leve arrepio, um certo medo de estar tão arraigado ao quarto que já nem possa distinguir nossos cheiros, como mofo em madeira úmida e guardada. Não sei se é efeito da idade, mas tenho notado que ultimamente presto muito mais atenção aos cheiros do que jamais antes. Quando chego a um lugar, é o cheiro do ambiente que determina se fico ou não. A mercearia que freqüento, escolhi pelo cheiro. Os cinemas também (não suporto cheiro de cinema novo). O mesmo acontece com as pessoas. Aliás, um dos motivos pelos quais optei de vez pelo enclausuramento e pela solidão foi o enjôo que determinados odores pessoais me provocavam. Cheguei mesmo a me deparar com situações muito desconfortáveis, tendo que inventar desculpas para deixar uma conversa ou um jantar por simplesmente não suportar o que para minhas narinas se apresentava como um verdadeiro fedor. Por isso fico tão obcecado com o cheiro do meu quarto. Temo que ele se dissocie de mim a tal ponto que acabe me colocando para fora de casa. Tenho que encontrá-lo todos os dias, ter a certeza de que ele não me escapa. É verdade que, se não o sinto, isso significa, de alguma forma, um bom sinal: sinal de que ele não me incomoda. Mas para estar seguro, preciso ter a garantia de que ele não se liberta de mim, preciso senti-lo – uma vez por dia, que seja. Tê-lo sob o meu controle, ratificar que ele me pertence.

Saio de novo do apartamento. Não encontro ninguém. E quando volto, mais uma vez, nada. Repito a operação consecutivamente. Sem sucesso. Talvez eu esteja exagerando um pouco, talvez possa esperar até amanhã ou depois, em algum momento sei que voltarei a sentir o cheiro. Mas a verdade é que sempre fui assim: com tendência à obsessão. Quando começo alguma coisa – um projeto, um discurso, um trabalho, uma arrumação ou uma simples busca por algo perdido – preciso ir até o fim. Enquanto isso, não descanso. Desisto de sair de casa: talvez, se eu fizer o movimento oposto, me aproximar mais e mais dos meus pertences, consiga encontrá-lo, porque sei – e disso tenho a certeza – que ele está em algum lugar. É só uma questão de paciência.

Ponho-me a cheirar os objetos mais íntimos: o lençol, o travesseiro, a cadeira de trabalho, o teclado do computador, a toalha. Distingo cheiros, cada objeto guarda um segredo próprio. Mas nenhum é o cheiro que procuro – o meu mesmo – o cheiro que perco a cada dia. Sei que posso interromper essa busca obsessiva, deixar que o acaso me devolva o que tento em vão encontrar. Se me pegam a fungar objetos, vão pensar que estou ficando louco. Mas quem? Quem entraria na minha casa num dia como o de hoje, ainda mais assim, de supetão, sem licença? Não, não tenho razão para cessar a minha empreitada. Continuo a vasculhar meus pertences, como se estivesse querendo encontrar uma meia perdida, um par de óculos ou uma caneta. Com as narinas atentas.

Procuro, procuro e: de tanto procurar, acabo achando o que não procurava. Um cheiro há muito perdido. Um cheiro que eu não sabia ainda existir. Guardado numa das gavetas do meu armário, como fotos desbotadas, como uma carta de amor muito antiga, como palavras esquecidas, mas nunca esvaídas. Um cheiro que eu não esperava encontrar, um cheiro que eu nem imaginava poder encontrar. Ele vinha da gaveta – mas de onde exatamente? De repente, entre minhas mãos que remexiam as roupas – cuecas, meias e ceroulas – percebi a textura de um pano que não poderia ser meu. Um pequeno lenço de seda bordado. Mergulhei o rosto no tecido: era de lá que ele vinha, o cheiro. Um cheiro que eu tinha sentido uma única vez na vida, numa noite há muitas noites – mas que havia me perseguido durante meses (ou terá sido mais?), tal a força com que se tinha impregnado a meu corpo.

Eu tinha acabado de chegar, se não me engano. Mal falava a língua, mal conseguia me virar numa realidade que me parecia tão distinta. Era uma típica noite de inverno, dessas em que, às oito horas, temos a sensação de já ser uma da madrugada. Estava frio, embora não como hoje (ou era eu que não implicava tanto com isso?). Eu andava sem rumo pelas ruas da cidade, sem nem mesmo me preocupar em que bairro estava, se me aproximava ou me distanciava de casa. Entrava e saía dos lugares como quem não deve nada a ninguém. Nenhuma explicação. Ficava um pouco, examinava o lugar, as pessoas, às vezes tomava uma taça de vinho e em seguida partia. Foram horas repetindo o mesmo jogo. Até quando, pela primeira vez naquele dia, algo me tirou a vontade de me movimentar.

