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Mudo
Ciro Trevisan

Foi ontem; eu descobri que não tenho mais voz. Eu empurrava minha própria cabeça no travesseiro. Eu me erguia de costas. Fechava os olhos. Sentia o calor da grama no meu corpo. Inspirava profundo e sentia o cheiro da terra molhada pela chuva. Hoje mesmo eu me vi, estou tão cansado. Hoje mesmo eu me vi, eu não tenho mais rosto, eu não tenho corpo. Eu descobri que eu choro por um olho só. O corpo na minha frente, as palavras escorregavam. Eu tinha logo um tumulto. Meu corpo, minha mente, toda bagunçada. Que perda de tempo. Eu não sirvo pra nada. Você tá me ouvindo? Claro que não, ontem eu descobri que eu sou mudo. Tá vendo esta marca no meu rosto? Este corte no meu peito? Pois é, eu sou mudo. E eu acho que é até prazeroso permanecer calado. Esse lugar parece uma montanha, seu corpo parece uma montanha. A televisão continua falando. E continua chovendo. Acho que nunca vai parar de chover. E a culpa é minha. Talvez minha dor de cabeça seja só um aviso. Esta lágrima, este pranto todo diz alguma coisa. Não diz? Hoje mesmo, eu me olhei no espelho. Talvez eu seja mais bonito que eu imagino. Tá chovendo, está tudo sumindo, está sumindo sem fazer nenhum barulho. E eu estou entendendo. Eu acho o amor uma mentira. Eu acho felicidade uma mentira. Eu acho que já está amanhecendo. Tem cheiro de morte saindo da terra. E talvez este bicho, este verme que está me comendo vivo seja prazer.




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Esse texto foi publicado no plástico bolha nº25: download PDF

 

 






 

 


 

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