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Ontem será amanhã
Fábio Bastos

Acordou na hora de sempre, foi ao banheiro e depois, para a cozinha, onde preparou uma xícara de café, colocou uma fatia de pão na torradeira, abriu a porta e pegou o jornal. Sentou-se então para tomar o café e dar uma olhada rápida no jornal. Estranhou a manchete, que parecia ser a mesma da véspera. Notou também que todas as notícias da primeira página eram as mesmas do dia anterior. Olhou então a data do jornal e verificou que era quarta-feira, ou seja, o entregador havia deixado um jornal do dia anterior. Isso nunca havia acontecido antes, mas para tudo existe uma primeira vez. Acabou de tomar seu café e saiu para trabalhar, avisando o porteiro do jornal do dia anterior.

Chegando ao trabalho, ligou o computador e verificou que as mensagens do correio eletrônico que apareciam como novas ele já havia lido na véspera. Achou estranho, mas como de um computador pode-se esperar qualquer coisa não ligou muito para o fato. Quando encontrasse alguém da área de Informática, comentaria o fato e certamente receberia mais uma explicação sem lógica. Seguiu trabalhando até que sua secretária veio avisá-lo que ele estava atrasado para a reunião do comitê, do qual ele era o coordenador. Ele respondeu que a reunião havia sido no dia anterior e ela retrucou que era hoje, quartafeira, e que era melhor ele se apressar porque já estavam todos na sala de reunião esperando por ele. Olhou para o relógio e descobriu que realmente ele marcava quartafeira. Ficou sem entender o que estava acontecendo e resolveu ir para a sala de reuniões.

Ao entrar na sala, verificou que sua secretária estava falando sério; todos os membros do comitê estavam ali sentados esperando por ele. Achou que deveria ser alguma brincadeira e decidiu colaborar. Sentou-se e abriu a pasta com a pauta com os itens que seriam discutidos e notou que todas as anotações que ele havia feito na véspera haviam sumido. Se fosse uma brincadeira, já estavam indo longe demais; e como explicar o caso do jornal e da data no seu relógio? Deu seguimento à reunião e notou que tudo transcorria exatamente como na véspera; as sugestões, as discussões e os apartes eram os mesmos. Era como se fosse um replay da reunião anterior. Estava confuso e não sabia o que pensar.

Terminada a reunião, voltou para sua sala e verificou que o relógio do seu computador também marcava quarta-feira. Estava convencido que o dia era realmente quarta-feira e ele estava vivendo pela segunda vez aquele dia. Lembrouse de que na primeira quarta-feira havia preparado um importante relatório e enviado para um cliente. Não encontrou qualquer cópia e registro do relatório nem na pasta do cliente nem nas correspondências enviadas. Foi obrigado a refazer o relatório e enviá-lo novamente. Passou o resto do dia sem saber exatamente o que fazer e não sentiu ânimo para comentar o que estava se passando.

Em casa, não notou nada diferente na sua família; todos agiam como se fosse uma quarta-feira como todas as outras. Durante o jantar seu filho lembrou do jogo do time deles que ia ser televisionado. Eles haviam assistido ao jogo na véspera e vibraram muito com a vitória por 2 a 1. Resolveu não contar para o filho o resultado do jogo, até porque não sabia como explicar o que estava acontecendo, e assistiram novamente ao jogo que transcorreu exatamente como no dia anterior. Era como se fosse um videoteipe e não um jogo ao vivo. Lembrou-se então de um filme em que o personagem vivia sempre o mesmo dia, mas aquilo era ficção e não aconteceria com ele na vida real. Mesmo assim, foi dormir preocupado.

Acordou antes da hora no dia seguinte, levantou-se rapidamente e foi direto pegar o jornal. Não acreditou no que viu: o jornal era de terça-feira e a primeira página estampava a foto do enterro de um famoso cantor que havia morrido em acidente de carro no fim de semana anterior. A notícia havia tomado conta de toda a mídia e o enterro havia sido na segunda-feira. Sentou-se na cadeira da cozinha e ficou ali por algum tempo tentando encontrar uma explicação para tudo aquilo.

Foi quando sua mulher entrou na cozinha e ele perguntou assim que a viu. “Que dia é hoje?” Ela respondeu prontamente: “Antes de qualquer coisa, bom dia; hoje é terça-feira e não se esqueça de ligar para sua irmã para dar os parabéns pelo aniversário dela. Não chegue muito tarde porque hoje vamos jantar na casa dela para comemorar”.

