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O roteiro em cena

 

 

DENISE BANDEIRA é atriz, roteirista e diretora. No cinema, atuou em filmes como À flor da pele e Se segura Malandro. Como roteirista, tem o nome ligado a sucessos do cinema como os premiados Bar Esperança e Vai trabalhar vagabundo. Na televisão, foi autora fixa dos programas Você decide e A vida como ela é, supervisionou textos de Malhação e colaborou nas novelas Celebridade e Cobras e Lagartos. Professora, criadora de oficinas de roteiro e membro de júris de festivais de cinema, Denise Bandeira conversou com o plástico Bolha sobre seu trabalho e a profissão de roteirista.

 

Fale um pouco do seu trabalho de atriz. Como foi a transição de atriz a roteirista?


Sou uma boa atriz amadora, ser profissional era difícil para mim. Tenho muito orgulho de alguns trabalhos que fiz, mas o dia-a-dia da profissão me era penoso. As horas na maquiagem, as provas de roupa, as entrevistas, a exposição pública obrigatória. Só ensaiando ou representando eu era, realmente, feliz. Mas foi uma etapa importantíssima da minha vida. Li muitos textos de teatro, roteiros de cinema e televisão. Cedo ganhei intimidade com a linguagem e, talvez por isso, me atrevi a escrever. Estreei como atriz em 1975. Em 1978 escrevi meu primeiro roteiro e não parei mais. Mas dei o salto definitivo de uma profissão para a outra em 1986.

 

Ser atriz faz você escrever roteiros imaginando a melhor forma de interpretar?


Sem dúvida. Foi um ganho que trouxe comigo. “Ouço” os personagens falando. Há vozes vivas dentro da minha cabeça.

 

Qual a diferença entre escrever para cinema e TV? No caso de novela é mais difícil, por se tratar de uma “obra aberta”, sujeita aos índices de audiência?


Em tese, quem escreve para cinema escreve para a televisão. As ferramentas são as mesmas. O teatro, sim, é uma dramaturgia diferente. Mas tanto a televisão quanto o cinema são histórias contadas prioritariamente em ação, em imagens; portanto, exigem que o escritor tenha uma paisagem mental estruturada. Há quem diga que o cinema é mais “imagem” e a televisão mais “diálogo”. Pode ser. Mas nem isso é regra absoluta. A novela pede uma história com fôlego narrativo para muitos capítulos, que possa ser esticada internamente em vários conflitos e peripécias. Um roteiro de cinema dispensa esse critério — tem mais espaço para reflexão e subjetividade. Mas, ainda assim, acho que há pouca diferença entre as duas mídias.

 

Com a TV a cabo, o mercado para roteiristas cresceu. Há, hoje, maior valorização do trabalho do roteirista?


Claro que sim. Hoje ouço gente falar de “dramaturgia” como nunca se sonharia há dez anos atrás. Lemos recentemente, nos jornais, sobre uma greve de roteiristas americanos que paralisou a indústria audiovisual* nos Estados Unidos. No Brasil, os suplementos de TV dos principais jornais publicam o resumo dos episódios de dezenas de novelas que serão exibidas na semana em curso. Mesmo que não saiba formular, o leitor sabe que uma novela, por exemplo, é uma história em processo, com eventos que evoluem, se multiplicam, se alteram. Escrever para a televisão ou cinema deixou de ser uma ocupação “mágica”. É, agora, uma profissão compreensível, transparente.

 

Ainda há poucos profissionais?


Ao contrário. Há muitos. Como há profissionais de sucesso que ganham bons salários, muita gente vem sendo atraída para a profissão. Mas, isso também cria muitas “vocações” equivocadas. Já dei cursos em que, na primeira aula, os estudantes só querem saber sobre direitos autorais. Sempre proponho a eles que, primeiro, escrevam ao menos um parágrafo e que depois se preocupem com direitos autorais.

 

Um bom escritor pode não ser um bom roteirista? Qual a principal qualidade de um roteirista?


Um escritor de livros trabalha com a imaginação livre de qualquer amarra. Sua criação final será um livro e as imagens mentais que ele cria são compartilhadas apenas com o leitor — ele é começo, meio e fim do próprio trabalho. O roteirista cria um texto que é só o primeiro passo de uma cadeia de criação que envolverá outras pessoas e instâncias até, finalmente, transformar-se num filme ou num programa de televisão. Portanto, ele trabalha sempre dentro de limites concretos. Um romancista pode escrever “chove a cântaros”, quando bem entender. O roteirista, quando escreve “chove a cântaros” sabe que alguém vai ter que “produzir” essa chuva. Ela custará dinheiro, esforço, e trabalho de outras pessoas. Então, ele o tempo todo, precisa se perguntar: “Isso é realmente essencial para a minha história?” Tudo tem que ser levado em conta.

 

Como é trabalhar em grupo, no caso de novelas, em que diversos autores dividem o trabalho?


Eu adoro. Na televisão, até prefiro. Uma novela é uma coisa monumental, que consome um ano inteiro da sua vida, numa rotina de trabalho pesadíssima. É mais rico e divertido inventar aquilo tudo com outros escritores, propondo, ouvindo, testando a resistência das histórias e dos personagens, rindo, polindo, derrubando e construindo. O contato com os colegas é rico e refrescante. No cinema — se é um roteiro encomendado — também gosto de parcerias. Se é um roteiro original, prefiro fazer sozinha. Teatro, também, escrevo sempre sozinha.

 

Como ex-aluna de Gabriel Garcia Márquez, em Cuba, qual o seu conselho para quem quer fazer roteiros? Quais as principais leituras? Os cursos são úteis ou o principal é ler roteiros e ir ao cinema?


Tudo é útil. Quem quer escrever tem que se sentir bem escrevendo, tem que tolerar a solidão, ter intimidade com as palavras, merecer a amizade delas, ter um bom acervo de vida — de observação ou de imaginação. Tem que ser inquieto, curioso — o preguiçoso se esvazia rápido. A literatura, claro, é fundamental. Assim como o cinema e o teatro. Uma leitura profunda de Shakespeare vale mais que duzentos cursos. Dramaturgo brasileiro não pode viver sem Nelson Rodrigues, e assim por diante. Se quiser escrever para televisão e cinema tem que saber como os filmes e programas são produzidos. Cursos específicos são bons porque orientam os primeiros passos e é onde o estudante pode entrar em contato com os roteiros de cinema, de televisão, capítulos de novela etc. — que em geral, não estão à venda nas livrarias. Quanto mais se freqüenta a linguagem para a qual se vai escrever, melhor. E, finalmente, é bom viver a própria vida com ênfase. Para, acima de tudo, ter o que dizer.

 

Esse texto foi publicado no plástico bolha nº19: download PDF

 

 

 

 






 

 


 

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