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Andréa Carvalho Stark


Vivendo de Literatura


FERNANDO BONASSI é escritor por vocação, paixão e profissão. Escreve roteiros, peças, crônicas, contos e romances. Escrever é a única coisa que faz na vida para alimentar o corpo, a alma e a filhinha de quatro anos. Esse paulista do bairro da Mooca é filho de operários, estudou em escola pública, não tem fortuna a herdar e se transformou em um dos nomes mais interessantes da atual literatura brasileira. Nesse encontro, conversamos sobre literatura, teatro, cinema, amor e outros mundos desordenados.

Você vive só do que escreve?
Sim. Talvez eu faça parte da primeira geração no Brasil que consegue isso. E acho que a literatura brasileira é pouco ousada e covarde porque os escritores têm relações promíscuas com o Estado, a maior parte deles. Acho que a falta de ousadia passa também por isso. Mas também eu reconheço que faço parte de uma geração de escritores brasileiros que, pela primeira, vez têm à sua disposição uma indústria cultural. E, quando eu digo isso, não digo que vivo de livro, mas sim do meu texto de ficção.

É possível então viver de literatura?
Sim! Existe trabalho. Escrever é algo muito sofisticado. Você tem uma ligação com o teatro mais visceral do que com o cinema. Claro, cinema é pra ganhar dinheiro.

Por que, então, você foi fazer faculdade de cinema?
O que você buscava nesse tipo de formação? Eu havia assistido a “Hiroshima mon amour”, de Alain Resnais, roteiro da Marguerite Duras. Aquilo seria impossível de fazer em livro; outra linguagem mesmo. Fui fazer Cinema querendo provocar esse tipo de incômodo nas pessoas. Mas, durante a graduação, vi que era uma roubada, porque não há financiamento pra uma coisa tão cara. E eu queria fazer algo no qual eu fosse absolutamente senhor de mim, como sou escrevendo livro. A literatura é exercício de homens e mulheres livres. Não tem patrão — você faz o que quer e com o que ou quem se quer... E, especialmente no Brasil, cinema é muito concentrado; são poucas pessoas que fazem, pessoas de tendência conservadora. É um cinema babaca, sem nenhuma ousadia. Se você pegar o cinema argentino ou mexicano, que são países próximos, eles estão fazendo coisas melhores. O cinema brasileiro é careta. Eu fiz doze filmes, tenho um currículo bacana, mas eu não respondo por nenhum deles — exceto “Os Matadores”, que foi meu primeiro roteiro.

Você chegou a estudar teatro?
Nunca formalmente. Quando comecei a me interessar por ler, teve um momento em que quis me formar. Comecei a assistir às provas do final de curso de Artes Cênicas da USP. No final do curso, eles montam um texto de forma careta. Ia ver isso pra conhecer os textos porque tinha preguiça de ler teatro. Achei muito inte ressante porque acontecia uma coisa ali que não tinha a ver com literatura, a coisa física do ator e a troca com o espectador. Porque é muito solitário escrever literatura. Fui a um sebo e comprei uns dez livros de uma coleção chamada Teatro Vivo. E vi como se organizava o texto na página, como a idéia se distribuía. Foi assim que comecei a escrever teatro.

Quando você dirige um texto seu, há um certo estranhamento?
Não acredito na função do diretor. Acho que diretor não é necessário, não é importante. A necessidade de um diretor provocou a existência de atores cada vez mais medíocres que se sujeitam a fazer as piores coisas porque não têm confiança em si.

Então você pega seu texto e trabalha como?
Eu sento com algumas pessoas inteligentes e digo: “Como vamos fazer isso, meu caro? Eu escrevi pensando assim”.

