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Todos Nós
Roberta Leopoldino

 

Já vou! — ela gritou de volta; em seguida, se enroscou nas cobertas em posição fetal, demonstrando uma disposição contrária à de suas palavras. Sim, ela teria que se levantar uma hora; não que ela tivesse vontade. Se levantar, sair de casa, era perceber irremediavelmente que não importa o quão destroçado esteja o nosso espírito: o mundo não se ressente disso. Mas nós sim. É somente quando a alma está partida que se percebe que o mundo nos é totalmente indiferente, mas que o mesmo não ocorre conosco. É somente quando a alma está partida que se percebe que desejamos, desesperadamente, significar algo mais e que também significamos bem menos do que pensáramos a princípio.

E ela, tendo sentido isso inúmeras vezes, estava cansada. Tinha que se levantar e ir para o chuveiro; ele a esperava lá. Contudo, o cansaço no espírito superava qualquer disposição física que porventura tivesse. A pouca que lhe restara, ela já a esgotara com ele durante a noite.

Levantar-se era uma atitude que demandava uma coragem que lhe fugia cada vez mais por entre os dedos. E fora exatamente por isso que o procurara: quando essa coragem lhe faltava, ela conseguia resgatar algo de si mesma ao seu lado. Era capaz de esquecer sua fraqueza, sua covardia, e prosseguir um pouco mais; pelo menos, até a manhã seguinte. Mas era essa manhã seguinte que mais temia: era então que via que toda aquela força que ele lhe passara não passava de uma ilusão. Era então que via que estava ainda mais fraca do que no dia anterior. Podia sentir toda a sua força se esvaindo a cada dia. E se perguntava o que aconteceria quando ela se esgotasse por completo. Quando ela se partisse em mais pedaços do que alguém pudesse contar.

Ele estaria lá? Ele tentaria juntar os cacos novamente? Conseguiria fazê-lo? E se não conseguisse? Se ele não fosse capaz disso, ninguém mais o seria. E ela sentia esse dia se aproximando, perigosamente. Ela pressentia o dia de sua queda, como uma presa pressente a aproximação do predador. E tal qual a presa, ela sentia a paralisia, o terror que a dominava e a impedia de fugir. E fugir de quê? De si mesma? Já tentara — ah, e como tentara! Mas não se pode fugir de si mesmo. E se pudesse, será que ela realmente gostaria? Em seu íntimo, não sentia ela certo prazer mórbido em estar irreversivelmente presa a si mesma? Como um condenado ao cadafalso, que caminha lenta e orgulhosamente para seu destino inevitável; com um prazer sádico de saber que não se deve mais nada ao mundo. E ela também, seguia o mesmo caminho.

E ela voltava a se perguntar se ele estaria lá para assisti-la, no dia em que ela estivesse com a corda ao redor do pescoço, pendurada, os pés procurando sofregamente o chão com o pouco de ar que ainda lhe restasse nos pulmões. Ele permaneceria para resgatar seus restos mortais? Ou lhe viraria as costas, como o resto da platéia, uma vez encerrado o espetáculo?

A morbidez de seus pensamentos aumentando, ela resolveu parar por aí; se enveredasse por essa estrada, talvez não houvesse mais volta; e apesar de se sentir destruída, seu instinto de sobrevivência ainda possuía voz dentro de si. Ela nunca fora alguém que ignorasse os instintos mais primordiais ao ser humano, pelo contrário: sempre fora em busca deles. Nunca ignorara os murmúrios do próprio sangue, como tantos ao seu redor. E se orgulhava profundamente disso. Numa vida em que todos procuram se encaixar em algum lugar e trocam o verdadeiro pelo confortável, ela optara por jamais negar a consciência. Por jamais fechar os olhos. E assim, enquanto sua voz interior não gritasse por um fim, ela não a silenciaria. Mas como doía não calá-la! Como doía sentir seu espírito rastejando, levantando-se todas as vezes e se recusando a desistir! Pois tudo o que ela mais gostaria, no final das contas, era que seus instintos mais animais lhe dissessem para desistir. E que a opção — granjeada a poucos — de abrir ou fechar os olhos jamais lhe tivesse sido dada.
Mas não era assim. Não; a opção havia sido não somente dada, como aceita também. E ela não conseguia voltar atrás. Pois o mais difícil não é abrir os olhos, e sim tornar a fechá-los.

Mas melhor do que fechar seus próprios olhos seria abrir os dele. Mas disso, também, era incapaz. De quantas coisas ela se sentia incapaz... ela não conseguia levá-lo consigo, não conseguia prosseguir, parar ou retornar. Não conseguia sequer se levantar. A mecanicidade das ações se perdera, e ela não conseguira achar nenhuma motivação para substituí-la. Sua incapacidade a enraivecia e aterrorizava. Se ela não podia mudar nada, então de que servia, afinal, aquela consciência da qual tanto se vangloriava? E ela começava a achar que, talvez, essa consciência não tivesse despertado para nenhum outro fim que não o de fazê-la sofrer.

Ela sofria mais do que as outras pessoas, por ter maior consciência das coisas. Era verdade que ela também desfrutava de alegrias e prazeres com os quais os outros sequer sonhavam. Sim, mas a que preço? Por tudo isso, ela pagava com sofrimentos também inimagináveis ao ordinário dos homens. Valia a pena?

Não eram pensamentos incomuns a ela. Ao contrário, eram constantes assombrações, das quais não conseguia se livrar. Pelo menos, não sozinha; mas ele, sim, ele conseguia espantar todas as incertezas de sua mente. Sempre. A coragem que ele lhe insuflava não se esgotava na manhã seguinte. Só o fato de ele estar por perto já fazia com que seus medos fossem embora. E era exatamente o fato de saber que não podia mais tê-lo por perto — não como antes — que os aumentara. Agora, os demônios em sua mente estavam quase fora de controle. E o final, do qual eram fiéis arautos — o final que ela chegara um dia a acreditar que não se cumpriria — se fazia anunciar pela porta da frente.

Ela se perguntava onde ele estaria naquele momento. Não que ela realmente quisesse saber a resposta; na verdade, ela a temia, mas a pergunta vinha antes que pudesse impedi-la. Ele a iria procurar? Se ele ligasse e soubesse onde estava, iria se importar? Mas, por trás de todas essas dúvidas, ela sabia que ele não ligaria. Só “mais tarde”. Como sempre. “Mais tarde” seria tarde demais. Ela já teria rastejado pelo dia, e suas feridas já estariam parcialmente curadas — feridas que voltariam a se abrir no dia seguinte, claro. “Mais tarde” ela já estaria provisoriamente bem, e ele não saberia o quanto ela se retorcera de dor antes de iniciar o dia; não saberia o quão perto, mais uma vez, ela estivera de cair e nunca mais se levantar.

— Tô indo! — ela gritou novamente, em resposta ao chamado insistente do outro. Não, não era o chamado que queria ouvir; mas talvez ela tivesse sorte de ainda ouvir o chamado de alguém, quem quer que fosse. Se este não podia fazer por ela tanto quanto o outro, bem, não era culpa dele.

Suspirou, cansada. Levantou-se e foi para o chuveiro.

 

 

 

 

 

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