Cadastre-se para receber atualizações do plástico bolha via e-mail:

 




Lucas Viriato e Pedro Neves


Doce de Coco


Com simpatia e despretensão, Pina Coco fala sobre sua trajetória

A estampa da bolsa, com um desenho do detetive Tintin, já revela ao menos duas preferências de nossa perfilada – sempre avessa a perguntas sobre gostos e histórias pessoais. Assim como o personagem infantil, Pina Coco adora uma boa história policial, além de também ter íntima ligação com o país de origem do desenho: a França. O mestrado de quatro anos na Universidade de Aix-en-Provance é sempre lembrado com carinho.

"Sou muito européia. Tenho ótimas recordações, cheguei a dar aula de cultura brasileira em Nice, além de ter uma bela especialização em literatura francesa", conta Pina, que voltou ao Rio em 1975, justamente o ano em que começou a lecionar na PUC. De lá pra cá, não quis mais saber de vida fora da instituição. "Dizem que na PUC nós não vestimos a camisa, nós a tatuamos. Além do mais, morar na Gávea é ótimo. Faço tudo a pé, não largo o bairro de jeito nenhum", comenta a coordenadora da habilitação de Formação do Escritor que, por ironia, diz não escrever ficção por pura preguiça.

Uma boa história – ou um bom papo – é o bastante para chamar sua atenção. Ainda que resista a fazer uma lista de seus autores preferidos ("não dá para fazer, são muitos nomes, seria ridículo"), ela acaba entregando que tem em Calvino um grande mestre e fala de sua admiração por Nelson Rodrigues, fato já conhecido por quem já foi seu aluno. Além disso, há os citados romances policiais. "Hoje estou mais para as margens do que para o cânone", analisa. Atenta às "margens", ela costuma assistir diversos seriados e folhetins, sem jamais deixar de acompanhar a novela das oito. "Orientei uma das primeiras dissertações em telenovelas, sobre Janete Clair", relembra.

Pina contraria o mito de que uma professora de Letras vive sempre escondida atrás dos livros. É comum encontrá-la andando pelos arredores da Gávea, onde, despojada, cumprimenta uma série de amigos do bairro e comerciantes. Para ela, o contato com os alunos é fundamental. Depois de passar décadas se dividindo em lugares diferentes para se sustentar, ela diz agora "ter chegado lá": faz o que gosta, dá aula nas cadeiras que sempre quis e ainda orienta uma disputada oficina de criação literária.

"O contato com os alunos te mantém vivo. Sala de aula é uma coisa muito forte. O professor é o personagem principal, está no palco, é Deus. Tenho que tomar muito cuidado para não ser professora 24 horas por dia, ficar uma pessoa didática, querendo explicar tudo", diz ela, que foi aluna de Antonio Cândido e Paulo Emílio Salles Gomes, na graduação da USP. Outro "mestre" que ela gosta de citar é Affonso Romano de Sant’Anna, orientador de seu doutorado na PUC.

Além da sala de aula, Pina ainda encontra tempo para os encontros com um grupo formado por ex-alunos de uma de suas oficinas – estão produzindo um romance coletivo. Entre os pequenos prazeres cotidianos, estão uma ida à papelaria, uma viagem a São Paulo ou desenhar e escrever em um dos seus cadernos comprados na França, hábito que ela adora manter. Para o lazer, ela não dispensa um bom jantar com amigos, cinema e teatro. "Sou muito exigente em relação ao teatro. Por isso, assisto pouco. Gosto muito do texto teatral, já fiz algumas traduções em trabalhos com o grupo Tapa", lembra.

No entanto, ela não gosta de eleger uma obra necessária, ou algo que tenha mudado ou marcado determinado ponto de sua vida. Sempre crítica, ela não quis dizer nenhuma frase ou mensagem para os alunos no momento da entrevista. Mas, no dia seguinte, voltou atrás e, em telefonema para um colaborador, fez questão de incluir uma frase na entrevista. "Apesar de admirar muito Nelson Rodrigues, vou pedir para meus alunos contrariarem o famoso conselho que ele dava aos jovens, mandando-os envelhecer. Eu digo sempre: continuem sempre jovens", finaliza, com a doçura de um saboroso doce de coco.

 

Esse texto foi publicado no plástico bolha nº 2 : download PDF

 

 

 

 






 

 


 

Copyright - Jornal Plástico Bolha - E-mail: redacao@jornalplasticobolha.com.br