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Se, por acaso, naquela tarde de quinta-feira

 

Se, por acaso, naquela tarde de quinta-feira, após ter sentido uma súbita e inexplicável vontade de fumar, Otávio tivesse comprado um maço de Marlboro em vez de Derby, Telma, que sentou ao seu lado no ônibus e só fumava Marlboro, teria lhe pedido um trago, que ele cederia de bom grado, emendando um papo sobre cigarros, que daria lugar a um papo sobre Janis Joplin, que daria lugar a um papo de “Vamos ouvir um CD lá em casa”, que certamente terminaria em sexo. Depois do sexo, Telma revelaria a Otávio que ela morava em Mauá e era divorciada, deixando-o apaixonado e com uma súbita vontade de ir morar com ela. Largaria, então, seu emprego como professor de informática e embarcaria em um ônibus da 1001 para descobrir, somente em Mauá, que Telma tinha três filhos pequenos, que ela esperava que ele adotasse: Lua, Sol e Terra; este último, na época, um bebê. A princípio ressabiado, mas depois encantado com as crianças, que no segundo dia já o chamariam de papai, Otávio se mudaria para lá, onde ficaria cuidando das crianças a semana inteira, enquanto Telma venderia suas miçangas no Rio de Janeiro. Telma passaria, então, a visitá-los apenas esporadicamente e a se dedicar integralmente às miçangas e à bebida, sua outra paixão. Assim, Telma logo começaria a ficar agressiva com as crianças e com Otávio, que tentaria a todo custo defendê-las. Até o dia em que Telma, totalmente embriagada, chegasse em casa armada com uma faca e ameaçasse as crianças na frente de Otávio, que entraria no primeiro ônibus rumo ao Rio com seus filhos adotivos. Chegando aqui, a escola de informática não o aceitaria mais e, precisando de dinheiro para pagar a operação de Terra, o menor deles, que sofria do coração, se envolveria com o tráfico de drogas e logo ganharia um lugar proeminente no esquema internacional por falar inglês e dominar o Excel. Ganhando rios de dinheiro, ele pagaria uma boa educação para as crianças, que revelariam ser muito inteligentes e disciplinadas, a não ser por Terra, o menor deles, que, aos 13 anos, já revelaria ter herdado da mãe o alcoolismo. Mas Otávio, em sua rotina de traficante internacional, mal se importaria com o gênio complicado do caçula, até o dia em que Terra, então com 17 anos, provocaria Otávio até este dizer, no calor da discussão, que Telma, sua mãe, era uma prostituta hippie que os tinha abandonado na infância. Terra puxaria, então, um canivete do bolso e partiria para cima de Otávio, que sacaria sua 38 e o acertaria no peito. A bala se alojaria na espinha dorsal de Terra, que ficaria paraplégico. Lua, a primogênita, traumatizada, resolveria, então, tentar a vida em Miami, com seu namorado. Sol, sempre estudioso, iria estudar filosofia em Paris, com bolsa integral, deixando Terra só com Otávio e sua cadeira de rodas. E, assim, Otávio, arrependido, se desligaria do tráfico, entraria para a Igreja da Nova Vida e alugaria um apartamento em Copacabana, onde passaria o resto dos seus dias cuidando de Terra. Saberia ter sofrido muito, mas em momento algum se arrependeria de coisa alguma e teria a impressão de ter vivido uma vida completa.

Mas, naquela tarde, Otávio comprou um maço de Derby, teve uma vida tediosa e foi condenado a viver com saudades de tudo aquilo que não aconteceu.

 

 

 

 

Esse texto foi publicado no plástico bolha nº18: download PDF

 

 






 

 


 

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