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A vela perfumada
Edite Dias dos Santos

 

Olhava para mim. Parecia entender o que se passava comigo e pedia-me para que a tirasse do lugar e a transportasse para qualquer outro, com cara de desespero, amarela, porque há muito tempo já sentira a indiferença, o descaso da vida e que sozinha não sobreviveria. Queria morrer! Era o início do desfecho de uma vida. Em poucas horas, em que o mundo nada sabia de sua existência e em que apenas o perfume alastrava-se nele como uma dissipação de algo profundo, se dava o fim. Deveria flamejar, então, a pequenina chama e que, esvaindo, cresceria e choraria lágrimas densas e porosas, chegaria à sua finitude; um destino antevisto e incontrolável. Queria mesmo era morrer! Sentia-se útil ao morrer sobre um belo tapete vermelho bordado, com flores vermelhas e laços ainda mais vermelhos e folhas verdes, com um fino fio dourado ao lado do rústico ainda verde vaso árabe, que a assistia, envolvendo um majestoso antúrio branco onde as cores dissimulavam um belo quadro, sem nada entender. Lágrimas pesadas espessas e esbranquiçadas grudam no tapete, deixando a marca última e definitiva de sua existência flébil. Frágil, com a potente chama incandescente e forte, impregna nas paredes do castelo o seu calor final e finito; atribui à sua fantasia de brilho e de luz, espetáculo de um pôr do sol, através das portas e janelas do pequeno palácio, claustrofóbica, em metros quadrados e, entre cultura e sabedoria, apinhadas em, ainda, centímetros milimétricos quadrados junto aos guardas, Quixote, cavalheiros, trabalhadores, mendigos e pajés que a admiram e prostram-se, certamente ofuscados, diante de tanta beleza instantânea da luz, aos girassóis da Rússia.

Duas horas se passaram. O processo da agonia é antiantagônico. Três centímetros e meio de matéria e cento e vinte minutos de pura incandescência iniciam o processo de morte; e o príncipe, cego, insiste em viver na escuridão duplamente. Sente, por segundos, um diferente e delicioso aroma no ar, sem se dar conta de que a chama definha e agoniza a vela, num processo lento da perda do brilho da sua luz que, lentamente, o seu último pôr do sol ainda mais vermelho, esbranquiçadas e frias e sem perfume jaz no rez-de-chaussée, como nuvens, pairando, sobre o oceano num fim de dia.

O castelo está às escuras. O príncipe tateia emaranhado pela vida e o momento se fez imperceptível! A ruptura da inércia fez-se obediência, testemunho e introspecção.

 

 

 

 

 

Esse texto foi publicado no plástico bolha nº22: download PDF

 

 






 

 


 

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