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A literatura da concórdia

 

 

EDGARD TELLES RIBEIRO é diplomata e escritor. Publicou alguns livros de contos e os romances “O Criado-Mudo”, “Branco Como o Arco-Íris” e o seu último, “Um Livro em Fuga”. Em uma passagem pela PUC-Rio, no mês de Maio, o plástico bolha aproveitou para entrevistá-lo. Nesta conversa, Edgard fala sobre o lançamento do novo romance e sobre o que há de verdade por trás de suas histórias.

Sua obra trabalha muito com a infância e também com experiências sensoriais relativas à memória. Há aí alguma tentativa de reviver o passado?

Não se trata de opção muito consciente, nem creio que boa parte de meus livros trafegue por essa via; mas não resta dúvida que o filão do passado, como seus ecos de lembranças e associações, acaba representando terreno fértil para a criação literária. Não chegaria a afirmar que se trata de “reviver” o passado; mas que tal sugerir que pode se tratar de “namorá-lo”?

Há, na sua obra, uma forte combinação de elementos narrativos e descritivos e, sempre, uma mistura de ações e sensações. Qual é o ponto de partida para as suas histórias?

Varia muito, de romance para romance, de conto para conto. Por vezes, é algo que testemunhei, pelo menos em parte, e que depois adaptei ou redimensionei; em outros caso, leio algo (jornal, livro, ou revista) que me leva a imaginar um cenário paralelo (ao que vi) e daí parto em vereda própria. Por fim, por vezes ganho uma história de presente (o núcleo narrativo de meu primeiro romance, “O Criado-Mudo”). A questão de “ganhar uma história de presente” ocorreu comigo e deu origem ao Criado-Mudo, meu primeiro romance, cujo núcleo básico (que fica esclarecido logo nas primeiras páginas do livro), me foi contado por uma senhora que gostava muito de mim e que sabia que eu, um dia, faria bom uso da história... (Levei 20 anos com a história na cabeça até começar a escrever um texto que pensava em dar para um cineasta filmar — texto esse que acabou crescendo, crescendo, crescendo — e se transformando no romance.).

Você está relançando agora seu livro de estréia, “O Criado-Mudo”. Algo mudou no Edgard daquela época para o Edgard de hoje?

Passaram-se 18 anos e trinta quilos... Graças aos 18 anos, espero ter amadurecido; quanto aos quilos, rechearam bons momentos literários (recorro muito a cenas de almoços e jantares em meus livros...).

Você declarou, em entrevista recente, que vivemos em um mundo onde não há mais clareza na distinção entre o bem e o mal. Diante disso, qual seria o papel do escritor hoje?

Trabalhar essas fronteiras imprecisas, fazendo correlações que ajudem os leitores a enriquecer suas próprias visões do mundo. E viajar com eles pelo tempo, relembrando momentos do passado que possam iluminar o futuro.

Você considera a diplomacia como porta de entrada para sua literatura ou a literatura como uma necessidade para sua atuação como diplomata? Em outras palavras, você acha que é um escritor-diplomata ou um diplomata-escritor?

Essas minhas duas carreiras evoluem de forma muito harmoniosa e se enriquecem mutuamente. Tenho muita sorte, graças à carreira diplomática, de ter acesso a outras culturas, outros mundos. Dessas encruzilhadas, nascem idéias e, por vezes, histórias. Por outro lado, depois que comecei a escrever (e a publicar...), passei a relativizar muitas das pressões que sofria em meu dia-a-dia como diplomata, um pouco como se o ato de escrever me proporcionasse um recuo de observador.

Você poderia comentar o seu novo romance, “Um Livro em Fuga”, em termos ficcionais e autobiográficos?

Trata-se de uma obra sobre perdas, que se entrelaçam como em uma fuga bachiana, com seus temas e contrapontos: a perda da mulher amada (por força de um casamento que se desfez), a perda das ilusões (face a um mundo globalizado e crescentemente imbecilizado), a perda de valores de todo tipo (entre eles intelectuais, particularmente no domínio da literatura). Mas essa espécie de costura de perdas acaba também se abrindo para a esperança — mesmo porque o que seria do artista sem ela...?

O que você tem lido hoje em dia? Poderia deixar uma mensagem final para nossos leitores e os aspirantes a escritor?

Ando relendo, muito mais do que lendo. Pode ser uma fase. Mas andei revisitando Flaubert, Camus e Borges, para ficar neste último ano. Tenho achado enorme graça em comparar minhas reações atuais (às obras primas desses escritores) às impressões de juventude dessas mesma obras. Conselho para quem quer escrever? Delicado, isso... Mas vá lá: não se preocupe em escrever uma OBRA. Faça uma frase. E depois outra. Encerrado o primeiro parágrafo, faça o segundo. Se houver tranquilidade nesse exercício, e se não surgirem autocobranças muito excessivas, é bem possível que o (eventual) prazer em escrever “passe” para o leitor.

 

Esse texto foi publicado no plástico bolha nº22: download PDF

 

 

 

 






 

 


 

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