Um gesto: uma mulher tira os sapatos, descansa os pés desnudos na cadeira em frente à sua e põe-se a deslizar os dedos sobre eles. Os pés completamente à mostra! Enquanto ao seu redor – no bar, nas ruas – todos se cobriam com camadas e mais camadas de roupas. E de repente, contrastando com o ar cinza, o ambiente fechado da cidade, os pés surgiam para mim como uma espécie de salvação. Só um encontro inusitado como este – pés e mãos se roçando à mostra no inverno parisiense – poderia me frear naquela noite. Ela era muito bonita, sem dúvida, mas sua beleza não seria nada sem o gesto. Foi ele – o gesto – que me arrebatou, que me paralisou, atônito, bem na entrada do bar: e não me deixou mais sair.

Mas o que faz esse cheiro aqui hoje? Depois de tantos e tantos anos, ainda guardado na gaveta? Sim, ela era bela, repito, contornos bem marcantes, contrastes bem acentuados: as cores da sobrancelha, dos olhos, do cabelo e dos cílios bem escuras; a pele, azul de tão branca. Vestia uma roupa toda preta, se não me engano, e um lenço bordado, azul, coral e verde musgo, frouxamente enroscado no pescoço. Fui pego de surpresa. E só quando isso acontece é que me dou conta do quão irremediável a vida pode ser. Eu era já prisioneiro daquela mulher e seu gesto. Mesmo antes de me conhecer, ela já me tinha em suas mãos. E a mim não restava para onde (nem como, nem por que) escapar.

De tão estupefato, demorei mais do que o habitual para me sentar e pedir uma taça de vinho. Não tirava os olhos de seus pés, que por sua vez não cessavam de ser acariciados. Não tardou para que ela percebesse meu olhar caminhando por seu corpo. Mas ao invés de fechar a cara e me lançar farpas de gelo, como eu imaginava, afrouxou suavemente os lábios carnudos, feito para dizer que eu era bem-vindo. Retribuí com um largo sorriso. Se estivesse no meu país, certamente teria chegado diretamente à sua mesa, com frases feitas e propostas engraçadinhas. Mas naquela época eu ainda não sabia como me comportar em país estrangeiro. Por isso fui praticamente incitado a esperar que ela me convidasse – com um aceno – para me sentar ao seu lado.

Só quando chegou a nova taça de vinho (que ela mesma pediu ao garçom) é que consegui engolir as palavras entaladas na garganta. Pedaços de palavras, na verdade, pois meu francês não era simplesmente precário, mas uma quase nulidade. E diante da bela mulher (dona deste lenço que agora seguro), não alcancei dizer mais do que Bon soir. Ela obviamente percebeu minha falta de jeito e intimidade com a língua, e deve ter sido por isso que sorriu, como se quisesse me acolher. Ou talvez estivesse apenas zombando de mim, hipótese que fiz questão de descartar rapidamente. Cada vez que ela sorria, eu sorria em dobro. E assim ficamos durante algum tempo (uma hora? Duas? Cinco minutos? Sempre o tempo, abstração inalcançável, a escorregar pelos dedos da memória). Se não me engano, tentei puxar assunto com ela, numa espécie de português em oxítono, mas não fomos muito adiante. Talvez ela também fosse uma estrangeira recém-chegada, talvez ela, como eu, não dominasse ainda o idioma. Ou talvez – e tendo a achar que era isto – não tínhamos mesmo o que falar. Bastavam nossos sorrisos e meu olhar a percorrer seus contornos, a se demorar em seus pés descalços.

