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Amor: Esboço de um roteiro

 

CENA 1 – EXT./DIA – Escola Parque.


Esses sapatos amarelos são pequenos demais, apertam meus pés – ou são os pés que apertam os sapatos, não sei. Você tem tic-tacs no cabelo. E uma camisa listrada, ou listada, penso. Temos cílios, os dois, e grandes demais. Tentativa de vôo: pegar duas folhas secas, uma em cada mão. Correr e agitá-las o mais rápido possível. Não funciona. Contentome com a gangorra. Sento-me no chão. Cato sementes de jaca e as enfio fundo na terra. Depois as choco com a mão e cuspo em cima, para fertilizar. Lembro-me de voltar aqui daqui a uns anos: faço um xis no chão para me lembrar onde foi. Você observa, perplexa, a minha fuga.

 

CENA 2 – EXT./NOITE – Calçadão de Ipanema


Um bumbo explode ao longe, em descompasso com as ondas do mar. Minha cabeça pesa e o mar estoura quase aos nossos pés. No ar, a ressaca em mil gotículas de sal. Tropeço em latas e em costas suadas demais. Talvez a ressaca seja de ambos. No chão, amêndoas secas (mortas?), tão boas de chutar. Entre confetes, e poças, e clara, você está: de óculos escuros, talvez. Licença. Quero viver com você a vida inteira e mais um pouco, quase disse. Mas há o bumbo, a ressaca e. Não estávamos sós (estaríamos prontos?). Acho que não. Daqui a um ano, quem sabe se nós. Quem sabe: a semente continuava sob o solo, fertilizada.

 

CENA 3 – EXT./DIA – Vargem Grande


Sob o som do sol e o céu a pino, descobrimo-nos do véu e expomo-nos ao mundo. Lábios correram pela nuca como o gelo que escorre pelos ombros como a cânfora que estoura no pulmão (nosso peito só explode, nosso peito). Enfim, fundimos nosso sangue que agora borbulha ultravioleta ao som de um psy-trance. E aquela semente plantada explode do fundo da terra: somos só terra, da cabeça aos pés. Só Terra. E o mundo é êxtase.

CENA 4 – INT./DIA – Quarto


Em uma manhã mais clara que qualquer outra manhã, se plantará funda sob os lençóis uma nova semente. E em outras manhãs ela vai florescer; e crescer; e permanecer crescendo. Com dentes grandes, olhos enormes e cílios maiores ainda – cílios de pinçar a realidade, capturá-la – ela terá pintinhas nas costas, dobrinhas nos dedos e correrá pela terra, de onde saiu e a quem pertencerá eternamente – como toda semente. E terá, assim, vontade de plantar sementes. E eu lhe darei, então, meus sapatos amarelos.

 

 

 

 

 

Esse texto foi publicado no plástico bolha nº19: download PDF

 

 






 

 


 

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