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Elisa

Julia Sobral


Dessa vez, Elisa estava num jardim, mas não um jardim qualquer... Era uma mistura do verde com o qual estava tão acostumada, com a pureza singela daquele livro de que tanto gostava... Algo dificilmente traduzível em palavras... O silêncio era profundo e apaziguador, e ela estava sozinha. Mas não aquela solidão de alma, que tanto dói; uma solidão apenas física, já que podia sentir a presença de todos os seus entes queridos a sua volta, em cada pequena borboleta que voava em volta de sua cabeça ou em cada folha que balançava nas árvores, que, de tão altas, pareciam não ter fim... E a névoa, ah, a névoa, que parecia paralisar o tempo com todo o seu mistério, fixar essa imagem tão insólita. Elisa costumava seguir uma espécie de método de descobrimento todas as vezes que era transportada para esses sonhos, muitas vezes mais reais do que a realidade em si. Ela costumava observar, primeiro de longe, e em seguida escolhia um lugar específico e analisava, tentando descobrir qual era a mensagem que este sonho estava lhe trazendo, analisando cantinho por cantinho cada detalhe desse mundo todo de invenção. Mas dessa vez não conseguiu. Caminhava lentamente passando a mão pelas plantas de todas as cores que a cercavam e sentindo seu cheiro, tentando impregnar-se da (não) realidade desse universo. Era por demais emocionante, como se o lugar não passasse de uma ilustração de si mesma, como se tivesse encontrado nele a SUA verdade, aquela que tanto procurara sem saber, com tanto afinco, mas inconscientemente. E ela sentiu uma vontade imensa de deitar-se naquele chão de terra fria, nas raízes daquelas árvores, e não sair nunca mais, de ficar para sempre naquela paz, naquele jardim onde tudo era possível, podia senti-lo no ar... Mas uma buzina logo chamou Elisa de volta para o lugar onde verdadeiramente se encontrava: esperando que o sinal fechasse na rua Jardim Botânico, para que pudesse atravessar e seguir em frente, em direção ao vazio que a cercava por todos os lados, a mais um dia maçante, a algo que ela não podia (e nem queria) chamar de "vida". Ela queria mais...

 

 


Esse texto foi publicado no plástico bolha nº 2 : download PDF

 

 

 






 

 


 

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