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Deitar com
por Ana Chiara


Luiza Neto Jorge

(a lei da gravidade da palavra: o coágulo; a tresleitura histórica; difícil poema de amor/amor difícil; a transubstancialização do verbo em corpo: encarnação).

Deitar com Luiza Neto Jorge, como seria? Seria gasto? Dispêndio? Frio na espinha? Seria vertigem de cair? Como seria cair na cama com Luiza Neto Jorge? Cair de boca na poesia? Deitar com Luiza numa caminha, leitura pânica, pouca farinha? Aprenderia a vertigem de cair? O poema me ensinaria?

Como seria deitar e dormir com Luiza Neto Jorge? Seria provar nosso eco, nós duas, águas impuras irrompendo noutra língua? Ato de cair como nos poemas de Luiza tudo descamba, descai, desmorona? Verbo, língua, em que impera o declive... Deitar com Luiza como cai o som, como o pingo cai, como da sombra cai a sombra, o assombro? Seria provar da palavra o peso, a textura, a densidade? Deixar o vocábulo solto na força de sua própria gravidade e daí como seria? Deitar e dormir com Luiza, provar desta arma antiaérea artesanal, a palavra estranha, familiar, rodopio sobre si mesma, giro próprio, espetacular?

Seria deitar minha pouca boca nesta língua outra, língua rolada, legendada, seixos estrangeiros, rolling stones? Como seria deitar com Luiza, essa prima, essa portuguesinha? Atravessar um oceano lingüístico, atravessar a língua da mãe, a deslíngua do português, minha língua na língua de Luiza, como seria? Qual sotaque? Qual arritmia?

Deitar com Luiza como subir pelas paredes, osga invertebrada, cauda de serpente, língua que toca o palato, aversão, nojo, bicho repelente, poema que se contorce sobre a areia quente? Como seria provar destes nomes, destes verbos, desta contracorrente? Deitar com Luiza Neto Jorge, cosida à garganta dela, pronunciar, coagular a palavra, palavra intensa, em suspensão, arco histérico, descolada da página, profanação: coágulo de pássaros, coágulo de luz, coágulo de leite, coágulo de sangue, coágulos nos dedos, coágulo nos ossos, coágulo dos sentidos, coágulo da dor, baba quente, substância viva, matéria encarnada, cicatriz aguda, página que agora re-escrevo, página inscrita no meu próprio corpo, garfo niquelado, tridente? Como seria desafiar meu sotaque, meu jeito? Provar da minha parente?

Deitar com Luiza, passar uma Noite Invertebrada, descobrir os Dezanove Recantos. Poderia? E depois? A Terra (ficaria pra sempre) Imóvel, pasma, assustada, com nossos corpos embolados na Quarta Dimensão...? Como haveria de ser, como seria? Nós duas, nós desatados, “eros frenético” como de Luiza, o Jorge , outro poeta, diria? Um corpo [...] assim movido e assinalado às avessas, é um corpo em estado de alarme...

Deitar com Luiza que ritmo teria? A música brava dos dela poemas, imagens surrealistas, o verbo desengatado, casas, casas, casas, asas, asas, fumaça? Como seria? Um duelo agudíssimo entre duas fêmeas? Como seria? Feminino que inscreve, escreve, Jesus me carregue e o diabo releve, em bolhas de ar, respiração difícil, verso que pende, imprensa, subleva? Deitar com Luiza e sentir, a cabeça muito pesada e o pescoço finíssimo, flor da metáfora sobre haste delicada... ?

Reescrever no corpo dela a mini-biografia, revisitá-la em filmes, traduções, como seria?

Seria o respirar difícil da sua asma, sua alma, sua pouca saúde? Deitar com ela numa tenda de oxigênio, irrespirável moradia? Deitar com Luiza e ter um filho com ela? Teria nome de rei, dinastia dos Dinis, seria príncipe, navegador, bicha, poeta, bailarino? E depois, como seria?

Com Luiza Neto Jorge aprenderia o amor a qualquer preço? Repetiria tudo? The same old shit’, discurso abismado do suicida no lago? Toda tralha acumulada no rio caudaloso da poesia? Ferida narcísica doendo, remoendo: eu e ela, cara dupla no espelho? Pagaria o alto custo do amor desonesto (feito) de marés ambulantes, amor barato, baratinho fumado, amor fraco, fósforo riscado, fútil, frívolo, descartável, amor teatro, delivery, usou, jogou fora, bruma lírica, gloss, gel, glitter, adereço, brinco na orelha, pingente... ? (Não esqueço)... Deitaria, com Luiza? Repetiria a ralação amorosa, abandono, asfixia, sofrimento, luto e melancolia; trabalho analítico, overdose de porcaria? Com Luiza iria até o fim deste endereço: caixa postal violada, dor de corno, ameaças, chantagem histérica? (Estremeço...)

