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Nesta edição, os leitores do plástico bolha foram desafiados a escrever um soneto italiano. Esta é uma das formas mais clássicas da poesia, compondo-se de dois quartetos e dois tercetos rimados. Veja abaixo seis amostras de quem topou participar do desafio. Para a próxima edição, o desafio será temático: escrever um poema sobre um bairro ou sobre uma cidade. Nossos leitores estão convidados a trovar Copacabana, a Tijuca, a Lapa ou, por que não?, o Rio de Janeiro inteiro. Os leitores de BH e de outras cidades também podem participar, com suas respectivas localidades. Basta enviar seu poema para:

jornalplasticobolha@gmail.com.

 

 

Água aguardar

 

Aguardar um verso, a calmaria
Indefinida até que um espelho d’água
Reflita algo preciso como a mágoa,
E ora vago como uma sombra pia.

 

A tempestade. A imagem; felonia.
Intermitência, simbolicamente a praga;
Luz a perder-se. Metáforas mais vagas.
É necessário preterir, queria.

 

Recorre-se aos distúrbios no oceano
como símbolos ordenados num plano.
Aguardar um verso torna-se um verso.

 

Meditar é tornar do porvir
O presente. Da hipótese auferir
A tese. Ter da metade o terço.

 

Pedro Braga

 

Ramo de rosas

 

a mudez da palavra que te veste
em si nua — grande cartilha agreste
de nuances nonsense, se insinua
oblíqua nos lábios, meu lápis sua

 

língua nas virilhas, significado
das armadilhas — ambíguas carícias
nas ancas, essas ilhas tão entrelinhas
fingidas desde as margens com hiatos

 

(casaco de pele de textos, sílabas
feitas com retalhos, tons, narrativas
tônicas, teu clitóris, minha vírgula)

 

do meu verbo pacato, que demora
no teu seio, guardando das histórias
no olhar, a sintaxe da hora assídua.

 

Luiz Coelho

 

 

Soneto prático

 

quando não há mais qualquer coisa após
o que vivemos juntos, a não ser
o fim, com a tragédia de sabê-lo
fim, e a certeza da dor, atroz,

 

quando você e eu formamos nós
e nossos nós não podem desatar-se,
antes que os nós acabem por cegar-se
e de berrar percamos nossa voz,

 

por mais que doa e que nos caia o céu
sobre os olhos abertos, e os meus
rasguem-se de dor e feito papel

 

chovam corpos picados sobre os seus,
por amor mesmo, e para ser fiel,
é preciso saber dizer adeus.

 

Gregório Duvivier

 

 

Recompor do dia

 

Onde a onda vem o eco se estende e cala
o rechão feito horizonte espelhado.
Sob os pés e os tatuís perfurado,
o continente em fresta a areia inala.

 

Brilha o ocaso na América do Sul,
e as luzes então tecem suas teias:
Resplandecem as ruas suas veias
de um sangue que desfaz-se em tinta azul.

 

A noite não é bela como o dia:
Farfalhando, explodem as veias, sobra
o céu, que pelas paredes se esguia,

 

escorre seco, chora e se desdobra,
buscando o alvorecer da luz que espia
por dentro desse céu que a torna obra.

 

Marlon Riviero Franco

 

 

Calendário das horas

 

Quem é que vê o desespero imóvel
Deste dia enclausurado no tempo?
Quem é que assiste o agonizante e lento
Instante decomposto no improvável?

 

Ferido mortalmente pelo Efêmero
O momento, silente em si, desaba
E rasga o sonho que perdido andava
À luz do dia num sofrer sincero

 

Só sabe da distância o que delira
De presença, com angústia e com medo
Da queda, no altiplano da paixão

 

Quem é que à noite cândida suspira?
Quem é que tem a dor como segredo
E o sofrimento como coração?

 

Paulo Renato Porto Filho

 

 

Farol

 

Abro a porta que no espelho inexiste,
E no mergulho horizontal se anuncia
Com uma beleza intensamente triste
O doce sussurro presente na harmonia.

Um murmúrio encantador que admite
Em muitas ondas uma salvação vazia
Oferecidas apenas à vida que suplique
E se purifique em sua própria liturgia.

Alçado na pira das palavras sagradas,
A vida oferecendo para ser queimada,
Uma centelha é riscada sob o lençol.

Às chamas submeto-me num instante
E a miragem de toda a paixão cortante
Vejo esfacelar-se de meu novo farol.

 

Pedro Carné

 

 

 

 

Esse texto foi publicado no plástico bolha nº21: download PDF

 

 






 

 


 

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