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Faxina Geral

Lucas Viriato


Quando Manuel chegou em casa naquela tarde viu que a empregada havia feito uma grande faxina em seu quarto. Lúcia, a empregada, trabalhava na casa de Manuel havia alguns anos, e era excelente empregada. Passava sempre pelo seu quarto na sua ausência, alinhando e empilhando a bagunça, tirando a poeira, passando um pano no chão.

Contudo, em determinados dias Manuel percebia que o seu quarto havia recebido uma atenção mais do que especial, e este era um dia como aqueles. Nessas ocasiões, as mudanças iam além do simples alinhamento de papéis e arrumar de cama, as coisas realmente mudavam de lugar, coisas novas sumiam enquanto coisas há muito dadas como desaparecidas reapareciam — e a limpeza, é claro, era completa.

Mas naquele dia Lúcia tinha exagerado. As paredes estavam incrivelmente mais brancas do que de costume. Sim, as paredes do quarto de Manuel sempre foram brancas, mas naquele dia elas estavam muitíssimo mais brancas do que o normal, com um brilho todo especial. Caminhando pelo local, Manuel pôde perceber que a rearrumação dos móveis lhe proporcionara uma compreensão inteiramente nova da arquitetura do local. Ganhou-se espaço!

Indo até a estante, ele pôde perceber que certamente Lúcia deveria ter se confundido um pouco no tirar e colocar dos livros na estante, pois os livros de cinema estavam no local errado e ele não conseguia encontrar seus livros favoritos. E para que Lúcia havia subido com a caixa de areia do gato para o quarto?


Tudo estava tão estranho, Manuel não conseguia encontrar suas coisas... A faxina mudou o odor do local, ele não se sentia mais em casa ali. Para que aquele exagero de faxina, para que tanta arrumação? Ah, e de que canto longínquo da casa ela teria tirado aquele violão? (Manuel não tocava violão).


Aquilo tudo precisava de uma explicação. Foi até a cozinha e viu Lúcia na pia, lavando a louça. Assim que ele ia perguntar de onde tirara o violão, teve as palavras interrompidas na garganta com o choque que tomou com o novo visual da empregada. Lúcia havia feito luzes, estava loira! Não só loira, como mais gorda, alguns centímetros mais baixa e — meu Deus, que creme de pele novo será esse? — branca! Em um espaço de tempo curtíssimo, Lúcia embranquecera; simplesmente da noite para o dia!


Ele não conseguiu falar nada. Ela também não, parecia assustada. Olhando ao redor, Manuel percebeu que tudo estava mudado, aquela cozinha havia sido reformada! Mas aquilo tudo somente começou a deixar Manuel realmente angustiado quando seu gato rajado passou preto. Saiu correndo pela porta e pôde ver que a maçaneta fora mudada, e até mesmo as flores do jardim eram outras.



Esse texto foi publicado no plástico bolha nº24: download PDF

 

 






 

 


 

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