Então no teatro você negocia bem com todas as colaborações.
Eu escrevo sob encomenda. Estou acostumado a escrever um conto para a Folha, com prazos, tamanhos, verbas. Esse tipo de relação é de negociação. Sou eu contratado para escrever roteiros de cinema que eu não quero escrever, sou pago para desenvolver idéias de outros. A única coisa que não sei fazer é o que o ator faz. Não quero, tenho vergonha, não entendo como alguém fica lá repetindo uma mesma coisa a noite inteira. (risos)

Que ele não escreveu?!
É, que ele não escreveu, por mais bonito que seja. Isso quando não é ruim, mas tem que fazer porque é trabalho. Isso não me interessa fazer. Então tudo que o ator me aporta é sempre uma surpresa. Isso que você chama de negociar é porque eu não faço o que ele faz. No teatro, com aluguel e contas pagas, podemos brincar de imaginar do mesmo jeito como você brinca com sua filha, e eu, com a minha. É a mesma coisa; só há uma chave um pouco diferente.

Há algum escritor especial em sua formação?
Eu acho que sou formado moralmente por Henry Miller. Ele dizia que para escrever você tem que se conhecer primeiro. Se você é um covarde, escreva sobre sua covardia. Não precisa ser corajoso como Hemingway, fazer uma aventura na vida para escrever e no fim dar um tiro na cabeça. Viva sua vida, se conheça, viva a plenitude de sua vida criativa e sexual, foda muito — isso ele falava de forma muito clara. Se tiver medo de foder, escreva sobre isso, porque também é importante. Camus, por exemplo, tudo que sei de política aprendi com ele.

Você tem um livro chamado “O amor é uma dor feliz”. Por que essa dor é feliz?
Porque dói, ficar grande dói, pergunte pro seu filho. Vai chegar um dia em que ele não vai querer mais te ajudar, vai querer te matar e isso será uma dor para ele e para você, porque não é fácil. O amor é a única coisa que está na mão da gente. É a única coisa na nossa vida moderna que as pessoas têm obrigação de fazer do jeito delas. Amor não estando à sujeição do trabalho, do tempo, do espaço. As pessoas não amam, não têm relações amorosas porque não querem ou são covardes. Acho importante o amor bom... Minha casa era horrível. Minha mãe fazia um almoço de domingo e dizia: “É gnocchi”. Meu pai dizia: “É gnocchi”. Meu irmão: “É gnocchi”. Eu: “É gnocchi”. E comíamos o gnocchi em silêncio, um tédio horrível. Eles se separaram e cada um é feliz hoje. Minha família precisou ser extinta para funcionar. Como extintos, somos muito felizes — não nos vemos, não nos falamos...

Você lançou um livro chamado “As melhores vibrações” — uma coletânea de suas crônicas sobre sexo, publicadas na coluna “Macho” da Folha de São Paulo. Em uma dessas crônicas, você diz: “Não matarás antigos sentimentos de amor. Afinal o mundo dá voltas e ex-amantes sempre podem acabar batendo na sua porta outra vez”. Isso é um machismo declarado ou é realidade mesmo?
Eu escrevi isso?!

Sim, é um dos itens do decálogo do macho.
Eu nunca escrevi para homem... Leia de novo.“Não matarás antigos sentimentos de amor...”

Você não pensa isso pra você de certa forma?
Sim... (hesitante) Mas você aqui não estava escrevendo para um homem? Não, é o contrário. Quando me chamaram para escrever, eu disse que gostava muito de mulher para falar mal de mulher.

Mas era pra falar mal?
Não, mas qual é o comportamento do chauvinista? A coluna era muito chauvinista. Quando me chamaram, eu disse que ia fazer uma coluna do ponto de vista de um cara heterossexual que gosta de transar. Para mim, homens e mulheres são iguais, devem responder por tudo igualmente. Gosto de foder. Não ia destruir o objeto do meu amor. Isso certamente é um decálogo do macho, mas do macho moderno.

Ok, você se saiu bem!
Pra que leio tanto livro na vida?! Para alguma coisa tem que servir.... (risos)

*Andréa Carvalho Stark é formada em Letras e tem mestrado em Teatro. É colunista da revista americana Scene4 — International Magazine of arts & media e viajante em seu blog A Grinalda


Esse texto foi publicado no plástico bolha nº24: download PDF

 

 






 

 


 

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