Ou seria com Luiza difícil poema de amor? Fendas no ar que respiro, magma, pó entornado, odor de pedra, maresia, ventos e pânico na baía? De que jeito deitaria com Luiza? Faria do amor punhal entre os olhos? Quem de nós gritaria primeiro: “Eu te amo... Não, não te amo mais... Desejo-te...Não te desejo mais”? Deitaria com Luiza na cama exígua do amor difícil, do difícil do amor, celebraríamos um secreto pacto, um pacto do amor eterno, pacto de vida e morte, pacto sagrado, luz cega, favo intumescido, tenebrosa fruta? Suicídio?

Ou deitar com Luiza, motor íntimo, seria aprender o ódio? Desejo febril de acabar logo com a coisa, diálogo tenso? Com ela experimentaria ser assassinada em pleno verão? Numa tarde fria? Assassinaria o amor? E depois como seria? Sairia tonta e cega, deceparia cabeças, cometeria carnificina?

Deitar com um So-Neto Jorge, em sítios perdidos no tempo, em tresleituras históricas, sem desculpas, nem culpa, sem pretender dizer o “que quer que fosse”, deitaria, à noite, na noite das palavras, no escuro poema apontado contra o peito, e todo o sentido comum se esvairia? Seria deitar e escorrer na língua em cal viva de Luiza? Deitaria com Luiza para perder o chão político, perder o solo da história, noutra história redivivo? Como seria isso? Com Luiza escorregar pelo monumento Camões, línguas bífidas, nós duas, lambendo-lhe o corpo em ciclópico acto, tempos superpostos, tempos feitos de qual tempo? Eu e Luiza a deitar no verso atemporal? Nós duas, além de nós duas, a pique, à toda, eu-toda, ela-toda, nosso dente enfiado na língua do rei dos poetas? Como seria revisitar trepidantes, trêmulas as ruínas, os restos, a erosão dos espaços conquistados, do império assombroso, do rosto de quem se encobre, do sonho para sempre adiado? Visitaríamos o canto nove, ou nos proibiriam? Sopro de búzio, areia fina, falharíamos, sem saber nos perdoar? Perderíamos as guerras na África, granadas, minas, pernas arrancadas? Eu seria sua menina? Arrebentaria em feias feridas minha boca, meu sexo, meu reto? Chegaríamos ao fadado fim? Instrumentos desses danos? Provaria dela a pimenta ardente, a seca flor, a noz, o negro cravo, a rica canela? Trocaríamos com outras aquáticas donzelas, beijos lascivos em brando movimento? Subiríamos aos montes Idálios, usando nossas coisas para sermos somente amadas, desconcerto do mundo, desejo que queima e não consume?

Deitaria com Luiza em trânsito, trânsidas, num mar de acrílico, mergulharíamos juntas no oscilante orgulho português feito de desejo, aventura, conquista e fracasso? Ricto agudíssimo, desafio, tropeço, trompaço, em costas africanas, chicote e sangue? Viríamos nós duas, heroínas incandescentes, indecentes, do outro lado do tempo, possuídas por outrens, matrizes ferradas, ventrílocas loucas, bocas abertas, ondas do mar que comeu a terra, comeu os filhos, comeu as naus, boca escancarada, frenesi convulsivo, pulsos abertos?

Como seria deitar e, dormir com Luiza? Crime escuro? Quebrar os membros no verso que se parte? Quebrar os dentes na palavra? Ficar acordada e atenta? Perder o sono pra sempre? Olho aberto grudado à porta, porta estreita, porta que aporta, cão noturno, sexo desperto, grão e lume? Sexo facho, sexo fácil, sexo sexo sexo, sexo inseguro, assobio, membros inertes, notas agudas, som estridente.

Para Luiza, flor exótica, abriria meu sexo, entregar-me-ia? Entregaria meu ouro, meu grão, minha alegria? Generosidade e escravatura, eu e ela, nós duas, mortas na cama, assim seria?

Deitar-me-ia, eu com Luiza, sobre tantos outros corpos, corpos que proliferam em outros corpos, demais corpos, corpos demais, saídos da sua boca aberta em pasmo, substâncias soltas, corpos densos, feitos de sonho e de morte? Como seria então? Como seria dormir com Luiza Neto Jorge, esfregar meu corpo no corpo dela aceso, corpo dolorido, carne ardida, corpo intenso, mais denso que o denso, corpo apodrecendo na doença, arco teso de espasmos, corpo de cheiros, salsugem, corpo insurrecto que se diz em estado de de-com-po-si-ção, sulco do universo? Corpo ímpio, Desinferno número II? Afinal, como seria deitar com Luiza Neto Jorge, sanguessugas sobre a pele, incêndio na minha cintura, na parte de baixo da barriga, no púbis, entre as pernas? Como seria deitar e dormir com Luiza, sobre ela? Seria roubo, contração, homenagem póstuma, repuxo na perna, consagração?

 

 

 

 

 

Esse texto foi publicado no plástico bolha nº22: download PDF

 

 






 

 


 

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