Cadastre-se para receber atualizações do plástico bolha via e-mail:

 

 


por Júnio César Barbosa Louback

 

Um brinde à Biblioteca Nacional

 

Ao saber da existência de uma excursão organizada pelos alunos de Biblioteconomia da UFMG para conhecerem a Biblioteca Nacional no Rio de Janeiro, pensei em aproveitar a oportunidade para refletir a respeito do meu curso e resolvi conhecer a tão famosa Biblioteca. Achei que a visita poderia também servir como estímulo para meus estudos, já que, às vezes, pairam algumas incertezas na mente do estudante.

Já na chegada ao prédio, a impressão foi muito forte. Fomos recebidos por um funcionário da instituição que, no saguão, forneceu detalhes sobre a construção do prédio, que data de 1910, e sobre conceitos históricos. Mas o que me chamou a atenção foi a descrição dos detalhes de duas pinturas localizadas no saguão do prédio. Do lado esquerdo da entrada, uma das telas mostrava a imagem de um cavalo montado por um esqueleto voando num céu nublado; deitadas no chão, pessoas com semblantes carregados pelo sofrimento e tristeza. Abaixo da tela, esculpidas em pedra, pessoas agredindo e violentando umas às outras. Essas imagens trazem um significado: o cavalo voador simboliza a ignorância, que resulta em tristeza, violência e morte — esta representada pela caveira amazona.

Do lado direito, havia outra tela com a imagem de uma mulher descendo do céu azulado; na terra, pessoas — entre elas uma criança — traziam na face expressões de alegria. Toda a beleza presente nesse quadro retrata a sabedoria. Desde a mulher que desce do céu até a criança que “olha” para o espectador, dando a entender que a sabedoria contempla qualquer pessoa, sem distinção. Esculpidas em pedra abaixo da tela, viam-se pessoas colaborando e ajudando umas às outras, num ambiente de solidariedade, fruto do conhecimento.

Isto foi apenas o início. Depois, visitamos algumas salas com enormes janelas e móveis da época, ali presentes desde a construção do edifício. Ao subirmos as escadas, cobertas por tapete vermelho, deparamos com o busto de Dom João VI. E, ao chegarmos ao segundo andar, mal sabíamos que o melhor estava por vir. Fomos presenteados com uma exposição de obras raras, acessíveis só em circunstâncias especiais para pesquisa.

Ao apresentar aquelas preciosidades, a bibliotecária falou sobre o livro que estava bem diante de mim: uma obra do século XIV, um livro de oração, escrito em latim e com ilustrações. Quando a bibliotecária começou a folhear aquele livro, meus pensamentos acompanharam a trajetória que ele deve ter feito até chegar ali. Na verdade, me perdi entre o tempo e o espaço: imaginei embarcações em que aquele livro já esteve, tempestades enfrentadas, estradas de terras por onde passou. Apesar de tantas intempéries, me admirei que ele estivesse ali, bem conservado, diante de nós.

Entre outras raridades, vimos uma carta escrita por Tiradentes, além de livros presenteados a reis e rainhas. Detalhes em madeira, couro e pigmentos em ouro embelezavam as capas desses livros, obras dos séculos XVII e XVIII. Tentei descrever o que ocorreu comigo naquele momento, mas não consegui. Só posso afirmar que senti uma emoção muito forte e que passei a alimentar uma certeza: escolhi uma profissão muito importante.

Poderia falar dos lugares que visitei: o Museu de Arte Contemporânea, uma das mais belas obras de Oscar Niemeyer, a Fortaleza de Santa Cruz da Barra, construída em 1555 em Niterói, ou comentar sobre as noites agradáveis na Lapa, o Cristo Redentor e a Estação Primeira de Mangueira, onde tive a chance de ver a disputa do samba-enredo para o carnaval de 2008. Poderia descrever cada lugar e cada momento com sua singularidade.

Contudo, para mim, estudante de biblioteconomia, não houve nada tão especial como conhecer a Biblioteca Nacional. Saímos de lá com a sugestão, dada pelo guia e pelo recepcionista, de aproveitar o calor e tomar uma cerveja bem gelada em algum dos bares nas imediações, no Arco do Telles. Notei certo desânimo entre alguns colegas, cansados da viagem, mas insisti que deveríamos comemorar com um brinde à Biblioteca Nacional. No caminho, alguns colegas agradeceram a sugestão, porque, apesar do cansaço, surgiu um motivo que reacendeu o ânimo da turma. Ao chegarmos aos bares do Arco do Telles, fizemos um brinde à Biblioteca Nacional e relembramos detalhes da visita.

De volta a Belo Horizonte, pensei que uma visita como essa não é enriquecedora apenas para um estudante de Biblioteconomia, e sim para todos aqueles que entram nessa linda biblioteca e têm a oportunidade de conhecer sua riqueza cultural ao percorrer e descobrir cada sentido encerrado nos pequenos detalhes presentes na grandiosa Biblioteca Nacional.

 


A coluna Bolhas Geraes é dedicada aos nossos leitores e colaboradores mineiros, que, desde a edição #13, recebem o plástico bolha em diversos pontos de Belo Horizonte. Envie também os seus trabalhos para jornalplasticobolha@gmail.com

 

 

 

Esse texto foi publicado no plástico bolha nº19: download PDF

 

 






 

 


 

Copyright - Jornal Plástico Bolha - 2008 - E-mail: redacao@jornalplasticobolha.com.br