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Luiz Coelho


A Sabedoria de Silviano Santiago


SILVIANO SANTIAGO é um cosmopolita irremediável, seja qual for o lugar em que circule e os assuntos que ataque. Tende, a exemplo de um de seus escritores prediletos — Machado de Assis —, a considerar sempre os muitos lados da mesma questão em seus trabalhos, sem cair na tentação da superficialidade, como no caso daqueles que desejam tratar de muitas perspectivas. Silviano é crítico, ficcionista, poeta, ensaísta, professor e, antes de qualquer coisa, um leitor que não se restringe às páginas, mas se deixa provocar por culturas, paisagens e sua própria trajetória.

Você já afirmou, em um dado momento, ter sido iniciado na literatura por livros “difíceis”. O que é um livro “difícil”?

São aqueles que criam o leitor. Você vira outro depois da leitura. Deixa a mesmice de lado. Sua visão de mundo se alarga, abrange outros territórios, outros seres, outras experiências, que lhe “faltavam” no dia-a-dia. A curiosidade sentimental e intelectual se alimenta e enriquece dessas “faltas”, se alimenta e se enriquece, tornando mente e sensibilidade mais ágeis e mais flexíveis frente aos embates da vida. “Viver é perigoso”, alertou Rosa. Ler um bom livro de literatura é tão perigoso quanto viver. Faz parte da Educação sentimental, para retomar o título de Gustave Flaubert. Um livro de literatura difícil é semelhante a um livro de filosofia. Requer um conhecimento prévio da tradição (em geral, ela deveria ser transmitida pela escola — mas nada impede que alguém assuma a tradição de maneira autodidata), requer paciência com a descodificação dos recursos retóricos, requer dedicação e abertura para experiências e ideias alheias e/ou estrangeiras. Destas podemos discordar no íntimo, mas eventualmente poderão nos fortalecer em situações existenciais que, ao sabor do acaso, estarão à nossa frente. A boa literatura e a filosofia nos trazem a sabedoria (wisdom, em inglês). O livro de literatura difícil é diferente, portanto, do livro de história ou do de sociologia, que nos trazem conhecimento (knowledge, em inglês). Na boa formação do cidadão responsável, sabedoria e conhecimento devem se casar. No mais, como diz Machado de Assis: “O maior defeito deste livro és tu, leitor. ‘Tu tens pressa de envelhecer, e o livro anda devagar; tu amas a narração direita e nutrida, o estilo regular e fluente, e este livro e o meu estilo são como os ébrios, guinam à direita e à esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem...”.


De que modo seus textos críticos e seus textos literários se misturam ou se diferenciam?

Cada autor tem suas particularidades. uma das minhas originalidades é a tranquilidade na mistura. Misturei gêneros (ficção, poesia, ensaio), misturei atividades (professor, tradutor, jornalista bissexto), misturei línguas (sou fluente em francês, inglês e espanhol) etc. Tranquilidade na mistura não significa necessariamente ambição desmedida. Significa, antes, o modo como resolvi significar a mim no universo cultural a que quero pertencer. Busco uma linguagem para cada gênero, busco um estilo para cada atividade, seleciono a língua nacional que possa corresponder à minha curiosidade angustiada. Vivo, penso, ajo e escrevo sempre em formas misturadas. É minha originalidade, e pode ser também o caminho mais áspero para chegar ao fracasso.


Você foi por muitos anos professor do departamento de letras da PUC-Rio, tendo dado aulas a muitos professores hoje atuantes. De que modo suas ideias como crítico e teórico entravam em suas aulas? Qual a influência de suas ideias nos estudos de literatura hoje no Brasil?

Essa pergunta deveria ser feita aos que foram meus alunos. Na falta de resposta deles, aventuro-me a dizer que nunca minimizei — em sala de aula — as várias facetas de minha personalidade, tal como a descrevi sumariamente acima. No mais, tive a sorte de ter recebido bolsa do governo francês e ter tido uma boa formação universitária francesa (meu doutorado foi defendido na Sorbonne). Aliei a essa formação anos e anos de trabalho na universidade norte-americana, naquela época totalmente diferente do sistema europeu, bastante influente na constituição da universidade brasileira (veja o caso da USP e da UFRJ). À formação européia e à experiência de ensino nos Estados Unidos somei constantes viagens — totalmente gratuitas — pelo México, onde pude entrar em contato com uma América Latina indígena, que escapava ao comum dos mortais brasileiros. Acrescento que, nos Estados Unidos, mantive sempre bom contato com professores de francês e de literatura comparada, de história e de sociologia, não tendo me restringido ao convívio com os colegas do departamento de espanhol e português. Diria, finalmente, que fui um pouco precoce em minhas conquistas universitárias, já que — a partir dos anos 1970, com a implantação das agências de fomento à pesquisa, como a CAPES e o CNPq — a formação e a experiência que tive passaram a ser norma para todo aluno de letras que se distinguia.


Como você pensa e vê o panorama da crítica literária no Brasil hoje?

Não se deve fazer esse tipo de pergunta a um velho professor, já aposentado. Por sorte nossa tudo muda. Nada é o mesmo. Querer que a crítica literária apresente hoje o rigor, o padrão e a abrangência que teve num momento meio que ideal dos estudos literários — que se situaria nas décadas de 1970 e 1980 — seria um contrassenso, a ser punido com tiro de revólver. A entrada da questão da “linguagem” (ou da “écriture”, para ficar com Jacques Derrida) nas ciências humanas e sociais trouxe um privilégio aos estudos literários que não se repetirá. De repente, a teoria literária poderia servir de “modelo” (uso a palavra com todo o cuidado e evito necessariamente qualquer tonalidade autoritária) para a psicanálise, a história, a antropologia, a filosofia e assim por diante. O Departamento de Letras — em particular, na sua pós-graduação — não só difundia autores, metodologias de leitura e ideias, como também propiciava ao grande texto literário (nacional ou estrangeiro) lugar de destaque. Naquela época era comum encontrar psicanalistas ou historiadores que se valiam da literatura nos seus trabalhos. Havia um congraçamento nas Humanas e Sociais, um companheirismo universitário, que se dissipa hoje, talvez pelo sopro do(s) Departamento(s) de Comunicação. Simplificando, a medida era outra. Os tempos eram outros. Não esperem lágrimas, mas não exijam otimismo hipócrita.


Que texto ou autor você sugeriria como uma leitura fundamental para entender a literatura contemporânea?

Há livros e há literatura. Há, portanto, autores que escrevem um ou dois livros que são julgados de boa qualidade e desaparecem ou passam a escrever bobagens. Há autores que dedicam toda uma vida à literatura. O modo de ler um livro não corresponde ao modo como lemos uma obra. Um livro pode ser uma experiência fascinante, que tem a duração regulamentada pela disponibilidade do leitor. Acompanhar uma obra é um tipo de experiência completamente diferente. Passamos uma vida em sua companhia. Crescemos com ela.

Para responder diretamente à sua pergunta, diria que o bom leitor contemporâneo é aquele que opta por acompanhar uma obra (de contemporâneo seu ou de autor já canônico). E compete a ele, só a ele, escolher o nome do contemporâneo ou do autor canônico. Isso não quer dizer que ele não deva ler livros ao sabor do varejo, já que é no varejo que ele descobrirá o autor, cuja obra será sua constante companhia por anos e anos de vida & leitura & reflexão.

Vista dessa perspectiva, toda literatura (a propriamen-te atual e a canônica) é contemporânea. Em outras palavras, a contemporaneidade da literatura é dada pelo leitor.


Esse texto foi publicado no plástico bolha nº25: download PDF

 

 






 

 


 

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