Cadastre-se para receber atualizações do plástico bolha via e-mail:

 

 


A Boneca
Carolina Vilela

 

Augusta. Assim chamavam a criança alva, de face de porcelana.

A mãe, rosa de amor, dava tudo que a menina pedia — aliás, exigia. Era bonito arrumar o palácio montado dentro das quatro paredes do quarto da filha. Naquele infantil paraíso, reinava o mais seleto grupo de brinquedos.

A pequenina pouco tocava em suas comportadas bonecas batizadas com nomes pomposos, nas casinhas e nos conjuntinhos de chá. Alguns brinquedos preservavam a sacra imponência permanecendo em suas caixas. Augusta preferia ir a uma feira aos domingos para brincar com as bonecas ali vendidas. Usadas, podiam ficar um pouco mais sujas.

Numa manhã de feira, Augusta resolveu se arrumar além do costume. Com a permissão e o auxílio da mãe, pintou-se com batom e ruge, após se enfeitar com uma leve camada de pó-de-arroz. Pronta, dirigiu-se, na companhia do pai, para o universo dos brinquedos plebeus, a exibir sua nobreza e divertir-se com a graça levemente circense dos objetos que, um dia, já foram muito mais que um arlequim de ricos.

Caminhando pela praça, Augusta mantinha das pessoas e das barracas uma distância que julgava sagrada e ostentava as rendas do vestido azul todo rodado.

Na feira havia de tudo: peças de automóveis, mobílias antigas, instrumentos musicais e roupas, tudo muito barato.

Augusta nunca comprara nada. Gostava somente de ver o movimento daquela paisagem eclética, tão diversa de seu quarto. Admirava a busca daquela população consumidora de coisas de que sua família jamais precisaria. A menina observava todos os domingos um mundo palpável, onde seus habitantes tinham o que almejar.

Como de costume, depois de uma breve vista sobre o ambiente, a criança saiu em disparada para a parte da praça em que ficavam os brinquedos. Bem no centro daquela área de vendas, estavam os pequenos diabinhos que, quando novos, tanto alimentaram a imaginação dos jovens abastados e fomentaram o desejo de infância dos desafortunados ao serem adorados assim como um elemento da fé.

Naquele instante, o dono da barraca terminou de ajeitar uma outra boneca, mais velha. O vestido, as linhas de costura apodrecidas, por pouco não desmanchara nas mãos no vendedor. Era de um tecido verde, que já havia sido vibrante. As rendas amareladas eram meros fios rasgados e a tinta usada que marcava os olhos e os lábios descascara quase toda. No entanto, a boneca foi posta em exposição junto às outras.

Augusta, eufórica com a brincadeira, levantou-se para pegar mais uma boneca. Começou a procurar e avistou a tal feiosa.

Olhou-a atentamente; observou os mínimos detalhes: braços, cabeça, traje e cada fio do cabelo louro.

Com cuidado, a menina segurou delicadamente a frágil bonequinha, hipnotizada. Num impulso, começou a ninar a pequenina e seu peito aqueceu a louça que revestia o rosto desfigurado do objeto adorado. Aquele momento fez com que a menina se esquecesse de tudo. Tocava sua nova filhinha, acariciava seus cabelos. Contou-lhe histórias, ninando-a mais uma vez. Deu-lhe o nome de Maria.

Se o pai não interrompesse, Augusta permaneceria na feira o dia inteiro. Impaciente, chamou a filha para irem embora.

— Só mais um pouquinho, papai. A gente nunca fica muito tempo aqui.

— Já ficamos o bastante. Agora, levante-se!

— Então me deixa levar esta aqui para casa — Augusta pediu, mostrando Maria ao pai.

— Mas você já tem tantas, Tesourinho… E esta, está gasta — afirmou o homem.
A teimosa criança continuou implorando. Chegou a iniciar um choro manhoso. O pai, para interromper definitivamente o ataque de mimo da filha, alegou estar sem nenhum vintém, mas cedeu ao pedido de voltarem com a quantia na outra semana.

Quando iam embora, o vendedor ainda garantiu que guardaria a boneca para Augusta.

