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Curriculum Vitae
Rafael Viana


No início você liga.

Com alguma camisa social ressuscitada de um tolo natal do ano passado, se esforça para calçar seu melhor sapato. Engraxando-o com o zelo e a nobreza de um profissional, pede até aquele cinto marrom verniz emprestado de seu pai que ele guarda para as datas comemorativas mais relevantes.

A calça de vinco passada com exaustão dá aos citados componentes uma aparência de sobriedade, de seriedade que você duvida realmente que o espelho possa estar dizendo a verdade. Você faz a barba, de forma que algum pêlo rebelde não possa revelar sua disposição crescente em participar de uma insurreição armada no interior do Rio de Janeiro.

O cabelo penteado de fora para dentro com um pente perolado de 28 dentes dá o toque final à produção expressivo-corporal do seu nobre ofício. A camisa enrolada por dentro da calça é puxada alguns centímetros para fora, numa medida algébrica impecável, sendo afixada definitivamente pelos senos e co-senos de seu cinto marrom-verniz. Todo o conjunto fornece a tônica de um dia extremamente cínico. Algo entre o amargo do café e o doce do açúcar.

No segundo dia você relaxa. Troca a melhor camisa do mundo por uma camisa day-by-day. Uma substituta de segunda, talvez até de terceira categoria, mas que ainda lhe concede o tom respeitável necessário. Suas unhas continuam cortadas como de costume. Seu sapato continua brilhante e seu cabelo mantém a aparência blasé necessária.

Tristemente chega-se ao fatídico terceiro dia. Você já não está usando seu sapato brilhante. Ele te apertava. Seu cabelo não é mais o mesmo, mas você ainda pode passar por uma blitz policial sem ser espancado por um cassetete de 90 centímetros.

Quatro dias. Já os quatrocentos minutos de falsidade estética apresentada pelo seu personagem começam a se desfazer com alguns itens do seu antigo vestuário. Você usa uma blusa de malha simples, um verdadeiro pecado gerencial; talvez você tenha roubado o departamento financeiro, uma ou duas vezes. Aboliu a camisa social, mas continua exalando limpeza pelos cantos dos corredores administrativos. O sapato fora trocado por um tênis, o cinto continua emperolado como antes e exala um pouco de catolicismo fervoroso que tanto agrada ao senhor Vilaça, do terceiro andar.

Depois da primeira, da segunda e finalmente da terceira semana, você é você novamente. O tênis preto está sujo por falta de tempo e de vontade, sustenta sua calça jeans horrorosa, uma ode preconceituoso aos anos 90, desbotada pelo clima e pelo seu perceptível gosto musical duvidoso. As camisas sóbrias dão lugar a uma de malha laranja, o que demonstra claramente sua predisposição a cometer crimes familiares.

Suas unhas grandes, sua barba por fazer já não conseguem te ajudar a resolver o problema do banco de dados da senhorita Hilda, do terceiro andar. Seu cabelo desgrenhado, abusado, é praticamente uma afronta à gerência de produtos e a processos industriais. Não que você se importe, é claro.

Enfim, fizeste teu currículo falar por si só. Tu és um mártir.

 

Esse texto foi publicado no plástico bolha nº23: download PDF

 

 






 

 


 

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