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Tabaco

André Telles do Rosário

 

Noite de outono, sexta-feira, São Paulo.
Despeço-me de meu Real
numa padaria de esquina. Um maço.

 

Na varanda do oitavo andar a cidade
é sonho passado. Teto baixo, nuvens
escuras e garoa fina. No chão os anúncios,
fios, postes, lâmpadas, faróis, frenéticos.
Enquanto consideramos sobre a vida
eu mais meu comparsa. Titia Jagger
faz suas simpatias pelo estéreo.
13 cigarros.

 

Rasgamos cuidadosamente o tecido
de asfalto e tumulto de carros
de Brasil. Desta vez em cinco
dançamos sentados. Nos dirigindo,
o suíngue. Acendem um cigarro.
São 10, ainda.

 

Reconheço e me cumprimentam
olhos, mãos, bocas e ouvidos
das antigas. E meus pés
cruzam tranqüilos a multidão.
Atrás de mais combustível, encontro
uma paixão do passado que beija
seu namoradinho. Uma cerveja.
6 cigarros.

 

Perfeito! A alquimia perfeita
o som e a celebração!
E todos esticam seus músculos
oculares. Dentro de mim todo o Delírio!
É preciso celebrar! E meus pés
desenham o caminho. E meus pés
percutem o chão. Marcam,
rítmicos, irônicos, elétricos,
congraçamentos. Danço,
Viver é o prazer supremo!
(e já são 4, os no maço).

 

A última boca que a minha
boca poderia seivar é ida.
Comigo só eu, e distante demais
pra tocar instantes mais sutis.
Risco de giz a pista vazia.
2 cigarros, só tenho mais outro,
e um insuportável bafo.

 

O último cigarro escorre-me dos dedos
para o bueiro. E o fecunda.
Nasce o Sol.

 

De volta à pacata vida,
compro um novo maço.

 

 

 

 

 

Esse texto foi publicado no plástico bolha nº21: download PDF

 

 






 

 


 

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