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Luiz Coelho


Empreendendo palavras

 


Maria do Carmo Leite de Oliveira é Doutora em Lingüística, na área de discurso empresarial, e professora Associada do Departamento de Letras da PUC-Rio, com atuação no Programa de Pós-Graduação de Letras e dos MBA IAG —  a Escola de Negócios da PUC-Rio. Presta consultoria nas áreas de comunicação interna e externa e na de atendimento ao cliente para empresas (CEG, João Fortes Engenharia, Banco Nacional), sendo, desde 1976, instrutora em programas  de desenvolvimento gerencial para empresas como a Rede Globo. Além disso, tem oferecido valiosa contribuição aos alunos de licenciatura de Letras, com uma proposta de formação que privilegia um perfil de vanguarda para os novos educadores, mais conforme com o mundo contemporâneo, inclusive acreditando em abordagens singulares para aulas de Literatura para o Ensino Médio.

Fale-nos um pouco do seu trabalho de aproximação entre os estudos de linguagem e educação com o universo profissional moderno e suas novas exigências. Como se estabelece a relação entre os estudos sobre empreendedorismo e os estudos de linguagem?

Isso é uma história antiga. Começou na década de 70, quando fui convidada pelo IAG para dar um módulo sobre Redação Empresarial, num curso para executivos de várias empresas. Foi ali que descobri o mundo organizacional e a necessidade de construir pontes entre as áreas da Linguagem e da Administração. Começou, assim, a minha opção por uma lingüística aplicada às profissões, caracterizada pela produção de conhecimento relevante para os profissionais e construída também a partir do ponto de vista desses profissionais, e não só o do analista/lingüista. A minha entrada no Empreendorismo, já no final da década de 90, deveu-se a esse meu interesse e a essa experiência. A implantação do curso de Empreendedorismo foi uma proposta de oferecer ao aluno uma formação que lhe habilitasse desenvolver um traço do novo perfil profissional desejado no mercado. A inclusão do curso de Técnicas de Comunicação para Empreendedores buscava desenvolver habilidades comunicativas que capacitassem o aluno a enfrentar com sucesso a complexidade das situações impostas a profissionais que se gerenciam. Se, na psicanálise a palavra é o que cura, na cultura empreendedora a palavra é o que faz de uma idéia inovadora um projeto, de um homem um líder, de um grupo, uma equipe; de um sonho uma realidade. O meu trabalho em Letras, nas oficinas oferecidas a futuros professores, tem essa inspiração prática também. Procuro chamar a atenção para uma prática pedagógica que não seja orientada apenas por ementas ou pelo vestibular. Precisamos criar espaço para que o aluno se delicie com a linguagem e seus jogos e, por outro lado, desenvolva habilidades para atuar eficazmente nos diferentes cenários comunicativos da vida moderna. Nos cursos oferecidos às empresas, a preocupação é levar o participante a compreender a complexidade do processo de comunicação e a usar e reconhecer os usos estratégicos da linguagem verbal e não verbal, tornando-o mais sensível ao modo como os contextos micro e macro da interação refletem e constituem o texto oral ou escrito.

De que espaço e relevância a Literatura e outros campos artísticos dispõem nesses projetos? O que você pensa da inserção do profissional de Literatura no mercado de trabalho?

O mercado ainda oferece restrições de acesso ao profissional das Letras, de um modo geral. Somos ainda reféns de um quadro histórico em que a marca ‘Letras’ significava primeiramente formação de professor, profissional de texto e pesquisador em estudos lingüísticos ou literários. No caso do profissional de Literatura, além da escola, se abriam o mercado da diplomacia ou da imprensa. Falta hoje, portanto, uma releitura da marca, com a atualização de seus significados. Mas sou mais otimista hoje quanto a uma abertura de mercado. A complexidade do mundo atual tem exigido mais a integração dos saberes. As empresas, por exemplo, já abrem espaço para antropólogos, filósofos, ainda que na condição de visitantes. No meu trabalho em empresas, eles descobrem que um lingüista é um especialista em linguagem e, portanto, alguém capaz de pensar as questões de comunicação no trabalho. Acho que o profissional de Literatura também tem que mostrar sua cara, rever seus conceitos e descobrir aplicações ainda não contempladas para a área.

Como você avalia e projeta a tarefa do profissional das letras, sobretudo a do educador?

Como já disse, a minha prática nas empresas me abriu um campo de pesquisa e um horizonte de atuação profissional fora da escola. Mas, mais do que isso, ela foi uma fonte de aprendizagem, de reflexão sobre o meu próprio ofício. Um exemplo foi o estudo do documento “Declaração de Missão”, um texto portador da ideologia e da cultura institucional. A discussão em sala sobre esse tema me levou a pensar que os funcionários conhecem a missão da empresa, mas nem sempre a sua missão. Do mesmo modo, descobri que eu não tinha escrito a minha missão pessoal como professora. Eu só conhecia aquela do juramento de formatura. Mas não a minha. De repente, olhando para trás, vi com clareza que uma missão havia orientado as minhas escolhas de atuação profissional, a minha prática pedagógica, a minha visão de aluno e de professor: a missão de contribuir para construir um mundo melhor e mais justo. Na oficina Interação e Ensino, começo exatamente desafiando o aluno a pensar como o modo de interagir numa aula pode refletir um determinado tipo de missão para aquele professor. Escrever — e reescrever — a missão pode contribuir para que tenhamos mais clareza sobre nossa tarefa como profissional das Letras e como educador.

Quais são seus novos projetos relativos à educação e que expectativa você deposita neles? Como você vê as contribuições da educação a distância para o ensino de língua?

A minha experiência no projeto de formação de professor é muito recente, mas o meu interesse em interação é antigo. Hoje vejo como um novo projeto pode explorar a questão da interação virtual, em fóruns eletrônicos de cursos de ensino a distância. Venho desenvolvendo pesquisa, em parceria mais uma vez com o IAG e com o apoio de alunos PET de Letras, sobre os novos papéis do professor num curso a distância. Há muita literatura sobre isso, mas não numa perspectiva interacional. É preciso formar professores que compreendam como a tecnologia afeta a interação professor/aluno. Tem sido reconhecido que as novas formas de comunicação tecnológica vêm tornando obsoletos nossos modos tradicionais de pensar “autores”, “leitores”, “informação” e “texto”. Do mesmo modo, entendo que o fórum eletrônico, por exemplo, obriga-nos a repensar a questão dos gêneros oral versus escrito. Enfim, EAD é um campo para pesquisa e para a prática. Nossos alunos têm muito a nos ensinar sobre tipografia, a ortografia, seleção vocabular, gramática num ambiente virtual.

Que mensagem deixaria aos nossos leitores?

Eu gostaria de deixar a mensagem de Edgar Morin, ao falar sobre a prática do professor:
(ela) Exige algo que não é mencionado em nenhum manual, mas que Platão já havia acusado como condição indispensável a todo ensino: o eros, que é, a um só tempo, desejo, prazer e amor; desejo e prazer de transmitir amor pelo conhecimento e amor pelos alunos. O eros permite dominar a fruição ligada ao poder, em benefício da fruição ligada à doação. É isso que, antes de tudo mais, pode despertar o desejo, o prazer e o amor no aluno e no estudante.

Esse texto foi publicado no plástico bolha nº23: download PDF

 

 






 

 


 

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