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Diariamente
Carlos Santana Jr.

 

Era o fim da tarde. Chovia fino, quase uma névoa, como se somente para cobrir a forte luz do poente que inebriava as ruas de um laranja demodé. Apesar de ter trilhado aquele mesmo caminho por anos a fio, não sabia decerto aonde ir. Talvez ao metrô, talvez à parada de ônibus, talvez ao simpático estabelecimento no qual tivera alguns dos melhores momentos que a cafeína pôde lhe propiciar nos últimos tempos. Decide pelo café.

Adentra. Apesar de ser um habitué, pela freqüência com que aparecia por lá, não foi reconhecido por nenhum dos funcionários do local. Talvez por estar sempre com pressa, talvez pelo fato de seu relógio funcionar numa velocidade que beirava a subsônica... Não. Não era o tempo. Apenas não se deixava conhecer, vivia uma vida superficial demais para que qualquer um soubesse mais do que o seu nome e sobrenome por meio de seus cartões e de seus papéis timbrados. Fazia questão de espalhá-los por todos os cantos, como se saber que ele era o doutor Francisco Machado Lemos Duarte, CEO (e nunca diretor ou presidente, achava que esses brasileirismos redundantes menosprezavam seu talento profissional) da Duarte & Kisilewicz Advogados Associados, fosse o suficiente. Se escondia atrás de um título comercial, que, por ironia, levava o seu próprio sobrenome, na esperança de que isso pudesse dar uma certa grife a si mesmo.

Um, dois, três. Sentou na terceira mesa, no canto direito. Sentiu o aroma familiar do acarpetado que revestia as paredes, uma mistura sutil de café torrado com uma combinação nonsense de aromas diversos de fumo. Era o seu lugar favorito. Aspirou esta mistura, e tentou imaginar que pessoas e que histórias haviam passado por aquele lugar, que sentimentos poderiam ter deixado tais marcas, quase imperceptíveis, em algo tão prosaico quanto um carpete. Habituado a se envolver com as vidas alheias, por um átimo ensaiou viver estas histórias. Antes mesmo que seu cérebro se desse conta, desistiu.

Faz sinal para o garçom bem-vestido. “Sebastião”, lê em um pin na altura de sua lapela. Observa sua fisionomia. O conhecia de rosto. Presume que seja nordestino. Internamente, arrisca o Ceará. Pede-lhe o cardápio. É prontamente atendido. Analisa. Talvez um mocha. “Não, muito complexo”. Complexidade era a última coisa que queria naquela hora, inclusive para as suas papilas gustativas. Talvez um chocolate quente. Também não, muito romântico para um fim de tarde solitário. Talvez um café preto, forte, enérgico. “Esse muito menos, senão não durmo”. Lembra que pode recorrer às suas pílulas, mas se convence de que não vale a pena. Um cappuccino. Perfeito. A combinação brilhante entre o romantismo do cacau, o choque realístico do café, a amabilidade do leite e a complacência da canela em pó. Pede creme à parte, para coroar a sua melancolia.

Fez o pedido. Aguarda. Tira do bolso interno de seu paletó um maço de Benson & Hedges mentolado. Pede um cinzeiro, e é prontamente atendido mais uma vez. Acende um cigarro. Sente-se aliviado com o frescor do toque de menta, e relaxado pelo efeito da nicotina. Recorre à refrescância para deixar seus pensamentos mais leves.

O que ele tinha feito de errado? Nada. Sempre no horário, sempre cumprindo os prazos, sempre presente nas reuniões, sempre brilhante nas audiências. Se pergunta o motivo de tamanha decepção. Acabara de perder o seu maior cliente, e com ele, a última possibilidade de recuperação de seu escritório. Depois de tanto suor, depois de tanto trabalho, depois de tanta luta por anos a fio, teria de se acostumar a ser empregado, a obedecer ordens mais uma vez, como em sua época de recém-formado. Afinal, não tem mais energia para se lançar em um concurso qualquer do Estado. Discorre mentalmente sobre o nome que lhe deu solidez por tanto tempo. Saca do paletó um cartão de visitas. “Duarte & Kisilewicz Advogados Associados”, lê. “Duarte & Kisilewicz Advogados Associados”, pensa. Imagina o futuro. Imagina quem será, sem a chancela da D&K.

Absorto em seus pensamentos, não nota que seu cappuccino esfriava a olhos vistos na mesa, à sua frente. Mais uma tragada, olha o adoçante; bah, de que adianta manter a forma numa hora dessas? Pega o açucareiro. Uma colher, duas, três, mexe, prova, está bom. Gostoso. Vislumbra os sabores. Separa-os mentalmente. Conjuga-os mais uma vez. Engole. Pode sentir a bebida morna descendo pela garganta, sente-se vivo com a temperatura. Puxa a última tragada, bebe o último gole. Olha o relógio. Não vira o tempo passar. Pede a conta. Sebastião a traz, mais uma vez prontamente. Não olha o valor, não tinha costume de se preocupar com esses pormenores. Abre a carteira, escolhe o cartão de crédito. O Platinum? O Corporate? O do programa de fidelidade? O da conta conjunta?

Escolhe o Corporate. A D&K lhe devia ao menos um café, por vinte e tantos anos de trabalho árduo. Ele o junta à sua conta, se lembra de observar o valor. Quatro reais e quarenta e cinco centavos, quase cinco com o adicional do serviço. Frugal. Pensa em quão importante são mais quarenta e cinco centavos para o decerto cearense Sebastião. Espera a fatura. Assina e devolve, e recebe do garçom seu recibo. Agradece. “Obrigado a você, seu Francisco!”. Levanta. Abre a porta. Olha para a rua. Não quer voltar para casa, não quer dar a notícia para a mulher, não quer ver seu olhar de compaixão, não quer negar aos filhos a vida que sempre lhes deu. Sai. Acostumado a sempre procurar ganhar tempo, segue quase que instintivamente o caminho da estação do metrô. “Pra quê?”, se pergunta. Caminha até o ponto de ônibus. Não quer chegar rápido em casa, quer postergar uma notícia que sabe, invariavelmente, terá de ser dada. Olha a linha. 157, ar-condicionado. Pede o ponto, sobe, paga blasé à jovem cobradora com uma nota de vinte. Recebe e confere o seu troco, e se senta na quinta fileira, à sua direita, para observar a paisagem. Sente-se triste. Abandonado. Com frio. Mas vai passar. Como tudo em sua vida.

Às seis e meia, Tião (como é conhecido Sebastião de Jesus) sai do serviço. Como em todos os dias, se despede com a cordialidade da qual se revestia para viver. Considera amigos a todos do café, da servente ao simpático chefe, um senhor aposentado à busca de uma ocupação sincera. Está contente por poder estar mandando algum dinheiro para a mãe, no interior da Paraíba. Pega o ônibus, antevê a face feliz dos cinco filhos e da mulher, que, imagina, o aguardam em casa. Não tem levado uma vida muito fácil, acumula dois empregos, mas com certeza vive melhor do que com a mãe, em sua terra natal. Espera, em pé. Não havia lugar onde sentar. Pensa em quão mais fácil deve ser a vida do senhor que servira por último no trabalho. Se encosta, tenta cochilar, a cabeça no apoio. Está cansado. Uma hora e quinze depois, chega em casa, num subúrbio afastado. A rua não tem iluminação. Abre a porta, os filhos correndo ao seu encontro. Beija-os um a um na testa. A mais nova lhe confessa que estava “com saudades, papai”. A mulher coloca o café recém-passado no coador sobre a mesa tubular. Sorri. É feliz.

 

 

 

 

 

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