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Um Lugar de Esquecimento: Morro da Favela

“A poesia existe nos fatos. Os casebres de açafrão e de ocre nos verdes da Favela, sob o azul cabralino, são fatos estéticos”.
Oswald de Andrade, Manifesto da Poesia Pau-Brasil, 1924.

Numa dessas aulas da faculdade de História que relatavam o período da República Velha no Rio de Janeiro, me deparei com o conceito “Lugares de Memória”, originalmente pensado pelo historiador francês Pierre Nora. A proposta de reflexão na aula era encontrar, nos dias atuais, monumentos, lugares e lembranças que remetessem ao período republicano, a partir de 1889. Na classe surgiram muitas sugestões, como o desmonte do morro do Castelo, a Avenida Central (hoje Rio Branco), a Rua do Ouvidor, a marchinha “Ó Abre-Alas”, de Chiquinha Gonzaga, a Lapa, as obras de Lima Barreto e Olavo Bilac, a Tia Ciata, o samba, o futebol, entre muitas outras opções. Todas essas memórias citadas, se não são queridas pela população carioca, são lugares de memórias oficiais do período da primeira República brasileira. Com todas essas boas lembranças, me ocorreu refletir um lugar, que teve origem nessa época e é muito recorrente em meu cotidiano. São as favelas da cidade do Rio de Janeiro.

Posso afirmar que uma lembrança sepulcral do período republicano, no despertar do século XX, foi o início do processo de favelização da cidade do Rio de Janeiro? A resposta seria positiva se procurássemos, em toda a cidade, as marcas que nos deixaram os republicanos daquela época. Os que saltarão aos nossos olhos serão as pequenas e amontoadas casas de tijolo e teto de zinco no alto dos morros da Cidade do Rio de Janeiro. As avenidas Rio Branco e Beira-mar são construções desse período e estão inseridas no projeto de lembranças da República Velha, porém essas imagens não são tão freqüentes como as das favelas cariocas, que seguem a dinâmica geográfica de uma cidade montanhosa como o Rio de Janeiro. Até mesmo um passeio pelas principais rotas, em que a Cidade é vendida para visitantes estrangeiros, é observada a “incomoda” presença das pobres comunidades. A onipresença das favelas cariocas é a marca mais concreta do Brasil-República.

A imponência de favelas como a Rocinha, o Cantagalo e o Vidigal transpõe os cartões-postais da Zona Sul carioca e, há pouco mais de um século, são entraves aos projetos urbanísticos excludente da cidade. “Pode-se dizer que as favelas tornaram-se uma marca da capital federal [no período da República Velha], em decorrência (não intencional) das tentativas dos republicanos radicais e dos teóricos do embranquecimento — incluindo-se aí os membros de várias oligarquias regionais para torná-la uma cidade européia”, como afirmam Al-ba Zaular e Marcos Alvito na introdução do livro Um século de Favela. O prefeito Candido Barata Ribeiro, em 26 de janeiro de 1893, botou abaixo o cortiço Cabeça de Porco, que era considerado o maior da cidade. Francisco Pereira Passos, em março de 1904, com a demolição de 641 casas, desalojou quase 3.900 pessoas. Esses projetos de reforma urbana, especialmente segregacionista, deram início a um processo de ocupação e povoamento dos morros da cidade. A primeira favela do Brasil surgiu em 1897, no centro da cidade do Rio de Janeiro, para abrigar homens, mulheres e crianças que não faziam parte do projeto progressista dos homens da República.

As reformas urbanas na capital federal marcaram a gestão do prefeito Pereira Passos entre os anos de 1902 e 1906. A construção da Avenida Central foi um dos eventos que marcaram o período republicano. Nesses anos, em que a cidade se transformou num canteiro de obras, foram erguidas dezenas de monumentos que permaneceriam na memória dos habitantes da cidade como uma construção dos homens do Brasil republicano. Contudo, junto da edificação do boulevard que ligava a região portuária à zona sul carioca, surgiam os casebres de açafrão e ocre. O Rio de Janeiro estava sendo construído como uma nova cidade, moderna, europeizada, capaz de ser o cartão-postal da recém-criada República. Contrariando esse ideal, as favelas passaram a ser vistas como outras cidades, corpos estranhos dentro da urbe formal.

Esses corpos estranhos não poderiam estar inseridos no projeto republicano que estava sendo construído na cidade do Rio de Janeiro. O Morro da Favela, considerado a primeira favela do Brasil, a partir do ano de 1897 abrigou remanescentes dos cortiços do centro do Rio, ex-escravos do Vale do Paraíba e os soldados desamparados da Guerra de Canudos e todos aqueles que jamais seriam retratados na poesia de Olavo Bilac. A favela erigia-se como monumento na região da Central do Brasil em frente à praça da Aclamação (hoje Praça da República), lugar onde os célebres militares marcharam para proclamar a República brasileira em novembro de 1889. Hoje, conhecemos o antigo Morro da Favela como Favela da Providência, que ainda pode ser vista atrás da Central do Brasil, entre os bairros do Santo Cristo e da Gamboa.

Morro da Favela é a representação do que deveria ser esquecido pelos republicanos da época. Nas lembranças da República Velha estão catalogadas, não oficialmente, as favelas do Rio de Janeiro e do Brasil porque foi a partir desse momento que se iniciaram as desastrosas políticas urbanísticas para as cidades. Se hoje nós olharmos, no centro da cidade, o Morro da Providência, lembraremos o prefeito Pereira Passos, o presidente Rodrigues Alves, a República Velha, pois ali se construiu o avesso de um lugar de memória, um lugar de esquecimento.




Esse texto foi publicado no plástico bolha nº24: download PDF

 

 






 

 


 

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