A semana foi de uma espera angustiante para a menina, que nunca vivera sete dias tão compridos; procurava se distrair organizando o espaço onde iria acomodar a boneca, que dormiria a seu lado todas as noites.

Augusta, então não pensava mais em sair do quarto. Pensou nas brincadeiras que faria com Maria, como iria vesti-la. Chegou a lhe escrever cartas, revelando os parques aonde iriam juntas. Planos, festas, alegria, fantasia, imagens, sonhos, muitos sonhos.

Num sonho, a menina pôde ver a boneca toda imaculada no cume de uma montanha que tocava o céu enfeitado de estrelas. Ali, o simples brinquedo não remetia, nem de longe, ao que de fato era. Estava cercado de anjos, oferendas nas mãos, ao som de música; todos dançavam. Crianças e bonecas se uniam para sempre felizes num baile mais encantado que os dos contos de fadas. Ao acordar, Augusta sorriu e contou sua fábula aos brinquedos do quarto.

No domingo, Augusta saltou da cama antes mesmo de o sol iluminar as cortinas das janelas. Nem os empregados da casa encarregados de preparar o café e buscar o pão haviam levantado.

Veloz, pulou do leito e foi correndo acordar ao pai. Sem defesa, o homem teve de atender o chamado de Augusta. Liberou um alto bocejo, espreguiçou-se, mas quis voltar a dormir; Augusta o impediu. Finalmente, após muito esforço, o homem conseguiu se arrumar. Tomaram o desjejum e saíram para buscar a boneca.

Na praça, poucas barracas haviam sido montadas; o movimento era ainda fraco. Sendo a boneca o único interesse dos apressados fregueses, partiram sem tardar para o estande de brinquedos. Mal pôs os pés na área reservada às bonecas, Augusta reparou algo estranho. Aquelas ali expostas eram mais bonitas e conservadas do que as usualmente vendidas na barraca.

O seu dono, assim que os avistou, reconheceu a ansiosa menina e o pai.

— Então voltaram! Pode pegar sua encomenda, princesa. Está aí na mesa, toda arrumada para conhecer o novo lar.

Augusta não viu Maria. O vendedor apontou para a boneca.

Vestido cor-de-rosa limpo e belo. Os cabelos, penteados e enfeitados com fitas, estavam tão louros que brilhavam. A face, novamente pintada, mostrava lindos olhos, ainda mais azuis, e lábios ainda mais vermelhos. No corpo refeito, um suave perfume de rosas. Estava tão bonita a boneca que parecia ser Augusta. Teria, agora, outros nomes, além de Maria.

— Uma menininha bela como você não poderia levar uma boneca tão desajeitada; tive de fazer um retoque — enchendo-se de orgulho pelo bem feito trabalho, o comerciante explicou. — Depois de consertar esta, me animei para fazer o mesmo com as outras. Apenas aviso que a bonequinha está um pouco mais cara. O senhor compreende. É pelo meu esforço.

— Não há problema — disse o pai. — Seu trabalho está realmente bem feito. Agora sim, a boneca está ideal para o quarto do meu tesourinho.

A criança, então, tocou naquilo que, até o momento, fora sua maior ambição. Quis chorar e perguntava-se, em silêncio, o que fizeram com sua Maria. Seu amor tornara-se impossível.

A volta para casa teve o silêncio de uma cerimônia fúnebre. Augusta caminhava lentamente ao lado do pai, segurando a boneca como quem carrega um enfermo sem esperança de vida nos braços. Seu olhar era fixo e mudo. Queria esquecer que um dia conhecera Maria, pois jamais a teria de volta. Em seu quarto, não havia espaço para bonecas feias.

Em casa, no quarto, a menina penteou a boneca e pediu para o empregado mais alto da casa guardar o brinquedo no céu de seu mundo delimitado por tijolos, o topo da estante. A singela bonequinha seria agora uma eterna prisioneira dos sonhos de Augusta.

Triste e sozinha, a delicada Augusta deitou-se em seu leito cor-de-rosa, ao lado de suas virgens de porcelana, e desapareceu.

 

 

 

 

 

Esse texto foi publicado no plástico bolha nº20: download PDF

 

 






 

 


 

Copyright - Jornal Plástico Bolha - 2008 - E-mail: redacao@jornalplasticobolha.com.br