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por Felipe Aguiar Chimicatti


Ferreira Gullar: um humanista

 

 

Ele vem e se senta timidamente em uma cadeira no centro da banca. Ao seu lado estão José Eduardo Gonçalves, jornalista da Rede Minas e organizador do evento, e do outro, o doutor em literatura Antônio Sergio Bueno. A princípio, sério e contido, o poeta desvia olhares de estranhamento aos únicos dois flashes que tentam vencer a escassez da luz do museu de Artes e Ofícios, localizados na Praça da Estação, no centro de Belo Horizonte; mas, depois de alguns minutos de conversa, a timidez dá lugar a uma desenvoltura discursivamente agradável. Ferreira Gullar, em tom de conversa informal, conduz a palestra pouco a pouco, ponderando filosofia e cotidiano, arte e coloquialismo. Um poeta humano, isto sim, Ferreira Gullar é um poeta que, antes de falar da morte do seu filho e da poesia que circundou sua amargura, destoa um semblante de tristeza; um poeta radiante, que, ao ouvir o emocionado prólogo de Antônio Sergio Bueno, segura-lhe o braço, reiterando sua gratidão àquelas palavras. O museu está cheio, as pessoas assistem atentas às palavras de Gullar — umas de pé, outras sentadas — uma atmosfera de vislumbre se dirige à figura do poeta. Nem mesmo o barulhento metrô que corta o museu, localizado na Estação Central, quebra a concentração do diálogo. Após falar de vida (e também da história da própria vida), de arte, de poesia, de temas humanísticos, abre-se um momento destinado às perguntas. Parecendo não acreditar na poesia, ali, tão próxima, transbordando pelos poros daquele que mudou a forma de percepção da história e do mundo, sobretudo o mundo brasileiro, as pessoas dirigiam perguntas sucintas, tímidas, resguardadas no vislumbre. Mas, ainda sim, uma voz ecoou no museu como uma magnitude que não parecia vir de uma pessoa — não pelo simples caráter da bela voz daquela mulher —; bem mais do que isso — pela atmosfera lúdica que se estabelecia ali, desde o início daquela conversa. “Lá vai o trem com o menino/ Lá vai a vida rodar/ Lá vai ciranda e destino/ Cidade e noite a girar (...)”. E, aos poucos, com alegria na voz, meio como quem vence o vislumbre, aquela mulher arranca de Gullar o que faltava: alguns versos, em uníssono com a música, e um semblante carregado de emotividade, mais forte e voraz do que a tímida demonstração de gratidão ao prólogo de Bueno. E, ao finalizar aquele momento mágico, de uma terça-feira que poderia ser qualquer dia rotineiro, mediante muitos pedidos, o nosso poeta — mais nosso do que de qualquer país — lê duas poesias, em tom de despedida — ovacionado de pé por dois curtos minutos; os amantes de poesia e de Gullar se despedem daquele homem de óculos finos, cabelos longos e esbranquiçados e olhos que comportaram e comportam toda a humanidade da poesia.

 



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Esse texto foi publicado no plástico bolha nº18: download PDF

 

 






 

 


 

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