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André Preger

 




O que nos contam as fadas

 

MARINA COLASANTI. O jornal Plástico Bolha foi recebido pela escritora, contista e tradutora para uma conversa mágica sobre a natureza dos mitos e da criação literária. Nela, a autora nos conta da sua infância e das suas fontes de inspiração para escrever contos de fada. Tudo regado a muito prilimpimpim!

 

 

Qual é a sua relação com a leitura?

 

Sou européia, de uma família leitora; nunca pensei que uma casa pudesse não ter livros. Os móveis da minha imaginação: uma casa precisa de um fogão, de um colchão e das estantes, o resto a gente dá um jeito; mas eu nunca pude pensar em uma casa que não tivesse esses três elementos. Não tenho nenhuma lembrança do primeiro livro ou de ter sido alfabetizada para a leitura. É clara a lembrança de eu ser alfabetizada para a escrita, mas é como se eu já soubesse ler. Porque os livros sempre estiveram dentro da minha vida, eles fazem a costura; eles não têm uma entrada, são o meu fluxo no mundo.

 

Como começou a produzir literatura infantil?

 

É preciso esclarecer que, em termos de mercado, os contos de fada são considerados literatura infantil, mas eu os vejo como um gênero específico. Comecei pelos contos de fada por uma questão técnica, do jornal. Era a época da ditadura, o Jornal do Brasil editava o Caderno I (infantil) e eu trabalhava na redação do Segundo Caderno. Fiquei encarregada da edição do Caderno I por causa da prisão da editora, Ana Arruda Callado. Por ética, não fiz nenhuma modificação; mas foi difícil, porque é pouco prático usar o sapato dos outros. Num dado momento, faltava matéria (eu conto o fato porque essa história vai nos corrigir mais além), e tive que produzir alguma coisa. Peguei a máquina (era máquina!) e escrevi um conto que era para ser a remontagem da Bela Adormecida; mas acabei escrevendo um outro conto, Sete anos e mais sete; fiquei boquiaberta, eu tinha feito uma coisa dificílima! Contos de fada são dificílimos e não é uma literatura que possa ser dominada pela razão, é uma literatura que tem que vir de outras regiões. Fiquei muito encantada, não sabia como tinha acontecido. Tive que descobrir o processo e escrevi o meu primeiro livro, Uma Idéia toda azul; a partir daí escrevi também literatura infantil.

 

A questão do mito está muito presente, se não na concepção, na confecção dos contos de fada. Como o mito entra em sua vida?

 

Entra em minha vida por leitura e muito cedo, aos seis, sete anos, quando li uma coleção adaptada para a juventude, muito bem adaptada; era para jovens de 13 anos ou mais, eu era bem menor. Talvez, até por isso, tenha sido uma leitura tão sedutora, tão fantástica. Li as grandes obras da literatura e li mitos gregos. Li entre 7 e 8 anos, e foi uma leitura para toda vida. Uma vez que você transita pelos mitos gregos, nunca mais sai. Não conheço ninguém que tenha feito isso. Mitologia é uma coisa muito intensa. Quando trabalho a mitologia uso a reescritura, uma retomada dos mitos, e eu trabalhei assim nos meus minicontos, num processo comandado pela razão. Quando trabalho os mitos nos contos de fada, não estou me debruçando sobre os mitos feitos, não estou procurando mitos existentes. Eventualmente eu posso esbarrar em alguma coisa que já existe, mas isso é porque... é o inconsciente coletivo. Isso existe, a gente convive com isso, que aflora. Mas o conto de fada é em si uma narrativa de estrutura mitológica, de extração profunda, vem das camadas mais fundas do inconsciente. Ele é o único produto — e o diferencio entre todos os outros produtos literários — que não recorre à razão. Os contos têm uma carga mitológica, mas injetada propositadamente por mim, é uma carga que aflora porque evidentemente somos esponjas mitológicas. Estamos encharcados de mitologia: a religião, a filosofia, tudo, você vai procurar, as raízes estão lá nos mitos. Então, você deixar aflorar de muito fundo, bem mesmo.

 

As primeiras versões dos contos de fada na Europa Medieval são bem assustadoras, não são? A versão original de Chapeuzinho Vermelho é assustadora.

 

São, sim... As versões são estupendas, inclusive, a variante do Chapeuzinho Vermelho. Mas o que assusta na estrutura — estou falando em âmbito estritamente pessoal porque não conheço outros autores de contos de fada, pois são muito poucos os que escrevem contos de fada como projeto literário — não é só o que acontece; de repente a história te apresenta um recurso que pode ser assustador. O que assusta é a intensidade, a surpresa, é você dizer: “De onde apareceu isso? De onde vem?” Não é uma história que você comande, é uma história que você segue. Você lança a história e a segue; ela é que coloca você no percurso.

 

A senhora é uma espetacular tradutora de italiano. Como chegou à sua célebre tradução do El Gattopardo, de Tomasi de Lampedusa?

 

Sou tradutora há muitos, muitos anos. Comecei a traduzir no início da minha vida de jornalista e gosto muito de traduzir. Traduzi coisas muito bonitas, como Kawabata, Pappini, entre outros. Traduzi bastante, mas diminuí a carga como tradutora por uma questão muito simples: a tradução é mal paga e ela me impede de escrever para mim enquanto estou escrevendo para ela; enquanto traduzo, não escrevo; as duas coisas somadas tornam a questão um pouco improdutiva; mas, depois do Il Gattopardo, traduzi Pinocchio, por exemplo, a pedido meu. Assim, de vez em quando, abro mão e faço uma tradução boa. Tradução é uma coisa maravilhosa, mas parece um castelo medieval que, em algum momento, vai abrir uma tampa e você vai cair na boca dos crocodilos, porque é cheia de armadilhas. Mas é uma coisa muito bonita, é uma atividade para perfeccionistas, para miniaturistas, você fica em cima, borda, borda, borda... O livro está pronto e você continua atravessando o livro todo não sei quantas vezes. É uma atividade muito bonita; lamento que, no Brasil, seja tão desvalorizada.