Vestiu-se e foi para o trabalho, preocupado com o que encontraria. Chegando lá, constatou que tudo que havia feito nas duas quartas-feiras e na terça-feira havia sumido. Verificou também que em cima de sua mesa estava a pasta de um cliente que ele tinha certeza que não deixara ali na véspera. Lembrou-se então de que na última terça-feira teve uma reunião com aquele cliente e, pelo visto, teria que ter novamente. Não lhe restava outra opção senão refazer o trabalho dos últimos dois dias. O que estava acontecendo com ele, fosse o que fosse, estava começando a irritá-lo.

À noite comemorou pela segunda vez na semana o aniversário da irmã e, ao voltar para casa, pouco antes da meia-noite, resolveu fazer um teste. Ficou sozinho na sala, olhando para o relógio; quando deu meia-noite, sentiu tudo apagar em sua volta, como se a energia de seu corpo tivesse sido desligada, até que, em fração de segundos, viu-se deitado na cama, lendo o jornal de domingo. Olhou assustado em volta e checou o relógio na mesa de cabeceira que marcava zero hora de segunda-feira. Sentiu vontade de chorar; aquele pesadelo ia continuar.

E a vida continuou assim para ele, sempre andando para trás no tempo. Sua semana começava numa sexta-feira e terminava num sábado. Via-se obrigado a refazer tudo que já havia feito antes. Aos poucos foi perdendo o interesse pelo que fazia já que, além de estar fazendo novamente, não tinha como verificar o resultado de suas ações. Acordava sempre com a esperança de aquilo tudo terminar e sua vida voltar ao normal, mas à medida que constatava que continuava retrocedendo no tempo foi ficando deprimido. De que adiantava viver se não sentia prazer no que fazia? Descobriu que era um homem sem futuro e passou então a reconhecer o valor exato dessa palavra. Tudo que se faz na vida, se faz com a intenção de tirar algum proveito no futuro; e se o futuro dele era o passado... Pensou em se aproveitar daquela situação já que tinha condições de voltar ao passado. Poderia, por exemplo, sabendo o resultado da loteria, apostar e ficar milionário. Mas de que adiantaria, se ele nunca poderia usufruir o dinheiro do prêmio? De que adiantaria assistir a um jogo de futebol, se ele já sabia de antemão o resultado? O campeonato para ele começava com o anúncio do time campeão e terminava na primeira rodada. A angústia foi tomando conta dele, que já não tinha mais prazer em viver nem esperanças de retornar à vida normal. Outro ponto que o incomodava é que todos em volta não notavam qualquer mudança nas suas atitudes e agiam como se ele estivesse normal. Descobrir o que estava acontecendo tornou-se uma obsessão.

Tudo havia começado naquela quarta-feira, e ele fez então um esforço para se lembrar de tudo que havia se passado naquele dia. No trabalho, havia participado da tal reunião pela manhã e, à tarde, preparado o relatório; nada de anormal. Em seguida, lembrou-se muito bem de por que e quando começaram a viver novamente o dia anterior. À noite, após o jantar com a família, assistiu com o filho ao jogo do seu time. Com esforço, foi se lembrando do que se passou após o jogo e, finalmente, tudo ficou claro. Havia passado mal após o segundo gol do seu time, suando frio, com falta de ar e uma dor no peito. Ao terminar o jogo, entrou no banheiro pensando em lavar o rosto, quando se sentiu sem forças e caiu no chão. Tentou pedir socorro, mas sua voz não saiu da garganta. Ficou por algum tempo caído no chão do banheiro até ouvir vozes em volta, mas tudo muito longe. No início sentiu frio, mas depois se sentiu bem, livre de qualquer sensação de dor e incômodo.

Ao recordar tudo aquilo, descobriu finalmente o que acontecera: ele havia morrido naquela noite de quartafeira, no chão frio do banheiro. A descoberta, ao invés de assustá-lo, trouxe-lhe uma paz interior muito grande. O que se passava devia ser o caminho natural após a morte. Ele estaria vivendo a segunda metade de sua passagem por esse mundo, como se alguém estivesse rebobinando o filme da vida. Sua missão dali para frente não seria mais de realizar algo, de deixar sua marca no mundo, mas sim de participar como mero espectador. Não estava vivendo para mudar o que já havia feito na vida, mas sim para refletir. Era uma chance de repensar seus atos; de rever tudo que havia feito de bom e de ruim, seus erros e acertos, suas alegrias e tristezas. Reencontraria pessoas queridas que já haviam partido e de quem sentia saudades. Veria seus filhos novamente crianças e sentiria uma vez mais a alegria de vê-los nascer. Seria jovem outra vez e poderia rever seus amigos de infância. Voltaria a ser menino até chegar ao útero materno, quando cairia o pano do último ato da sua existência.




Esse texto foi publicado no plástico bolha nº27: download PDF

 

 






 

 


 

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