Faço um esforço para me lembrar (mergulho as narinas novamente no lenço bordado), mas a verdade é que provavelmente eu nunca tenha tomado conhecimento de como que, do bar, fomos aterrissar em minha casa. Depois de quanto tempo? De quantas taças de vinho? De metrô? A pé? De táxi? Fico de certa maneira incomodado com esse hiato, essa falha na memória. Esforços são muitas vezes inúteis, e, por mais que eu tente, minha lembrança não consegue preencher essa lacuna entre o bar e a casa. O que vejo agora é ela inteiramente despida a me queimar a vista. E eu, como um menino bobo, desajeitado, sem saber o que fazer com tanto corpo, com a sua carne clara pedindo para ser tocada. Nem se ela fosse brasileira eu saberia o que dizer diante da sua nudez. Nem se eu estivesse sóbrio como agora. Qualquer tentativa de verbalização faria esvaecer o encanto que se apresentava aos meus olhos. Se eu falasse de seus mamilos rosados ou do meu desejo de ter seus seios em minhas mãos, imediatamente eles me escapariam. Se eu falasse da minha excitação pelo seu sexo, visivelmente encharcado a molhar suas coxas, não teria o direito de encharcá-lo ainda mais com a minha língua ou de recebê-la por cima de mim, faminta, a me devorar. Não pronunciei uma palavra sequer, embora milhares se atracassem na minha laringe, na tentativa de ganhar um corpo para além do meu. Deve ter sido por isso que desatei a tossir. Enquanto tossia, engasgado com a minha inabilidade, ela simplesmente sorria. Acho que foi assim a noite inteira: eu a me atrapalhar, ela a sorrir.

E agora este cheiro guardado na gaveta, escondido há tanto tempo; há tanto tempo evidente. O que ele vem fazer aqui hoje, quando estava à procura do meu cheiro, não do de outrem? Este cheiro que guarda tantos outros... Cheiros de umbigo e de orelha, cheiros indecifráveis, como símbolos do seu corpo no meu. Cheiro do seu gozo se misturando ao meu, do nosso suor nos colando um ao outro (para sempre?). Eu estava ainda vestido, mas não podia esconder o meu desejo de possuí-la naquele mesmo instante. Tenho certeza de que ela sentiu o meu cheiro de sexo prestes. E, por isso, como se o tempo estivesse à nossa disposição, ou melhor, como se fosse ela mesma a dominá-lo, passou a conduzir seus gestos sem a menor pressa. Deslizou delicadamente sua mão direita sobre o meu rosto, demorando-se atrás da orelha. Com a esquerda, segurou minha nuca suavemente. Ela me exigia demais: uma paciência quase impossível. Sentia meus poros eriçados, meu corpo a querer pular em cima do seu, minha língua a querer se enroscar na sua. Quanto mais meus sentidos se aceleravam, mais ela diminuía a velocidade de seus atos. Era quase um embate: entre dois corpos estrangeiros a se conhecer pela primeira vez, entre um silêncio imposto e um turbilhão de palavras latentes.

Numa noite há muitas noites: passamos horas a nos deleitar, a nos conhecer, a nos estranhar. Quantas vezes recomeçamos? Sempre a descobrir novos cheiros, novos orifícios em segredo. Não sabíamos nem mesmo nossos nomes, nossas origens, nossas histórias. Era tudo tão novo: mas também tão antigo, de uma ancestralidade incômoda. Escuto agora a sua gargalhada quando, acolhendo-a em meus braços, pus-me a falar português desatinadamente, como se expelisse todas as palavras que antes fora obrigado a engolir. Linda, gostosa, tesão. Uma enxurrada de palavras óbvias, mas que para ela certamente soavam como enigmas beirando o incompreensível. Quando me silenciei novamente, ela se virou para mim e sussurrou dentro da minha boca uma palavra na sua língua, revelando que, assim como eu, não vinha daqui. Era um som gutural que chegava carregado de um sopro quente a me atravessar o corpo. Depois, não trocamos mais uma palavra sequer. Mudos, traçamos inúmeros caminhos.

Posso ainda sentir a mistura de nossos cheiros, como se nossos líquidos tivessem sido derramados na noite de ontem, frescos no meu apartamento. Mas não consigo definir quando foi que paramos (e será que paramos?), em que momento ela partiu (e será que partiu?). Quanto mais busco uma resposta, mais me afasto de uma certeza, perdido entre os rastros da memória. Já não sei o que de fato aconteceu e o que são trapaças da minha mente cansada a passar a perna em mim mesmo. Custei a entender que o tempo passa. Que nem da nossa história somos donos. E agora me pergunto se não é dela o cheiro que exalo todos os dias e que redescubro a cada vez que chego a casa. E me pergunto igualmente se não é por sua causa que estou aqui até hoje, neste mesmo apartamento, nesta mesma cidade. À espera de que algum dia ela retorne e traga consigo um nome: para que eu possa enfim continuar a viver.

 

 

Esse texto foi publicado no plástico bolha nº17: download PDF

 

 






 

 


 

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