 

A senhora falou muito bem da metáfora do mergulho nos contos medievais. Gostaria de falar sobre a senhora assustada com o castelo medieval do Parque Lage. Morar lá a marcou muito, não foi?

 

Você sabe que essa experiência está presente na minha poesia, está em vários livros, está nas crônicas; acaba de estar presente em um livro publicado no ano passado, Minha Tia me Contou, com histórias que mesclam realidade e ficção; é uma novela pontuada por cinco histórias contadas por uma tia, grande cantora lírica, que me foram contadas por minha tia, Gabriella Bezanzoni Lage, dona do Parque Lage. Então é um livro mezzo-mezzo, mezzo ficção, mezzo realidade. Quando fui morar lá, não fiquei muito assombrada com a casa, porque eu vinha da Itália onde as casas, as vilas, os castelos estão em toda parte. Minha avó morava num apartamento gigantesco, cheio de peças de arte; no centro histórico de Roma. Meu avô era um historiador da arte, autor de vários livros, era importante nos ambientes das artes do país. O que era assombroso para mim era apreender esse novo país. O jardim era mais assombroso do que a casa porque era uma selva tropical, ia até os pés do Cristo; meu irmão e eu ficávamos soltos ali o dia inteiro, fazendo altas explorações. Foi assombroso; a entrada nos trópicos foi pela natureza; na casa se falava italiano, os empregados todos eram italianos. Entrei no Brasil aos poucos, sem ter que mudar logo de idioma, mas entrando nesse universo vegetal. Incrível, não é?! Mas essa casa aparece muito. Num segundo período, a casa estava vazia; minha mãe já havia morrido, minha tia Gabriella, dona da casa, já tinha ido para a Itália. Éramos meu irmão e eu sozinhos na casa, com um casal de empregados; foi uma vivência completamente diferente. A casa aparece muito no meu livro de estréia, Eu sozinha, um livro esgotado, fora de comércio há muitos anos.

 

Como é sua experiência com poesia (que sei que é pequena, mas muito relevante)?

 

São apenas dois livros... Cheguei muito tarde à poesia, fiz o percurso inverso; todo mundo faz muita poesia quando é jovem e depois até larga. Eu só fiz quando era criança, na Europa. Mas depois não fiz mais, porque cada vez mais a poesia me encantava; me casei com um poeta. Até isso também atrasou; era muita ousadia fazer poesia sendo casada com um poeta já com crachá, carteirinha estabelecida na praça. Era um risco muito grande, fora que era um risco de quebração de cara, num momento em que eu já estava com a minha carreira mais ou menos organizada. Mas tenho a impressão de que exerci a poesia dentro da prosa e, quando ela aconteceu, já estava pronta, porque era a poesia que eu queria fazer. Não tive que sair procurando o rumo da minha poesia. Quando lhe abri a porta, ela já estava lá como queria ser. Eu diria que a poesia fica exatamente entre os contos de fada e a literatura (os contos, a ficção, os ensaios), porque ela, embora faça recurso, e tem que fazer, ao inconsciente, à emoção, tem uma linguagem que é a linguagem dos contos de fada, mas não estou interessada em fazer uma poesia que fale do amanhecer, dessas coisas. Desejo fazer uma poesia a serviço de uma idéia. Uma crítica, uma observação, um olhar diferente sobre o mundo, ou apenas um olhar. Então ela não é dissociada da razão, como são os contos de fada; ela é fortemente associada à razão. Porque para fazer só lirismo, não preciso da poesia; tenho os contos de fada. A poesia me serve exatamente para injetar um olhar crítico, um olhar de uma pessoa que se posiciona no mundo, que tem uma voz, algo a dizer. E quer dizê-lo de uma maneira especial.

 

Qual seria o seu conselho para o jovem estudante de Letras, que se interessa por literatura, que gostaria de escrever? Qual o caminho?

 

É claro que para ser escritor é necessário ter um talento, como é necessário em qualquer atividade. Um talento específico. Mas, aos jovens, sempre digo: “Vocês precisam ter absoluta certeza de que é isso que querem fazer; têm que ser muito tinhosos, é uma profissão para gente tinhosa”. Ou seja, tem que se agarrar nessa profissão e ficar, porque num país como o nosso ela é uma profissão de médio curso ou longo. De longo prazo. Você começa a ter os frutos no meio do caminho, sobretudo, já chegando ao fim. Porque é uma profissão cumulativa. A não ser que você seja um gênio absoluto — e isso ninguém pode prever, embora muita gente já nasça achando que é. Se você não for um gênio absoluto, a probabilidade é que o primeiro livro não o leve muito longe, não dê dinheiro. Então você vai precisar de um segundo, de um terceiro e você vai fazendo suas idéias. No Brasil, só agora oferecem nas universidades cadeiras para se formar um escritor. Antes, todo escritor tinha que inventar a roda. Era muito trabalhoso. Então, é uma profissão para quem está decidido a ficar nela, porque a tendência é ela ejetar as pessoas. A pessoa faz um livro, é um sacrifício danado, e luta para conseguir um editor, mais um sacrifício danado, aí não tem distribuidor e fica tudo em casa. Ou então tem distribuidor, mas o livro não foi comprado, não apareceu na mídia. Aí, a pessoa desiste. Saiba de antemão que este é o percurso normal; o resto é uma eventualidade.

 

 

 

 

Esse texto foi publicado no plástico bolha nº21: download PDF

 

 






 

 


 

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