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Primeiro de Abril
Laila Melchior

 

Empalideceu, assim de repente, a memória daquele dia bonito em fevereiro. Sabiam que não foi a longa espera; tampouco a falta de laços unindo suas vidas nas coisas pequenas como são as do dia-a-dia.

Romântica, ela nunca percebeu o que o atraía, a simples impossibilidade da concretização.

Infantil, ele não viu que a moça não atinara para pecado: só queria dar resposta ao bilhete que surgiu como se dentro da garrafa que acompanhava boiando há séculos.

Só faltava era saber se vinha do grande mar de Yemanjá ou se do seu próprio, maior ainda em divagações.

Vislumbrando horizonte de sonho, responder à mensagem náufraga do desconhecido sedutor tornou-se obsessão. A menina pôs-se a lutar a luta que o malandro mais evita, a mesma da qual nenhum sábio pode escapar. Não falo daquela famosa luta vã que travamos com as palavras; é à luta com suas parentas, as idéias, a que me refiro. Balanças de pesar valores estão difíceis de encontrar, viraram raridade.

Ela procurou, procurou. Tentando pegar a tal balança emprestada, revirou todos os armários, dos armazéns e dos mercados de sua mente. Só que demorou muito na busca.

— Tarde demais, menina! Ele agora já não quer saber...

Ela insiste.

— Será que ainda não viu?

Vê.

 

A volta à tranqüilidade é rápida, e esta é (não se engane!) uma das grandes vantagens de ser só menina. Só nova, só fresca. Dezenove anos.

O que ficou é uma parte da fotografia rasgada, menor que a metade. E o tonto que olha perde seu tempo pensando “o que mais teria aqui? Um beijo? Horizonte?”

A resposta é: nada. O amor deles não passou daquele presente, morto antes mesmo do começo. Morto pelo destino, pela coincidência, atropelado pelo ônibus que passa em Copacabana.

É só papel rasgado.

Mas é bom de lembrar.

 

 

 

 

 

Esse texto foi publicado no plástico bolha nº20: download PDF

 

 






 

 


 

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