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Marilena Moraes


José Roberto O´Shea


O professor José Roberto O'Shea, renomado tradutor de Shakespeare da Universidade Federal de Santa Catarina, bateu um papo com o Plástico Bolha , para que todos conheçam um pouco de seu projeto, que contempla traduções em verso e anotadas da dramaturgia shakespeariana.

O´Shea é bacharel pela Universidade do Texas, mestre em Literatura pela Universidade Americana e PhD em Literatura Inglesa e Norte-Americana pela Universidade de Norte Carolina. Como research fellow , realizou estágios de pós-doutoramento no Instituto Shakespeare da Universidade de Birmingham e na Universidade de Exeter.  

 

Como o senhor define tradução ?

A meu ver, tradução é um complexo processo hermenêutico que envolve leitura, pesquisa, interpretação, escritura, revisão e reescritura.

 

Qual o maior desafio no trabalho de traduzir Shakespeare para leitores/espectadores do século XXI?

Redigir um texto que tenha valor estético e seja, ao mesmo tempo, linguisticamente acessível e não simplificado.

 

Qual o critério para a escolha das peças? Como é seu método de trabalho?

O projeto surgiu no início dos anos 90, no âmbito do Centro de Estudos Shakespeareanos (CESh), então filiado à UFMG. Era consenso à época que existia uma necessidade premente de novas traduções da dramaturgia shakespeareana. Uma colega do Centro, a profa. Margarida Rauen, havia acabado de traduzir Julius Caesar , em prosa, para uma montagem em Curitiba. A partir desse fato, fez-se a opção por traduzir mais uma das chamadas peças romanas , e Antony and Cleopatra foi a escolhida. Tal escolha se deveu também a outro critério: começar pelas peças menos frequentemente traduzidas.

Meu método de trabalho envolve algumas etapas. Considerando o fato de que 18 peças shakespeareanas existem em mais de uma versão original impressa, no caso desses textos de múltiplas versões , a primeira etapa envolve a seleção do texto a ser traduzido, dentre as diversas edições modernas disponíveis. Em seguida, as fontes de pesquisa para a anotação — cobrindo aspectos de texto, contexto, performance e tradução — precisam ser identificadas e estudadas. Daí tem início o processo tradutório em si, no qual, por minha opção, o pentâmetro iâmbico da poesia dramática original é vertido em decassílabos rimados ou não, seguindo as modulações do original. Devo salientar que costumo anotar à medida que traduzo, pois as notas muitas vezes me esclarecem questões. Concluída a primeira versão completa da tradução e das notas, encaminho o texto, na íntegra, para minhas três leitoras: as professoras Aimara da Cunha Resende, Marlene Soares dos Santos e Marcia Martins, que leem e comentam todo o trabalho. Depois que recebo o trabalho lido e comentado pelas três colegas, procedo à revisão final, etapa em que sempre aprendo muito, pois o trabalho das minhas leitoras é rigoroso e inspirado. Concluídas a revisão e a reescritura, o texto é encaminhado à editora, que procede a sua própria revisão, jamais alterando o texto sem me consultar. Antes da impressão final, recebo dois conjuntos sucessivos de provas, para leitura, nova revisão e retoques finais.

 

Como se sabe que uma tradução de Shakespeare precisa ser atualizada ?

Principalmente por se tratar de teatro, que afinal busca representar padrões de fala, a obsolescência do texto, de modo geral, fica patente no léxico empregado, mas esta se torna visível também em questões culturais e de pragmática. 

 

Como diferenciar teatro e literatura dramática ?

Teatro é o fenômeno, o evento cultural como um todo, conforme definido por Susan Bennett. É a encenação de um texto verbal, num tempo e num espaço, por seres humanos (atores) diante de outros seres humanos (público) que constroem ou não os significados no ato da recepção. Na experiência teatral, o texto verbal não detém qualquer hegemonia sobre significados; a linguagem verbal significa, com igual contundência, ao lado das demais linguagens da cena: corpo do ator, movimento, luz, cenário, figurino, maquiagem, música, som, silêncio, pausa etc. Já literatura dramática é o texto teatral estudado fora da sua dimensão cênica concreta. Não é que a cena seja totalmente descartada, pois no estudo da literatura dramática costuma-se buscar uma perspectiva cênica. Ocorre que, nesse caso, a cena é uma experiência virtual, não real, uma experiência no chamado teatro da mente .

 

Qual o ponto de partida para a tradução de peças a serem encenadas? O que o tradutor precisa ter em mente?

É preciso ter sempre em mente o que o teórico francês Patrice Pavis chama de situação de enunciação — ou seja, a realidade cênica não apenas das falas em si, mas também da interação entre os atores, do jogo de cena. Vejamos um exemplo: o tradutor precisa estar atento à dinâmica do palco, para decidir se determinada fala é dirigida a determinada pessoa ou a um grupo de pessoas, mesmo que uma só pessoa lhe responda, pois essa pessoa pode estar falando em nome do grupo. A decisão é crucial porque envolve sujeitos e verbos (no singular ou no plural).

 

O senhor ficou satisfeito com a encenação de O conto de inverno, com direção de Daniel Herz, e Os atores de Laura , no Rio de Janeiro, a partir de sua tradução? Até que ponto, como muitas vezes acontece no cinema, a peça passa a ser do diretor , não mais do tradutor/roteirista? Vocês trabalharam juntos? Qual a colaboração dos atores? Que alterações foram necessárias (cortes de cenas, de personagens etc.)?

Fiquei extremamente satisfeito, deveras comovido. Os Atores são profissionais abnegados. O texto é difícil, não simplificado, não naturalizado, mas os jovens Atores dele se apropriaram magistralmente, sob a orientação da profa. Marlene Soares dos Santos. Tive a sorte de trabalhar com o Daniel na adaptação de minha própria tradução, em que efetuei cortes, transposições etc. Aliás, esse tipo de adaptação não é absolutamente exclusivo ao teatro shakespeariano traduzido, pois ocorre igualmente no teatro shakespeariano em língua inglesa. A experiência constituiu, para mim, um grande aprendizado, pois pude testar com o Daniel minhas próprias intuições linguísticas e dramatúrgicas. Concretamente, fizemos poucos retoques no texto, mas foram importantes.

 

Qual a importância da revisão (no sentido de revision ) no trabalho do tradutor?

Uma revisão rigorosa, competente, criativa, simplesmente é um divisor de águas entre o fracasso e o sucesso. Costumo dizer que nossos colegas tradutólogos precisam pesquisar mais a questão da revisão — seja aquela feita pelo próprio tradutor (pois o ato tradutório em si implica intensa revisão), seja aquela feita por colaboradores conscienciosos e capazes.

 

Sinta-se à vontade para falar aos alunos de tradução e aos leitores do Plástico Bolha como é o ofício de traduzir, especialmente as peças do dramaturgo mais encenado do mundo.

Pensando de modo especial — mas não exclusivo — nos tradutores em princípio de carreira, gostaria de acrescentar apenas que para traduzir bem é imprescindível ser bom leitor e bom escritor. Quanto mais leitura tiver o tradutor — quer no idioma de partida, quer no de chegada — e quanto mais proficiente for sua expressão escrita no idioma de chegada, maiores serão suas chances de realizar boas traduções. Finalmente, quero agradecer ao Plástico Bolha a oportunidade de falar um pouco sobre meu trabalho.


Esse texto foi publicado no plástico bolha nº26: download PDF

 

 






 

 


 

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